Em 1810, tendo em vista a transferência da família real para o Brasil, o Rio de Janeiro já era de fato a sede da monarquia portuguesa há dois anos. Naquele momento, foram dados os primeiros passos para a instalação de um gabinete negro nos trópicos.
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| Palace Square, Rio de Janeiro. Richard Bate. Acervo da Biblioteca de Cornell, NY. Fonte: 1808 – Paisagem da cidade – História do Rio para todos (historiadorioparatodos.com.br) |
Em 5
de maio daquele ano, D. Fernando de Portugal, Conde da Cunha e presidente do
Real Erário, determinou ao governo interino do Reino que um dos
oficiais do Correio Geral, Francisco Antônio Ferreira Souto, embarcasse de
imediato para o Rio de Janeiro, juntamente com a sua família. O referido
funcionário deveria dar continuidade no Brasil ao trabalho que já realizava em Lisboa:
a abertura de “correspondências suspeitas”. Para tanto, deveria levar consigo os
instrumentos necessários.
Ferreira
Souto era um ex-funcionário da Secretaria de Marinha e Ultramar e contava, na
época, com cerca de cinquenta e cinco anos. Para embarcar para o Brasil fez três
pedidos: que fossem gratuitas as passagens para ele, a mulher, dois filhos, um
sobrinho e um criado; que lhe fossem pagos os ordenados e pensões atrasadas;
que recebesse não apenas os utensílios constantes de uma lista que fez, mas a
receita de uma certa massa utilizada durante a abertura das correspondências.
Quanto
ao primeiro item, a dívida da Coroa montava a cerca de 1 conto e 300 mil réis,
que incluíam os pagamentos de todo o ano de 1808, três quartos dos salários de
1810 e algumas parcelas de 1798. Tendo em vista que, cerca de cinquenta dias
depois de receber a ordem de transferência, ainda “não recebera um só real”, Ferreira
Souto apelou “à reconhecida piedade” do Patriarca de Lisboa, líder dos
governadores do Reino, para lhe “mandar pagar ao menos este ano de 1810, graça
que se persuade merecer de V. Exa. a fim de poder cumprir as ordens de Sua
Alteza Real” Esse pedido foi atendido, mas, assim que desembarcou no Brasil, o
diligente funcionário alegou despesas extraordinárias com a viagem para requerer
os valores faltantes.
Quanto ao deslocamento para o Rio, foram concedidas para ele e sua família passagens na fragata
Carlota, que devia zarpar em breve para aquela cidade. Ao partir, Ferreira Souto
voltou a requerer, desta vez para que lhe dessem acomodações mais dignas, pois
ficara em um camarote muito ruim e seus filhos, que eram cadetes, estavam
instalados nas mesmas condições dos grumetes do navio. Não tinham sequer acesso
ao fogão para fazer sua comida. Não deve ter sido atendido, pelo que se
depreende de outro requerimento que apresentou já no Brasil, a reclamar novamente dos proventos
atrasados. Não sabemos se o sobrinho e o criado embarcaram. O tal sobrinho foi
preso às vésperas da viagem para servir como soldado e, apesar das súplicas de
Ferreira Souto, provavelmente não foi solto a tempo.
A
lista de utensílios apresentada foi submetida à avaliação do Inspetor Geral do
Correio, que forneceu outra, mais enxuta. A ordem é que fosse autorizado o transporte
apenas dos itens que Ferreira Souto não pudesse obter facilmente no Brasil.
Ambas as listas estão reproduzidas a seguir, pois dão uma boa ideia de como se desenvolvia a atividade. Os itens grafados em itálico foram eliminados da segunda lista e aqueles em negrito correspondem a novidades em relação à primeira.
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| Instrumentos para abertura de "correspondências suspeitas". Fonte: AHU_ACL_CU_017, Cx. 258, D. 17644. |
Muito poderia ser dito a respeito desses itens. Fiquemos aqui com dois deles.
Note-se,
primeiramente, a menção às “cifras de Alexandre de Gusmão”, personagem que em
postagem anterior lembramos ter-se envolvido com esse tipo de atividade. É interessante
que meio século depois de sua morte ainda continuasse a ser uma referência.
Merece
ser destacada também a massa cuja receita se pediu. Esse produto era usado para
recompor os lacres das cartas, de modo que não se pudesse perceber a violação. A
massa permitia que se reimprimissem os sinetes rompidos.
Um documento
afirma, com relação à dita receita:
dizem que Tomé Barbosa [a] tem em seu
poder e nega a sua existência; e a que atualmente serve é feita por um ourives,
que também não quer escrever, dizendo somente de palavra ao subinspetor do Correio
o processo de manipulação que se declara na carta junta do subinspetor
Para saber mais
Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, AHU_ACL_CU_017, Cx. 253, D. 17226; AHU_ACL_CU_017, Cx. 258, D. 17644; AHU_ACL_CU_017, Cx. 259, D. 17704.
FRANCISCO António Ferreira Souto. In: GENEALL. Disponível em: Francisco António Ferreira Souto, * 1755 | Geneall.net
FERREIRA, Godofredo. Dos Correios-Mores do Reino aos Administradores-Gerais dos Correios e Telégrafos. 3 ed. Lisboa: CTT, 1963.
GOLDFEDER, Pérola. Em torno do trono: A economia política das comunicações postais no Brasil do século XIX. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2021, p. 40.


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