segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Os ataques aos correios marítimos Caçador e Olinda (1801)

Os próximos ataques a paquetes portugueses somente viriam a acontecer em 1801. Naquele ano, foram perdidos o Caçador e o Santo Antônio de Olinda (também conhecido como Olinda), ambos destinados às capitanias setentrionais. Portugal estava, naquele momento, em guerra não só com a França, mas também com a Espanha, cujos corsários capturaram o segundo desses navios.[1] Esparteiro (1976, p. 49-50), o notável historiador naval português, refere-se ao apresamento do primeiro deles, mas não registrou o segundo caso.


Figura 1 - Bergantim. Fonte: Fuerteventura en imágenes. Disponível em: https://fuerteventuraenimagenes.com/el-ultimo-ataque-corsario-en-fuerteventura/#google_vignette

Não obtive registros mais circunstanciados sobre esses apresamentos. O Caçador, comandado pelo 1º Tenente João Urbano de Seixas, chegou a ter a sua partida anunciada para o dia 25 de outubro de 1800, mas somente se lançaria ao mar em 6 de dezembro. No início de março seguinte, estava no Maranhão, onde lhe foi prestado auxílio, com uma despesa de 329$245 réis.[2] Dali, seguiu para o Pará, mas não há notícias sobre a eventual chegada dele àquela capitania, de modo que deve ter sido capturado no trajeto. A informação de que foi vítima de um corsário francês é de Esparteiro (1976, p. 50), que não consigna qual seria a fonte primária.

Olinda, comandado pelo 2º Tenente Joaquim Manuel Mendes, teve a sua partida de Lisboa anunciada para o dia 1º de março de 1801, no entanto só saiu efetivamente no dia 3 de abril.[3] Teve uma viagem bastante acidentada. No dia 9 de maio, o paquete entrou em Pernambuco com avarias no leme e em outras partes, o que o obrigou a ficar naquele porto até o dia 27 do mesmo mês.[4] No final de junho, ainda se demorava no Maranhão, onde se embarcaram diversos produtos vindos do Piauí, com valores não especificados, além de uma carga de algodão e arroz, no montante de 973$146 réis.[5] 

Figura 2 - Anúncio de partida do Santo Antônio de Olinda. Fonte: Gazeta de Lisboa, n. 5 (suplemento), 6 de fevereiro de 1801, p. 4.

O paquete saiu do Pará apenas no início de agosto.  No dia 31 daquele mês, foi atacado por uma escuna corsária espanhola, a qual, segundo o tenente Mendes teria noventa e seis tripulantes, dez peças de calibre entre quatro e seis, além de uma columbrina.[6] A narração que o comandante do paquete deixou do episódio é bem vívida. Reproduzo-a aqui, com a pontuação original, atualizando apenas a ortografia:

[...] não podendo retirar-me por ter o dito corsário mais vantagem em sua marcha, atacando-me fez algum fogo, ao que me defendi fazendo-lhe fogo durante o dito combate o espaço de duas horas tentando o dito corsário duas vezes abordar, não o podendo fazer pelo contínuo fogo que lhe fui fazendo até que se achava [sic] a meu bordo dois homens feridos de bala tendo alguns cabos cortados, e crivado pano com muita metralha, sendo o vento bonança e tentando a terceira abordagem pela velocidade do dito corsário me abordou metendo-me mais de cinquenta homens dentro armados de espadas, facas e pistolas não podendo resistir pela pouca gente que tinha ficaram senhores do bergantim arriando eles mesmo a bandeira portuguesa que ainda se achava  içada, e eu a esse tempo já tinha feito lançar ao mar todas as malas, e mais papéis e vias fora das malas [...][7]

No combate, os espanhóis teriam ficado com pelo menos dois homens feridos, além de três mortos. Segundo o tenente Mendes, ele próprio saiu da luta com duas feridas de bala e oito golpes de espada.  O paquete e sua tripulação foram levados para Porto Rico, onde a presa foi declarada “boa” em julgamento que avaliou o caso. Dois dias depois, o tenente viu em uma gazeta estadunidense que a guerra entre Portugal e Espanha acabara antes do ataque em questão.[8] No entanto, o governador local rejeitou o recurso que lhe foi apresentado por esse motivo, com a alegação de que as notícias do jornal não eram oficiais. Os marinheiros portugueses foram levados para São Tomás, nas Ilhas Virgens Britânicas, enquanto Mendes e o escrivão receberam licença para irem até a Filadélfia em uma escuna inglesa. Dali, saíram em uma galera sueca para Lisboa, mas uma tempestade os fez arribar em Málaga, de onde seguiram por terra. Desse modo, o tenente somente apresentou oficialmente seu relato sobre o caso em 6 de março de 1802, mais de seis meses depois do ocorrido. [9]

Referências

ESPARTEIRO, António Marques. Catálogo dos Navios Brigantinos (1640-1910). Lisboa, Centro de Estudos da Marinha, 1976. 



Notas

[1] Entre 20 de maio e 6 de junho de 1801, aconteceu a chamada Guerra das Laranjas, encerrada por meio do Tratado de Badajoz, que teve seus termos revistos em 29 de setembro em Madri.. O conflito terminou com perdas territoriais no Reino, mas no mesmo ano foram retomados os Sete Povos das Missões na América portuguesa.

[2] AHU_CU_MARANHÃO, Cx. 116, D. 8966.

[3] Gazeta de Lisboa, n. 5 (suplemento), 6 de fevereiro de 1801, p. 4; AHU_CU_BRASIL-GERAL, cx. 34, D. 2744.

[4] AHU_CU_PERNAMBUCO, Cx. 226, D. 15309.

[5] AHU_CU_MARANHÃO, Cx. 116, D. 9020; AHU_CU_MARANHÃO, Cx. 117, D. 9023.

[6] AHU_CU_BRASIL-GERAL, cx. 34, D. 2744.

[7] AHU_CU_BRASIL-GERAL, cx. 34, D. 2744.

[8] O conflito terminara oficialmente em 6 de junho de 1801, com a assinatura do Tratado de Badajoz, de modo que o ataque ao paquete acontecera já durante o período de paz.

[9] AHU_CU_BRASIL-GERAL, cx. 34, D. 2744.

O ataque do Le Grand Bonaparte ao Postilhão da América (1799)


Maria Verônica Secreto, em seu trabalho sobre o Le Grand Bonaparte, mencionado em nossa postagem anterior, não aborda o ataque ao Alvacora. 

Figura 1 - Maquete do Postilhão da América. Fonte: Acervo do Museu Correios.

Todavia, segundo aquela autora, em 1799, depois de apresar perto de Cabo Frio uma corveta inglesa, a Duff, levada para Montevidéu sob as ordens de um oficial francês, o comandante do Le Grand Bonaparte decidiu

ficar perto do Rio de Janeiro aguardando a oportunidade de realizar nova presa. Nos dias seguintes capturou uma zumaca, (embarcação muito parecida com um bergantim) de bandeira portuguesa, A Nazaré, com carregamento de sal, e O Postilhão da América, um bergantim correio português. Todos ingressaram no porto de Montevidéu e, salvo a Duff, foram vendidos com certa celeridade. A fragata Duff, da London Missionary Society, ficou no porto de Montevidéu depois que os corsários partiram, apesar das ordens para não abandonarem presa no porto (Secreto, 2016, p. 425-426).

Realmente, o Postilhão da América foi o terceiro paquete a sofrer um ataque desse tipo.  A sua partida de Lisboa foi anunciada para o dia 10 de dezembro de 1798, sob comando do 1º Tenente Rufino José Peres Batista, juntamente com o Santo Antônio de Olinda, mas não temos como assegurar se saiu realmente nessa data.[1] Em 8 de fevereiro do ano seguinte chegou à Bahia, de onde partiu cinco dias depois com destino ao Rio de Janeiro.[2] Todavia, como comunicou depois D. Fernando José de Portugal,  governador da Bahia, para o secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, tinham chegado àquela capitania notícias de que o Postilhão fora apresado por um corsário francês na altura de Cabo Frio, “escapando as malas e vias, por ter o comandante a cautela de as mandar para terra em um bote, notícia que foi para mim desagradável, até pela consideração de o ter mandado construir neste porto por ordem de Sua Majestade.”[3]

Figura 2 - Aviso de partida do Postilhão da América.
Fonte: Gazeta de Lisboa, n. 49, 4 de dezembro de 1798, p. 4.

A notícia do ataque foi confirmada pelo vice-rei, Conde de Rezende, que, em 30 de maio de 1799, também escreveu a D. Rodrigo:

No infausto encontro que teve o Correio Marítimo Príncipe Real com um corsário francês que o apresou na altura de Cabo Frio, teve o seu comandante Rufino Peres Batista o acordo de meter em um catraio as malas que lhe foram confiadas; e chegando este felizmente a terra foram conduzidas para esta cidade [do Rio de Janeiro] com a devida segurança.[4]

Note-se que há um equívoco na identificação do paquete, confundido aqui com outro. O Príncipe Real saíra de Lisboa, com destino aos portos setentrionais, dois meses antes do Postilhão da América iniciar a sua viagem.[5] Passara por Salinas, no Pará, em fevereiro e chegara a Lisboa em 8 de abril de 1799, pouco menos de dois meses antes de o Conde de Rezende enviar seu ofício. O comandante mencionado pelo vice-rei, Rufino [José] Peres Batista, como vimos, estava à frente do Postilhão da América e não do Príncipe Real.

Há uma grande lacuna nesse caso. Não há como duvidar do apresamento do Postilhão da América, haja vista os ofícios de D. Fernando Portugal e do Conde de Resende (ainda que esse tenha se equivocado sobre o nome do navio), já mencionados antes por Mayra Guapindaia. O trabalho de Maria Verônica Secreto confirma o episódio com base em outra documentação. Entretanto, como veremos, o paquete continuou a navegar com a bandeira lusa até o início de 1803, tendo realizado mais duas viagens. De alguma forma, foi libertado, mas, no decorrer desta pesquisa, não se conseguiu apurar como isso aconteceu. Esparteiro (1976, p. 50), um historiador que é referência para a história naval portuguesa, menciona apenas o posterior naufrágio do navio, sem dar notícia sobre o ataque corsário que sofreu. Guapindaia (2019, p. 252) limitou-se a dizer, pluralizando o episódio, que: “Alguns paquetes foram efetivamente tomados por corsários, mas conseguiram escapar e seguir seu itinerário. Foi o caso do Postilhão da América, em fevereiro de 1799.” Assim, há espaço aqui para novas pesquisas.


Referências


ESPARTEIRO, António Marques. Catálogo dos Navios Brigantinos (1640-1910). Lisboa, Centro de Estudos da Marinha, 1976. 
GUAPINDAIA, Mayra Calandrini. O Controle do Fluxo das Cartas e as Reformas de Correio na América Portuguesa (1796-1821). Tese de doutorado em História, Lisboa, Universidade de Lisboa, 2019.
SECRETO, Maria Verónica. Territorialidades fluidas: corsários franceses e tráfico negreiro no Rio da Prata (1796-1799). Tensões locais-tensões globais. Topoi, v. 17, n. 33, p. 419-443, 2016. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/topoi/a/vkvzbnTkTs5BcvMRMnbgtbh/?format=html&lang=pt>. Acesso em: 01 dez. 2025.


Notas

[1] Gazeta de Lisboa, n. 49, 4 de dezembro de 1798, p. 4.

[2] AHU, Bahia, Cx. 98, D. 19181.

[3] AHU, Bahia, Cx. 99, D.19365. Esse mesmo episódio é registrado por Mayra Guapindaia (2019, p. 252-253).

[4] AHU, Rio de Janeiro, Cx. 98, D. xxx.

[5] Gazeta de Lisboa, n. 39 (segundo suplemento), 29 de setembro de 1798, p. 4.

Os ataques aos correios marítimos Caçador e Olinda (1801)

Os próximos ataques a paquetes portugueses somente viriam a acontecer em 1801. Naquele ano, foram perdidos o  Caçador  e o Santo Antônio de ...