quarta-feira, 2 de julho de 2025

O início das viagens dos paquetes ingleses para o Brasil (1808)

 

A despeito das acusações de contrabando, os paquetes britânicos continuaram a circular entre Falmouth e Lisboa até as primeiras décadas do século XIX. Somente viriam a sofrer uma interrupção maior em 1807 com as guerras napoleônicas, durante o bloqueio do Tejo pela armada britânica e a invasão de Lisboa pelas tropas do francês Junot.[1] 

Figura 1 - HM Packet Walsingham.
Aquarela de  Cammillieri, s.d. National Maritime Museum Cornwall.
Fonte: https://www.maritimeviews.co.uk/cammillieri-packet-portraits/hmp-walsingham/


Quando o governo português fechou seus portos às embarcações inglesas, em 22 de outubro de 1807, o paquete Walsingham havia chegado ao Tejo. Chegou a ser alvejado pelas baterias lusas no dia 4 de novembro, mas ficou na costa, à espera de informações. O cônsul inglês e agente dos paquetes em Lisboa, Henry Chamberlain, recebera ordens de manter o serviço postal em funcionamento até o último instante. Como precaução, fretara uma pequena escuna armada, que ficou à sua disposição. Quando, em 11 de novembro, julgou a situação insustentável, conseguiu chegar ao Walsingham e foi nele que voltou à Inglaterra com as notícias do que acontecia (Lloyd's, 1807; Norway, 1893, p. 173-176; Walsingham, 2024).

Pouco depois, como é sabido, o quadro mudaria completamente. A Corte portuguesa migrou para o Rio de Janeiro e foi emitida a Carta Régia de 28 de janeiro de 1808, que abriu os portos brasileiros às nações amigas de Portugal. A nova situação fez com que, rapidamente, os navios correio britânicos destinados à antiga capital europeia fossem redirecionados para o Brasil, por meio de uma decisão do Parlamento datada de 30 de junho de 1808  (Act, 1809, v. 3, p. 525-526). 

Figura 2 - Nota sobre o Ato Parlamentar de 30 de junho de 1808.
Fonte: Olenkiewicz, 2018, p. 2.

Essa mudança é bastante conhecida pela historiografia inglesa. Abordaram-na,  entre outros, Hemmeon (1912, p. 151), Howat (1984, p. 3) e Olenkiewicz (2018ab p. 2). Todavia, apesar das evidências trazidas por esses estudos, em Portugal e no Brasil, a maioria dos trabalhos continuou a apresentar como marco do processo a Convenção assinada entre as duas Coroas em fevereiro de 1810 (Frazão, 2010; Guapindaia, 2019, p. 256; Guapindaia, 2022, p. 29-30; Goldfeder, 2022, p. 52). Fortunato (2023, p. 251) chegou a registrar a circulação para o Brasil dos paquetes  em 1809, com base em uma notícia do Correio Braziliense, mas sem identificar quando ela começara. Todavia, a partir da recuperação daquela historiografia britânica  anterior, alguns estudos no Brasil também vêm apontando a data correta do início da nova linha de paquetes. São os casos de: Santos, 2011; Lopes, 2020; Salvino, 2022; Goldfeder e Salvino, 2024a, p. 78; Goldfeder e Salvino, 2024b, p. 5.

Na verdade, quando a Convenção de 1810 foi celebrada, já tinham partido de Falmouth para o Brasil dezessete paquetes, dos quais dois ainda estavam em trânsito. Veja-se, nesse sentido, o Quadro 1, que omite as passagens pela Madeira e traz algumas datas incompletas. O primeiro desses navios foi o mesmo brigue Walsingham que chegara a ser alvejado pelos canhões portugueses no Tejo. Deixou a Inglaterra em 14 de julho de 1808. Foram cinco naquele ano, um dos quais, o Duke of Marborough, apresado por corsários franceses, não chegou ao destino. O Dispatch, último dessa sequência saiu do porto inglês em 19 de fevereiro de 1810, na mesma data em que a Convenção era assinada no Rio de Janeiro.

Quadro 1 - Primeiros paquetes ingleses para o Brasil (julho 1808-fevereiro de 1810)
Fontes: Howat, 1984, p. 7; Olenkiewicz, 2018, p. 3-5.

Desde a primeira viagem, os paquetes provavelmente ancoravam também na Bahia. O registro mais antigo que encontramos até agora sobre a passagem de um deles por ali refere-à segunda viagem. Trata-se de um ofício enviado pelo Conde da Ponte, governador da Bahia, para a Corte em 29 de outubro de 1808, a respeito de notícias que recebera pelo paquete Townshend sobre a guerra contra os franceses em Portugal. O ofício em questão é referenciado na resposta dada ao Conde da Ponte por D. Fernando de Portugal em 9 de dezembro daquele mesmo ano (APEB, BR BAAPEB CCivil-CAREG-105-92). Como se pode verificar no Quadro 1, o Townshend somente deixou o Rio de Janeiro em 1 de dezembro, tendo chegado ali, provavelmente, por volta do dia 15 de novembro. Essa sequência de datas mostra que, na verdade, tocou na Bahia antes de chegar à Corte. Não faria sentido o Conde da Ponte ter enviado seu ofício por ele, de modo que deve tê-lo feito por outro navio. Portanto, o paquete deve ter ficado parado na Bahia mais tempo do que seria usual nos anos posteriores. De qualquer modo, o episódio não apenas comprova a antiguidade dessas paradas, mas é um bom exemplo de como se dava circulação de informações na época.

Fonte primária manuscrita

ARQUIVO Público do Estado da Bahia (APEB), Carta de D. Fernando José de Portugal para o conde da Ponte, comunicando que levou à presença do príncipe regente, o ofício através do qual informou as notícias recebidas do paquete inglês Towns Kend, a respeito das duas vitórias dos ingleses [...]. 9 de dezembro de 1808. BR BAAPEB CCivil-CAREG-105-92. 

Fontes primárias impressas

ACT for Granting to His Majesy Rates of Postage on the Conveyance of Letters and Packetsfrom the Island of Madeira, and to and from the Portuguese Territories on the Continent of South America. 30 de junho de 1808. In: TOMLINS, Thomas Edlyne (org.). The Statutes of the United Kingdom of Great Britain and Ireland, whit Notes, References and An Index […]. London: Georg Eyre and Andrew Strahan, 1809.

CONVENÇÃO entre o Príncipe Regente o Senhor D. João, e Jorge III da Gran-Bretanha, sobre o estabelecimento de paquetes [...], de 19 de fevereiro de 1810. In: CASTRO, José Ferreira Borges de. Collecção dos Tratados, Convenções, Contratos e Actos Publicos celebrados entre a Coroa de Portugal e mais potências de 1640 até o presente. Lisboa: Imprensa Nacional, 1857.

LLOYD's List, 27 de novembro de 1807. Disponível em: https://babel.hathitrust.org/cgi/pt?id=uc1.c2735023&seq=197. Acesso em: 25 jun. 2025.

TRATADO de Commercio e Navegação entre o Príncipe Regente o Senhor D. João, e Jorge III da Gran-Bretanha [...], de 19 de fevereiro de 1810. In: CASTRO, José Ferreira Borges de. Collecção dos Tratados, Convenções, Contratos e Actos Publicos celebrados entre a Coroa de Portugal e mais potências de 1640 até o presente. Lisboa: Imprensa Nacional, 1857a.

TRATADO de paz, feito por mediação de Sua Magestade Catholica entre o Príncipe Regente Dom João e a República Franceza [...], de 6 de junho de 1801. In: CASTRO, José Ferreira Borges de. Collecção dos Tratados, Convenções, Contratos e Actos Publicos celebrados entre a Coroa de Portugal e mais potências de 1640 até o presente. Lisboa: Imprensa Nacional, 1857b.


Bibliografia

FORTUNATO, Thomáz. Topologias do tempo: a formação da rede dos correios no Brasil (1796-1829). São Paulo: FFLCH/USP, 2023. Dissertação (Mestrado em História Social da USP).

FRAZÃO, Luís V. P. B. Cartas de Inglaterra para o Brasil pelo paquete do Rio de Janeiro (1811- 1815). Boletim do Clube Filatélico de Portugal, n. 249, p. 7-35, 2010. 

GOLDFEDER, Pérola. “Em torno do trono”: a economia política das comunicações postais no Brasil do século XIX. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2022.

GOLDFEDER, Pérola; SALVINO, R. V. Le Brésil dans la mondialisation postale, des traités bilatéraux à l’entrée dans l’Union postale universelle (1810-1877). Monde(s), n. 26, p. 75-92, 2024a.

GOLDFEDER, Pérola; SALVINO, R. V. Jogo contínuo de numerosas molas: Comunicações postais entre Brasil e Inglaterra, dos tratados bilaterais à UPU (1808 – 1877). In: 20º Seminário de Diamantina: Anais. Belo Horizonte: UFMG; Cedeplar, 2024b.  Disponível em: <https://diamantina.cedeplar.ufmg.br/portal/publicacoes/diamantina-2024/>. Acesso em: 19 abr. 2025.

GUAPINDAIA, Mayra Calandrini. O controle do fluxo das cartas e as reformas de correio na América Portuguesa (1796-1821). Lisboa: ICS-UL, 2019. Tese (Doutorado em História da UL).

GUAPINDAIA, Mayra Calandrini. Correios da Bahia: A experiência global das comunicações terrestres e marítimas no processo da Independência (1798-1822). In: PIMENTA, João Paulo; SANTIROCCHI, Ítalo Domingos. A Independência do Brasil em perspectiva mundial. São Paulo: Alameda, 2022.

HEMMEON, J. C. The History of the British Post Office. Cambridge: Harvard University, 1912.

HOWAT, Jeremy Noel Thomas. South American Packets: The British Packet Service to Brazil, the River Plate, the West Coast (via the Straits of Magellan) and the Falkland Islands, 1808-80. London: The Postal History Society; York: William Sessions, 1984.

LOPES, Klerman. Convenções postais entre o império do Brasil e os demais países. São Paulo, 2020. Disponível em: <https://www.sppaulista.com.br/post/conven%C3%A7%C3%B5es-postais-entre-o-imp%C3%A9rio-do-brasil-e-os-demais-pa%C3%ADses-klerman-lopes>. Acesso em: 30 maio 2025.
   
NEWITT, Malyn; ROBSON, Martin. (orgs.). Lord Beresford e a intervenção britânica em Portugal, 1807-1820. Lisboa: ICS, 2004.

NORWAY, Arthur H. History of the Post-Office Packet Service Between the Years 1793-1815. London: Macmillan, 1895.

OLENKIEWICZ, J. S. Falmouth Packet Sailings to Brazil: 1808-1850. London: Great Britain Philatelic Society, 2018b. Disponível em: <https://www.gbps.org.uk/information/downloads/postal-history.php>.  Acesso em: 6 fev. 2024.

PAWLYN, Tony. The Falmouth Packets: 1689-1851. Cornwall, Truran, 2003.

SALVINO, Romulo Valle. Reformas postais joaninas: redes de comunicação escrita e novas territorialidades em um império em movimento. Santa Maria, Universidade Federal de Santa Maria, 2022. Ciclo de Palestras Horizontes Atlânticos. Disponível em: <https://www.youtube.com/live/77Yb1d558ZU> . Acesso em: 25 abr. 2025.

SANTOS, Everaldo Nigro dos. Documentos postais na História do Brasil. São Paulo: Edição do Autor, 2011.

WALSINGHAM (1795 ship). In: WIKIPEDIA: The Free Encyclopedia. 2024. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Walsingham_(1795_ship)#Notes>. Acesso em: 25 jun. 2025

Notas

[1] A respeito do cerco de Lisboa e da invasão da cidade pelas tropas francesas, consultar, entre outros: Newitt; Robson, 2004, p. 23-47

 

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