Os próximos ataques a paquetes portugueses somente viriam a acontecer em 1801. Naquele ano, foram perdidos o Caçador e o Santo Antônio de Olinda (também conhecido como Olinda), ambos destinados às capitanias setentrionais. Portugal estava, naquele momento, em guerra não só com a França, mas também com a Espanha, cujos corsários capturaram o segundo desses navios.[1] Esparteiro (1976, p. 49-50), o notável historiador naval português, refere-se ao apresamento do primeiro deles, mas não registrou o segundo caso.
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| Figura 1 - Bergantim. Fonte: Fuerteventura en imágenes. Disponível em: https://fuerteventuraenimagenes.com/el-ultimo-ataque-corsario-en-fuerteventura/#google_vignette |
Não obtive registros mais circunstanciados sobre esses apresamentos. O Caçador, comandado pelo 1º Tenente João Urbano de Seixas, chegou a ter a sua partida anunciada para o dia 25 de outubro de 1800, mas somente se lançaria ao mar em 6 de dezembro. No início de março seguinte, estava no Maranhão, onde lhe foi prestado auxílio, com uma despesa de 329$245 réis.[2] Dali, seguiu para o Pará, mas não há notícias sobre a eventual chegada dele àquela capitania, de modo que deve ter sido capturado no trajeto. A informação de que foi vítima de um corsário francês é de Esparteiro (1976, p. 50), que não consigna qual seria a fonte primária.
O Olinda, comandado pelo 2º Tenente Joaquim Manuel Mendes, teve a sua partida de Lisboa anunciada para o dia 1º de março de 1801, no entanto só saiu efetivamente no dia 3 de abril.[3] Teve uma viagem bastante acidentada. No dia 9 de maio, o paquete entrou em Pernambuco com avarias no leme e em outras partes, o que o obrigou a ficar naquele porto até o dia 27 do mesmo mês.[4] No final de junho, ainda se demorava no Maranhão, onde se embarcaram diversos produtos vindos do Piauí, com valores não especificados, além de uma carga de algodão e arroz, no montante de 973$146 réis.[5]
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| Figura 2 - Anúncio de partida do Santo Antônio de Olinda. Fonte: Gazeta de Lisboa, n. 5 (suplemento), 6 de fevereiro de 1801, p. 4. |
O paquete saiu do Pará apenas no início de agosto. No dia 31 daquele mês, foi atacado por uma escuna corsária espanhola, a qual, segundo o tenente Mendes teria noventa e seis tripulantes, dez peças de calibre entre quatro e seis, além de uma columbrina.[6] A narração que o comandante do paquete deixou do episódio é bem vívida. Reproduzo-a aqui, com a pontuação original, atualizando apenas a ortografia:
[...] não podendo retirar-me por ter o dito corsário mais vantagem em sua marcha, atacando-me fez algum fogo, ao que me defendi fazendo-lhe fogo durante o dito combate o espaço de duas horas tentando o dito corsário duas vezes abordar, não o podendo fazer pelo contínuo fogo que lhe fui fazendo até que se achava [sic] a meu bordo dois homens feridos de bala tendo alguns cabos cortados, e crivado pano com muita metralha, sendo o vento bonança e tentando a terceira abordagem pela velocidade do dito corsário me abordou metendo-me mais de cinquenta homens dentro armados de espadas, facas e pistolas não podendo resistir pela pouca gente que tinha ficaram senhores do bergantim arriando eles mesmo a bandeira portuguesa que ainda se achava içada, e eu a esse tempo já tinha feito lançar ao mar todas as malas, e mais papéis e vias fora das malas [...][7]
No combate, os espanhóis teriam ficado com pelo menos dois homens feridos, além de três mortos. Segundo o tenente Mendes, ele próprio saiu da luta com duas feridas de bala e oito golpes de espada. O paquete e sua tripulação foram levados para Porto Rico, onde a presa foi declarada “boa” em julgamento que avaliou o caso. Dois dias depois, o tenente viu em uma gazeta estadunidense que a guerra entre Portugal e Espanha acabara antes do ataque em questão.[8] No entanto, o governador local rejeitou o recurso que lhe foi apresentado por esse motivo, com a alegação de que as notícias do jornal não eram oficiais. Os marinheiros portugueses foram levados para São Tomás, nas Ilhas Virgens Britânicas, enquanto Mendes e o escrivão receberam licença para irem até a Filadélfia em uma escuna inglesa. Dali, saíram em uma galera sueca para Lisboa, mas uma tempestade os fez arribar em Málaga, de onde seguiram por terra. Desse modo, o tenente somente apresentou oficialmente seu relato sobre o caso em 6 de março de 1802, mais de seis meses depois do ocorrido. [9]
ESPARTEIRO, António
Marques. Catálogo dos Navios Brigantinos (1640-1910). Lisboa, Centro de
Estudos da Marinha, 1976.
Notas
[1] Entre 20 de maio e 6 de junho de 1801, aconteceu a chamada Guerra das Laranjas, encerrada por meio do Tratado de Badajoz, que teve seus termos revistos em 29 de setembro em Madri.. O conflito terminou com perdas territoriais no Reino, mas no mesmo ano foram retomados os Sete Povos das Missões na América portuguesa.
[2] AHU_CU_MARANHÃO, Cx. 116, D. 8966.
[3] Gazeta de Lisboa, n. 5 (suplemento), 6 de fevereiro de 1801, p. 4; AHU_CU_BRASIL-GERAL, cx. 34, D. 2744.
[4] AHU_CU_PERNAMBUCO, Cx. 226, D. 15309.
[5] AHU_CU_MARANHÃO, Cx. 116, D. 9020; AHU_CU_MARANHÃO, Cx. 117, D. 9023.
[6] AHU_CU_BRASIL-GERAL, cx. 34, D. 2744.
[7] AHU_CU_BRASIL-GERAL, cx. 34, D. 2744.
[8] O conflito terminara oficialmente em 6 de junho de 1801, com a assinatura do Tratado de Badajoz, de modo que o ataque ao paquete acontecera já durante o período de paz.
[9] AHU_CU_BRASIL-GERAL, cx. 34, D. 2744.


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