sexta-feira, 2 de junho de 2023

Um gabinete negro no Rio de Janeiro joanino

 

Em 1810, tendo em vista a transferência da família real para o Brasil, o Rio de Janeiro já era de fato a sede da monarquia portuguesa há dois anos. Naquele momento, foram dados os primeiros passos para a instalação de um gabinete negro nos trópicos.

Palace Square, Rio de Janeiro. Richard Bate. Acervo da Biblioteca de Cornell, NY. Fonte: 1808 – Paisagem da cidade – História do Rio para todos (historiadorioparatodos.com.br)



Em 5 de maio daquele ano, D. Fernando de Portugal, Conde da Cunha e presidente do Real Erário, determinou ao governo interino do Reino que um dos oficiais do Correio Geral, Francisco Antônio Ferreira Souto, embarcasse de imediato para o Rio de Janeiro, juntamente com a sua família. O referido funcionário deveria dar continuidade no Brasil ao trabalho que já realizava em Lisboa: a abertura de “correspondências suspeitas”. Para tanto, deveria levar consigo os instrumentos necessários.

Ferreira Souto era um ex-funcionário da Secretaria de Marinha e Ultramar e contava, na época, com cerca de cinquenta e cinco anos. Para embarcar para o Brasil fez três pedidos: que fossem gratuitas as passagens para ele, a mulher, dois filhos, um sobrinho e um criado; que lhe fossem pagos os ordenados e pensões atrasadas; que recebesse não apenas os utensílios constantes de uma lista que fez, mas a receita de uma certa massa utilizada durante a abertura das correspondências.

Quanto ao primeiro item, a dívida da Coroa montava a cerca de 1 conto e 300 mil réis, que incluíam os pagamentos de todo o ano de 1808, três quartos dos salários de 1810 e algumas parcelas de 1798. Tendo em vista que, cerca de cinquenta dias depois de receber a ordem de transferência, ainda “não recebera um só real”, Ferreira Souto apelou “à reconhecida piedade” do Patriarca de Lisboa, líder dos governadores do Reino, para lhe “mandar pagar ao menos este ano de 1810, graça que se persuade merecer de V. Exa. a fim de poder cumprir as ordens de Sua Alteza Real” Esse pedido foi atendido, mas, assim que desembarcou no Brasil, o diligente funcionário alegou despesas extraordinárias com a viagem para requerer os valores faltantes.

Quanto ao deslocamento para o Rio, foram concedidas para ele e sua família passagens na fragata Carlota, que devia zarpar em breve para aquela cidade. Ao partir, Ferreira Souto voltou a requerer, desta vez para que lhe dessem acomodações mais dignas, pois ficara em um camarote muito ruim e seus filhos, que eram cadetes, estavam instalados nas mesmas condições dos grumetes do navio. Não tinham sequer acesso ao fogão para fazer sua comida. Não deve ter sido atendido, pelo que se depreende de outro requerimento que apresentou já no Brasil, a reclamar novamente dos proventos atrasados. Não sabemos se o sobrinho e o criado embarcaram. O tal sobrinho foi preso às vésperas da viagem para servir como soldado e, apesar das súplicas de Ferreira Souto, provavelmente não foi solto a tempo.

A lista de utensílios apresentada foi submetida à avaliação do Inspetor Geral do Correio, que forneceu outra, mais enxuta.  A ordem é que fosse autorizado o transporte apenas dos itens que Ferreira Souto não pudesse obter facilmente no Brasil.

Ambas as listas estão reproduzidas a seguir, pois dão uma boa ideia de como se desenvolvia a atividade. Os itens grafados em itálico foram eliminados da segunda lista e aqueles em negrito correspondem a novidades em relação à primeira.

Instrumentos para abertura de "correspondências suspeitas". Fonte: AHU_ACL_CU_017, Cx. 258, D. 17644.

Muito poderia ser dito a respeito desses itens. Fiquemos aqui com dois deles.

Note-se, primeiramente, a menção às “cifras de Alexandre de Gusmão”, personagem que em postagem anterior lembramos ter-se envolvido com esse tipo de atividade. É interessante que meio século depois de sua morte ainda continuasse a ser uma referência.

Merece ser destacada também a massa cuja receita se pediu. Esse produto era usado para recompor os lacres das cartas, de modo que não se pudesse perceber a violação. A massa permitia que se reimprimissem os sinetes rompidos.

Um documento afirma, com relação à dita receita:

 

dizem que Tomé Barbosa [a] tem em seu poder e nega a sua existência; e a que atualmente serve é feita por um ourives, que também não quer escrever, dizendo somente de palavra ao subinspetor do Correio o processo de manipulação que se declara na carta junta do subinspetor

 A tal carta não se encontra anexa aos documentos hoje disponíveis no Arquivo Histórico Ultramarino. Segredos, segredos, segredos...


Para saber mais


Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, AHU_ACL_CU_017, Cx. 253, D. 17226; AHU_ACL_CU_017, Cx. 258, D. 17644;  AHU_ACL_CU_017, Cx. 259, D. 17704.

FRANCISCO António Ferreira Souto. In: GENEALL. Disponível em: Francisco António Ferreira Souto, * 1755 | Geneall.net 

FERREIRA, Godofredo. Dos Correios-Mores do Reino aos Administradores-Gerais dos Correios e Telégrafos. 3 ed. Lisboa: CTT, 1963.

GOLDFEDER, Pérola. Em torno do trono:  A economia política das comunicações postais no Brasil do século XIX. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2021, p. 40.

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