sábado, 24 de junho de 2023

O Correio-Mor do Reino

A monarquia portuguesa foi uma das primeiras na Europa a implantar um serviço postal potencialmente disponível para todo o povo, quando, em 1520, D. Manuel concedeu o título de correio-mor do Reino a um certo Luís Homem, cavaleiro da Casa Real que já lhe prestara várias vezes serviço como espião e mensageiro, inclusive fora de Portugal.

Correio a pé. Século XVI. Fonte: Fundação Portuguesa das Comunicações. Disponível em : Correio a pé do séc. XVI | Fundação Portuguesa das Comunicações | Flickr


De acordo com o alvará régio, Luís Homem teria o monopólio de todas as postagens realizadas em um raio de cinco léguas (cerca de trinta quilômetros) em torno de Lisboa. Nesse perímetro, todos poderiam mandar livremente as suas cartas por meio de “pessoas que não fossem correios”, isto é, que não exercessem a atividade mediante remuneração. Todavia, não poderiam acertar os envios diretamente com mensageiros profissionais, sob pena de uma pesada multa de cem cruzados (40.000 réis). Nesse último caso, as remessas deviam acontecer por “mão do dito Luís Homem”, que ficaria com 10% dos valores acertados em cada caso, isto é, atuaria como intermediário nesses negócios.

Em contrapartida, o novo correio-mor deveria garantir o funcionamento dos serviços e supervisioná-los. Era de sua responsabilidade, inclusive, apontar os locais onde as postas seriam instaladas, cabendo ao rei a nomeação dos responsáveis por elas, os quais passariam a ser chamados de “mestres de postas” no final do século.

Outro alvará, em 1525, garantiu também o monopólio do correio-mor nas entregas realizadas na zona sob sua jurisdição, inclusive no caso das cartas vindas do exterior de Portugal, o que impunha limites às incursões de correios estrangeiros. Como uma forma de incentivo à atividade, o mesmo documento consolidou e ampliou os benefícios dos mensageiros e operadores das postas, com a dispensa de encargos devidos às municipalidades e o privilégio de trazer espada e punhal e de portar o escudo de armas do rei.

Na prática, nas décadas seguintes, mensageiros e mestres de postas passaram a ser funcionários dos correios-mores ou de assistentes dele nomeados em outras localidades. Nesse período, embora os serviços postais cobrissem diversas regiões, o sistema de postas foi implantado apenas entre Lisboa e a fronteira com a Espanha.

Em 1580, quando a Coroa de Portugal passou às mãos dos soberanos espanhóis, o cargo de correio-mor do Reino já vinha sendo transmitido há duas gerações de sogro para genro, graças a “alvarás de lembrança” que o garantiam como dote para as filhas de seus ocupantes. O “alvará de lembrança” era um tipo de documento por meio do qual o rei prometia um determinado benefício, a ser concedido posteriormente. Dessa forma, de um modo peculiar, ensaiava-se a hereditariedade do ofício.

Com a união das coroas ibéricas, o correo mayor espanhol, D. Juan de Tassis, chegou a se apossar do serviço postal português por cerca de três anos, mas a tentativa foi interrompida graças a uma sentença judicial que reconheceu os direitos de Manuel Gouveia, detentor do cargo até aquele momento. Depois disso, até o início do século XVII, não foi nomeado novo titular para o ofício, que passou a ser exercido por interinos, enquanto Cristóvão de Sousa Coutinho, genro de Gouveia, pleiteava ocupá-lo.

Provavelmente, foi depois da União Ibérica que se instituiu o serviço postal regular (periódico) em Portugal, bem como surgiram também alguns correios-mores regionais, em Porto, Coimbra, Braga e Aveiro. A nomenclatura desses cargos, em um indício da fluidez das estruturas então vigentes e de conflitos de jurisdição, oscilava bastante: “lugar-tenente do correio-mor”, “assistente do correio-mor” ou mesmo “correio-mor do lugar X”.

Em 19 de julho de 1606, o cargo de correio-mor do Reino foi vendido pela Coroa a um homem de negócios português de origem espanhola, Luís Gomes da Mata, em caráter hereditário e irrevogável. O preço estipulado foi 70 mil cruzados (16 contos de réis). O monopólio do serviço foi afirmado de maneira mais férrea do que até então, com a proibição de que qualquer um que não fosse autorizado pelos Matas transportasse correspondências. Consolidou-se também a subordinação dos correios regionais ao titular de Lisboa, que podia nomear livremente mensageiros e mestres de posta.

Em 1640, quando da Guerra de Restauração, os Matas aderiram na primeira hora à Casa de Bragança. Apesar de alguns questionamentos com relação à venda do correio-mor, que perduraram até aquele momento, o fato é que o ofício passara a ser legalmente propriedade plena da família Mata e como tal, por quase dois séculos, foi assim respeitado. Somente no final do século XIX, durante as reformas postais joaninas, o monopólio do serviço postal voltou para Coroa, mediante compra e concessão de uma vultosa indenização a seus detentores. Mas essa é outra história.


 



Palácio do Correio-Mor em Loures, Portugal. Século XVIII. Disponível em:  https://bit.ly/33HsN31.



Para saber mais

FERREIRA, Godofredo. Dos Correios-mores do Reino aos Administradores Gerais dos Correios e Telégrafos. 3. ed. Lisboa: CTT, 1963.

FIRMINO, Glória. Subsídios para a história dos Assistentes do Correio-Mor. Lisboa: Grupo dos Amigos do Museu das Comunicações, 2005.

MACHADO, Luiz Guilherme. História geral dos Correios portugueses nos séculos XVI ao XVIII. [s.l.]: 2008, s.p. Disponível em: https://bit.ly/39icBGh. Acesso em: 24 jun. 2023.

SALVINO, Romulo Valle. Guerras de papel: comunicação escrita, política e comércio na monarquia ultramarina portuguesa. Jundiaí: Paco Editoral, 2020.





sexta-feira, 2 de junho de 2023

Um gabinete negro no Rio de Janeiro joanino

 

Em 1810, tendo em vista a transferência da família real para o Brasil, o Rio de Janeiro já era de fato a sede da monarquia portuguesa há dois anos. Naquele momento, foram dados os primeiros passos para a instalação de um gabinete negro nos trópicos.

Palace Square, Rio de Janeiro. Richard Bate. Acervo da Biblioteca de Cornell, NY. Fonte: 1808 – Paisagem da cidade – História do Rio para todos (historiadorioparatodos.com.br)



Em 5 de maio daquele ano, D. Fernando de Portugal, Conde da Cunha e presidente do Real Erário, determinou ao governo interino do Reino que um dos oficiais do Correio Geral, Francisco Antônio Ferreira Souto, embarcasse de imediato para o Rio de Janeiro, juntamente com a sua família. O referido funcionário deveria dar continuidade no Brasil ao trabalho que já realizava em Lisboa: a abertura de “correspondências suspeitas”. Para tanto, deveria levar consigo os instrumentos necessários.

Ferreira Souto era um ex-funcionário da Secretaria de Marinha e Ultramar e contava, na época, com cerca de cinquenta e cinco anos. Para embarcar para o Brasil fez três pedidos: que fossem gratuitas as passagens para ele, a mulher, dois filhos, um sobrinho e um criado; que lhe fossem pagos os ordenados e pensões atrasadas; que recebesse não apenas os utensílios constantes de uma lista que fez, mas a receita de uma certa massa utilizada durante a abertura das correspondências.

Quanto ao primeiro item, a dívida da Coroa montava a cerca de 1 conto e 300 mil réis, que incluíam os pagamentos de todo o ano de 1808, três quartos dos salários de 1810 e algumas parcelas de 1798. Tendo em vista que, cerca de cinquenta dias depois de receber a ordem de transferência, ainda “não recebera um só real”, Ferreira Souto apelou “à reconhecida piedade” do Patriarca de Lisboa, líder dos governadores do Reino, para lhe “mandar pagar ao menos este ano de 1810, graça que se persuade merecer de V. Exa. a fim de poder cumprir as ordens de Sua Alteza Real” Esse pedido foi atendido, mas, assim que desembarcou no Brasil, o diligente funcionário alegou despesas extraordinárias com a viagem para requerer os valores faltantes.

Quanto ao deslocamento para o Rio, foram concedidas para ele e sua família passagens na fragata Carlota, que devia zarpar em breve para aquela cidade. Ao partir, Ferreira Souto voltou a requerer, desta vez para que lhe dessem acomodações mais dignas, pois ficara em um camarote muito ruim e seus filhos, que eram cadetes, estavam instalados nas mesmas condições dos grumetes do navio. Não tinham sequer acesso ao fogão para fazer sua comida. Não deve ter sido atendido, pelo que se depreende de outro requerimento que apresentou já no Brasil, a reclamar novamente dos proventos atrasados. Não sabemos se o sobrinho e o criado embarcaram. O tal sobrinho foi preso às vésperas da viagem para servir como soldado e, apesar das súplicas de Ferreira Souto, provavelmente não foi solto a tempo.

A lista de utensílios apresentada foi submetida à avaliação do Inspetor Geral do Correio, que forneceu outra, mais enxuta.  A ordem é que fosse autorizado o transporte apenas dos itens que Ferreira Souto não pudesse obter facilmente no Brasil.

Ambas as listas estão reproduzidas a seguir, pois dão uma boa ideia de como se desenvolvia a atividade. Os itens grafados em itálico foram eliminados da segunda lista e aqueles em negrito correspondem a novidades em relação à primeira.

Instrumentos para abertura de "correspondências suspeitas". Fonte: AHU_ACL_CU_017, Cx. 258, D. 17644.

Muito poderia ser dito a respeito desses itens. Fiquemos aqui com dois deles.

Note-se, primeiramente, a menção às “cifras de Alexandre de Gusmão”, personagem que em postagem anterior lembramos ter-se envolvido com esse tipo de atividade. É interessante que meio século depois de sua morte ainda continuasse a ser uma referência.

Merece ser destacada também a massa cuja receita se pediu. Esse produto era usado para recompor os lacres das cartas, de modo que não se pudesse perceber a violação. A massa permitia que se reimprimissem os sinetes rompidos.

Um documento afirma, com relação à dita receita:

 

dizem que Tomé Barbosa [a] tem em seu poder e nega a sua existência; e a que atualmente serve é feita por um ourives, que também não quer escrever, dizendo somente de palavra ao subinspetor do Correio o processo de manipulação que se declara na carta junta do subinspetor

 A tal carta não se encontra anexa aos documentos hoje disponíveis no Arquivo Histórico Ultramarino. Segredos, segredos, segredos...


Para saber mais


Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, AHU_ACL_CU_017, Cx. 253, D. 17226; AHU_ACL_CU_017, Cx. 258, D. 17644;  AHU_ACL_CU_017, Cx. 259, D. 17704.

FRANCISCO António Ferreira Souto. In: GENEALL. Disponível em: Francisco António Ferreira Souto, * 1755 | Geneall.net 

FERREIRA, Godofredo. Dos Correios-Mores do Reino aos Administradores-Gerais dos Correios e Telégrafos. 3 ed. Lisboa: CTT, 1963.

GOLDFEDER, Pérola. Em torno do trono:  A economia política das comunicações postais no Brasil do século XIX. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2021, p. 40.

quarta-feira, 31 de maio de 2023

 

A espionagem nos Gabinetes Negros

Nem tudo, porém, eram luzes nos correios modernos. Se comunicar era uma necessidade das Coroas, outra era interceptar e conhecer as comunicações de terceiros, fossem súditos ou estrangeiros – espionar, em suma. Não foram raros, assim, os casos de violação ocasional ou sistemática do sigilo das cartas, em nome do bem comum, ou da segurança das monarquias, com o patrocínio direto dos soberanos ou de membros da administração.


Le Cabinet Noir. Gravura do século XIX. Fonte: Existe-t-il une tradition française des cabinets noirs ? (radiofrance.fr)

Não se deve esquecer, nesse aspecto, que é mais fácil monitorar um fluxo que se escoa por um único canal do que tentar fazê-lo em uma multiplicidade de vias. Por isso, desde cedo, coroas preocupadas em conhecer os segredos veiculados pelas cartas de súditos e inimigos buscaram utilizar os correios oficiais com essa finalidade. O risco de que isso acontecesse foi, várias vezes, uma razão de resistência ao uso do serviço postal por parte de alguns correspondentes, ou um motivo para que determinadas cartas fossem encaminhadas por terceiros, ainda que isso pudesse implicar em prazos maiores para a entrega delas.

Não era apenas o conteúdo das cartas que podia ser relevante para as autoridades. Informações de passagem de correios estrangeiros pelas postas foram colhidas na França durante o século XVII. Listas de entrega e documentos de remessa podiam também revelar ligações perigosas que interessaria deixar ocultas.

Várias monarquias criaram estruturas específicas para escrutinar os conteúdos das correspondências, preferencialmente sem atrasá-las e sem gerar suspeitas de que isso pudesse ter acontecido. Esses organismos secretos ficaram conhecidos como “gabinetes negros”, do francês cabinet noir (sala ou câmara negra, ou escura).

Na França, a partir de experiências que vinham, pelo menos, desde os tempos de Richelieu, os reis Luís XIV e XV organizaram sistemas desse tipo, os quais se perpetuaram pelos anos seguintes. Os Taxis também foram acusados de agir nesse sentido, de acordo com os interesses dos Habsburgos. O Geheime Kabinettskanzlei, de Viena, chegou a vender informações para potências estrangeiras no século XVIII.

No caso francês, o “gabinete negro” foi questionado durante a Revolução Francesa, mas a atividade continuou sob as ordens dos líderes revolucionários e Napoleão.

Nos domínios portugueses, apesar de as Ordenações Filipinas (o código legal vigente durante a maior parte da Idade Moderna) proibirem formalmente essas práticas, podem-se constatar diversos episódios esporádicos de violações de correspondências, sob patrocínio de autoridades locais. Além disso, no governo de D. João V chegou a ser criado um “gabinete de abertura”, com o objetivo de ler e mesmo copiar determinadas cartas. Nessa atividade, Alexandre de Gusmão, diplomata nascido em Santos e especialista na criação e decifração de escritas secretas, teve um papel importante. Houve também violações perpetradas por ordem do Marquês de Pombal.

Retrato de Alexandre de Gusmão. Pintura de Osvaldo Teixeira (1905-1974). Fonte: Retrato de Alexandre de Gusmão - Alexandre de Gusmão – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)



O termo gabinete negro ficou tão conhecido que foi escolhido para dar nome a um conjunto de cartas fictícias publicadas pelo poeta e pintor francês Max Jacob em 1922, em uma alusão ao prazer voyeurístico do leitor ao devassar os segredos delas. Na atualidade, práticas semelhantes permanecem, não só nas ditaduras, mas também na forma das estruturas de decodificação de mensagens secretas por parte dos serviços de inteligência.


Para saber mais


CAPLAN, Jay. Postal culture in Europe – 1500-1800. Oxford: Oxford University; Voltaire Foundation, 2015.

D’HÉRISSON, Maurice [Le Comte D’Hérisson]. Le Cabinet Noir: Louis XVII, Napoleon, Marie-Louise. Paris : Paul Ollendorff, 1887.

JACOB, Max. O gabinete negro: cartas com comentários. São Paulo: Carambaia, 2018.

LEEUW, Karl (1999). The Black Chamber in the Dutch Republic during the War of the Spanish Succession and Its Aftermath, 1707-1715. The Historical Journal, v. 42, n. 1, p. 133–156., 1999.

SALVINO, Romulo Valle. Guerras de papel: comunicação escrita, política e comércio na monarquia ultramarina portuguesa. Jundiaí: Paco Editoral, 2020.

SILVA, Maria Beatriz Nizza da. D. João V. Lisboa: Círculo de Leitores; Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa, 2009.

VAILLÉ, Eugène. Le Cabinet Noir. Paris: Presses Universitaires de France, 1950.


Dominar a distância e o tempo nos mares: os paquetes


Uma das grandes inovações dos sistemas postais na Europa moderna foi a criação, durante o século XVI, dos chamados correios ordinários, um serviço aberto ao uso da população, mediante pagamento de tarifas, com dias certos de saída e chegada dos mensageiros em cada ponto da rede.


Famouth Packets. Fonte: Falmouth Packet Service, Cornwall to the Empire (cornwall-calling.co.uk)


Em algumas rotas marítimas, no final daquele século, também surgiu um serviço semelhante, com navios ligando periodicamente alguns portos. Inicialmente, essas embarcações, que se tornariam conhecidas pelo nome de paquetes (do inglês packet boat, literalmente “barcos de pacotes”), atendiam apenas itinerários mais curtos, quando não havia alternativa terrestre, como entre Holyhead (Inglaterra) e Dublin (Irlanda). No século seguinte ganhariam maior importância, quando passaram a ligar Dover (Inglaterra) com Calais (França) e Harwich (também na Inglaterra) com Helvoetsluys (Países Baixos).

Nessas travessias, eram sempre utilizados navios velozes e armados de canhões. Desde cedo, os paquetes ingleses começaram a transportar também passageiros e mercadorias, como uma forma de rentabilizar as viagens. O padre Antônio Vieira chegou a viajar em um deles, entre Dover e Calais, por julgá-lo “seguro de corsários”, conforme contou em uma carta de 1647.

Durante o século XVII, por causa de sua privilegiada localização geográfica, Falmouth, no sudoeste inglês, firmou-se como o grande porto dos paquetes ingleses. Dali, os navios saiam facilmente tanto para o Atlântico quanto para o Mediterrâneo.

Entretanto, esse tipo de solução demorou a se firmar nas grandes rotas oceânicas, principalmente devido aos altos custos e riscos envolvidos. Assim, durante muito tempo, as cartas cruzavam os mares levadas apenas por embarcações mercantes e de guerra que viajavam solitárias ou em frotas. No caso de mensagens mais urgentes, as Coroas lançavam mão de navios de aviso (ou simplesmente avisos – advice boats em inglês), que podiam tanto lhes pertencer quando serem especialmente fretados nessas ocasiões. É como se esses avisos correspondessem aos correios extraordinários nos sistemas terrestres, enquanto os paquetes fariam o mesmo papel dos correios ordinários.

Tendo em vista os custos e as dificuldades inerentes à atividade, até o final do século XVIII, algumas potências europeias, como a França, sequer chegaram a tentar a criação de sistemas de paquetes nas rotas atlânticas. Esses não foram, contudo, os casos de Inglaterra, Espanha e Portugal.

No caso dos ingleses, os primeiros navios desse tipo surgiram no final do século XVI, para levar cartas à Irlanda. Durante o século XVII a rede se expandiu para Dover e Norwich, de onde os paquetes cruzavam, respectivamente, o Canal da Mancha até Calais e o Mar do Norte até os Países Baixos. Os correios marítimos foram levados para o Atlântico Norte apenas em 1702, devido as exigências da comunicação administrativa e militar com suas colônias americanas durante a guerra de Sucessão Espanhola.  Com o fim do conflito, as ligações com a América foram interrompidas durante por algum tempo, mas, nas décadas seguintes o sistema inglês consolidou-se e conseguiu firmar-se como modelo para os demais. 

Embora desde o século XVI a Espanha tenha tentado criar, sem grande sucesso, algumas ligações periódicas para a América, somente mais tarde conseguiu uma solução mais duradoura. Em 1713, o vice-rei do Peru solicitou que fossem estabelecidos quatro avisos anuais entre a Espanha e as índias Ocidentais.  A demanda foi atendida apenas cinco anos depois, quando um decreto régio estabeleceu o envio de quatro navios anualmente para a Nova Espanha e quatro para a Terra Firme, com a proibição de que levassem passageiros e cargas. O sistema, contudo, não teve o sucesso esperado, e apenas em 1764 foi criada a primeira carreira de paquetes (paquebotes, em espanhol) para Havana. Três anos depois, idêntica solução seria implantada para Buenos Aires.

A respeito do caso português, faremos algumas postagens específicas.

Nas primeiras décadas do XIX os paquetes viveram seu momento áureo.  Transformaram-se em um importante negócio, com o transporte não só de cartas, mas também de mercadorias e passageiros. O sucesso foi tal que a palavra paquete começou a designar mesmo navios que não levavam prioritariamente correspondências, mas se concentravam nos demais negócios.  Rotas de várias nacionalidades (inglesas, estadunidenses, francesas, portuguesas, entre outras) estenderam-se por todos os mares, o que não quer dizer que a navegação mercante tenha deixado de transportar cartas para os correios oficiais, inclusive nos percursos também atendidos pelos paquetes. Com a emergência da tecnologia a vapor, outros portos passaram a disputar a primazia com Falmouth, como Liverpool e Baltimore,

No Rio de Janeiro, era tanta a popularidade dessas embarcações que, na segunda metade do século XIX, "estar de paquete" significava que as mulheres estavam em seu período de menstruação. Segundo o historiador Luiz Felipe de Alencastro, as viagens dos paquetes entre aquela cidade e Liverpool demoravam 27 ou 28 dias, um tempo semelhante ao do ciclo biológico feminino.






Anúncio de paquetes (1793). Fonte: Packet Schooner - Packet boat - Wikipedia



Para saber mais


ARANEDA RIQUELME, José. Una correspondencia mensual, semanaria y a todas horas: correo y espacio en el imperio español durante las reformas borbónicas, siglo XVIII. In: ARANEDA RIQUELME, José et al. Seminário Simón Collier 2014. Santiago de Chile: Pontificia Universidad Católica de Chile, 2015.

ALENCASTRO, Luiz Felipe de. Vida privada e ordem privada no Império. In: ALENCASTRO, Luiz Felipe de (org). História da Vida Privada no Brasil: Império. São Paulo: Cia das Letras, 2001, p. 11-93.

BELOTTO, Manoel Lelo. Correio marítimo hispano-americano: a carreira de Buenos Aires (1767-1779). Assis: FFCL-Assis; São Paulo: Revista dos Tribunais, 1971.

GARAY UNIBASO, Francisco. Correos marítimos españoles. Bilbao: El Mensajero, 1987, 3 v.

HARRISON, Jane E. The Intercourse of Letters: Transatlantic Correspondence in Early Canada, 1640-1812.  Tese (Doutorado em História) – University of Toronto, Toronto, 2000.

MORENO CANANILLAS, Rocio. Cartas para Gobernar: El establecimiento de la Administración de Correos de Cartagena de Indias (1764-1769). Saarbrücken: Editorial Académica Española, 2017. 

MORENO CANANILLAS, Rocio. Comunicación e Imperio: proyectos y reformas del correo en Cartagena de Indias (1707-1777). Madrid: Sílex Universidade, 2022.

PAWLYN, Tony. The Falmouth Packets: 1689-1851. Cornwall: Truran, 2003.

SALVINO, Romulo Valle. Guerras de papel: comunicação escrita, política e comércio na monarquia ultramarina portuguesa. Jundiaí: Paco Editoral, 2020.

STEELE, Ian K. The English Atlantic, 1675-1740: an Exploration of Communication and Community. New York; Oxford: Oxford University, 1986.

VIEIRA, Antonio. Cartas do Padre Antonio Vieira. Lisboa: J.M.C. Seabra & T.Q. Antunes, 1854, t.1.


terça-feira, 30 de maio de 2023

Os correios ordinários e a criação de um novo espaço-tempo

O sistema de postas e a possibilidade de uso do serviço por toda a população foram dois grandes pilares dos correios modernos. O primeiro garantiu um melhor domínio do espaço e do tempo, permitindo que a trocas de mensagens ficassem mais velozes. O segundo fez com que se ampliasse a quantidade de cartas trocadas, ampliando as parcelas da população que poderiam se comunicar. Comerciantes, letrados, pensadores, artistas, amantes ganharam um novo meio para conversarem à distância. Em contrapartida, as monarquias ganharam “sócios” que ajudavam a pagar as caras estruturas operacionais, e os custos dos envios caíram.

O Pequeno Correio, de Albrecht Dürer  (1471-1528)

Houve, todavia, outra grande inovação, que se tornou mais um sustentáculo do novo serviço. 

Até determinado momento, quando alguém queria enviar uma carta, um mensageiro tinha que partir especialmente para isso, mesmo usando as postas. Quando muito, alguns interessados podiam juntar as suas remessas para uma dada direção, de modo a compartilhar os custos.

Todavia, ao longo do século XVI – novamente na Itália – ganharam força os chamados correios ordinários: em dias certos, com frequências claramente estabelecidas, mensageiros partiam para uma determinada direção. Muito rapidamente a ideia se espalhou por outros lugares.

Se antes os correios permitiam saber claramente quantos dias uma correspondência levaria para chegar de um lugar para outro, agora era possível saber também quando poderiam ser mandadas as cartas para um determinado destino, em uma outra forma de regramento do espaço-tempo. Com isso, as pessoas podiam programar suas remessas. Os condutores saíam de cada local carregando mais correspondências, e isso gerava um ganho de escala. As tarifas poderiam ser ainda mais barateadas, enquanto os operadores postais aumentavam seus ganhos. Os correios tiveram reforçado o seu papel de instrumento de circulação de ideias e de notícias, fornecendo a base para que livros e os primeiros periódicos pudessem chegar a lugares longínquos.

Entre uma partida e outra dos correios ordinários, se alguém tinha pressa e podia pagar por isso, mandava um mensageiro expresso.

Foi uma revolução, quase inimaginável nestes nosso mundo de mensagens instantâneas.

Em meados do século XVII, enquanto estava em Roma, o grande escrevedor de cartas que foi o Padre Antônio Vieira sabia exatamente quais os dias em que os correios partiam para Paris e Lisboa, onde estavam alguns de seus principais correspondentes. Sabia que toda semana podia enviar uma mensagem para a capital da França e que, do mesmo modo, toda semana devia chegar uma nova carta de lá. Pautava assim o seu próprio tempo por essa cadência de comunicação e angustiava-se quando havia atrasos.

O padre vivia em um mundo impensável um século antes. Agora o tempo parecia mais acelerado e uma nova relação se estabelecia com o espaço.

Padre Antônio Vieira. Óleo sobre tela, 1680 x 1280 mm. Casa Cadaval, Muge, Portugal. Fonte: Padre António Vieira - António Vieira – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)


Para saber mais


BEHRINGER, Wolfgang. Communications Revolutions: a Historiographical Concept, German History, v. 24, n. 3, p. 333-374, 2006. Disponível em: https://bit.ly/2QFbKJj. Acesso em: 30 maio 2023.

CAIZZI, Bruno. Dalla posta dei re alla posta di tutti: territorio e comunicazioni in Italia dal XVI secolo all’Unità. Milano: Franco Angeli, 1993.

CAPLAN, Jay. Postal culture in Europe – 1500-1800. Oxford: Oxford University; Voltaire Foundation, 2015

SALVINO, Romulo Valle. Guerras de papel: comunicação escrita, política e comércio na monarquia ultramarina portuguesa. Jundiaí: Paco Editoral, 2020.

VIEIRA, Antônio. Obra completa: tomo I epistolografia, volume III: Cartas de Roma. São Paulo: Edições Loyola, 2014.

Um correio para todos... desde que possam pagar, é óbvio


Na passagem entre as Idades Média e Moderna, grandes sistemas de correios começaram a se estender pela Europa para atender às necessidades de monarquias interessadas em reforçar o controle sobre seus domínios. Assim é que, na França, em 1477, Luís XI criou um sistema postal que chegaria a contar com 230 cavaleiros. Do outro lado do Canal da Mancha, Eduardo IV também montou um serviço semelhante, mais ou menos na mesma época, o qual, depois de uma interrupção, seria retomado mais tarde por Henrique VIII.


Essas estruturas, contudo, tal como as suas similares da Antiguidade e do Oriente, destinavam-se ao uso exclusivo ou preferencial do monarca ou dos órgãos que compunham a estrutura administrativa das Coroas. Se chegavam a transportar cartas de outras pessoas, era de forma ilegal ou por especial consentimento do soberano ou de gestores locais, sem cobrança de tarifa. Não existiam ainda serviços destinados a atender, de forma mais ampla, as necessidades dos povos.

A situação começaria a mudar, lentamente, no final do século XVI, quando os serviços postais comandados pela família dos Tassis – descendentes daquele Omedeo ou Amadeo Tasso que, séculos antes, colocara os bergamaschi entre Roma e Milão - se estenderam pelos domínios dos Habsburgos. O primeiro a colocar-se ao serviço da Casa austríaca foi um certo Ruggiero, ainda no período de Frederico III. Enquanto franceses e ingleses copiavam os italianos, os Habsburgos passaram a contar com alguns dos maiores especialistas vindos da península e, na medida que estendiam seu poder pela Europa, as “novas” técnicas de comunicação para diferentes foram levadas para várias regiões.

Em 1494, Bianca Maria Sforza casou-se com o imperador Maximiliano I dos Habsburgos. Logo em seguida, Gian Galeazzo Sforza, duque de Milão, criou, sob responsabilidade de Iannetto de Tassis, sobrinho de Ruggiero, um serviço de mensageiros entre Milão e Innsbruck, cidade do Tirol que funcionou como a capital do Sacro Império durante o governo. de Maximiliano I. Francesco (Franz ou Francisco) e Ruggiero (Roger) – irmãos de Ianetto – também passaram a servir os Habsburgos, operando nas Flandres e em Innsbruck.

Entre os três, o que mais se destacou foi Francisco (1459-1517), responsável pela criação de linhas postais entre Bruxelas e a fronteira francesa e que seria considerado o primeiro correo mayor da Espanha e hauptpostmeister do Sacro-Império. Ainda hoje é celebrado como fundador dos correios da Espanha e da Alemanha, tendo sido vezes homenageado em selos postais emitidos em ambos os países.

Franz von Taxis ou Francisco de Tassis. Selo alemão de 1967.


Em 1516, um neto de Maximiliano, assumiu o reino de Castela, com o nome de Carlos I, pouco antes de tornar-se também imperador do Sacro-Império, com o título de Carlos V. Assim, a rede operacional dos Tassis foi também se ampliando. Estendia-se desde o Mar do Norte até a Andaluzia, de Nápoles a Praga, espraiava-se pela Borgonha, o Franco-Condado, a Lorena, os Países Baixos, o Império Germânico, o Norte da Itália e Nápoles.

Foi nesse momento que surgiu a grande novidade. Os contratos firmados entre os Habsburgos e os Tassis (que passariam a ser conhecidos como Taxis nas regiões de língua alemã) tornaram-se modelos para boa parte dos sistemas postais modernos, ao definir direitos e responsabilidades dos seus operadores.  Em 1516, logo que assumiu o trono de Castela, Carlos I autorizou uso dos correios, mediante pagamento de tarifas, para toda a população – pro communi hominum et reipublicae utilitar, conforme expressão do jurista Jacopo Menocchio (1532-1607).

As consequências desse ato superaram as fronteiras do reino espanhol. Essa foi talvez a maior inovação entre as que contribuíram para configurar os sistemas postais modernos, a marcar uma profunda diferença em relação aos seus antecessores, fossem os correios da Antiguidade e do Oriente, fossem mesmo as postas milanesas dos Visconti e Sforza, que lhes serviram de modelo operacional.

Em 1520, foi criado o correio-mor de Portugal, inspirado de forma explícita no sistema dos Tassis. Desde o início, prestava serviços ao soberano e a todos aqueles que pudessem pagá-lo, sendo um dos pioneiros nesse sentido.

Em Milão, o serviço somente seria aberto ao uso público em 1545, mas ainda de modo parcial. Quando o marquês de Vasto, governador do ducado, publicou instruções nesse sentido, a utilização dos correios por particulares não era automática, mas dependia de autorização específica. 

Na França, foi Henrique IV o responsável pela liberação do uso das postas pela população, em 1603. Naquele país e em outros, elas também alugavam cavalos e, por isso, D’Artagnan e os três mosqueteiros puderam correr por elas na década de 1620 até o Canal da Mancha no célebre romance de Alexandre Dumas, sempre perseguidos pelos guardas do Cardeal de Richelieu. 

Na Inglaterra, uma proclamação de Carlos I, datada de 31 de julho de 1635, marcou o reconhecimento pela Coroa do caráter essencialmente público do serviço postal, de modo que o transporte de mensagens privadas e comerciais deixou de ser visto ali como um privilégio, para se transformar em um direito.


Para saber mais


BEHRINGER, Wolfgang. Communications Revolutions: a Historiographical Concept, German History, v. 24, n. 3, p. 333-374, 2006. Disponível em: https://bit.ly/2QFbKJj. Acesso em: 30 maio 2023.

BUTI, Antonio Bandini. Storia dela posta e del francobollo. 2. ed. Milano: Ulrico Hoepli, 1946.

CAIZZI, Bruno. Dalla posta dei re alla posta di tutti: territorio e comunicazioni in Italia dal XVI secolo all’Unità. Milano: Franco Angeli, 1993.

CAPLAN, Jay. Postal culture in Europe – 1500-1800. Oxford: Oxford University; Voltaire Foundation, 2015

HEMMEON, Joseph Clarence. The History of the Britsh Post Office. Cambridge: Harvard University, 1912.

MAYO, Leoncio. ¡Taxi, taxi…! (historia de una familia). Madrid: Real Academia Hispánica de Filatelia, 2007.

SALIERNO, Vito. Le poste a Milano nei secoli XV, XVI e XVII. Milano: La Mar[1]tinella di Milano, 1972.

SALVINO, Romulo Valle. Guerras de papel: comunicação escrita, política e comércio na monarquia ultramarina portuguesa. Jundiaí: Paco Editoral, 2020.

VAILLÉ, Eugène. Histoire des Postes françaises jusqu’en 1939. Bruxelles: P.I.E. Peter Lang, 2015.


segunda-feira, 29 de maio de 2023

Os correios e as postas

Desde a Antiguidade, grandes monarquias criaram serviços de correios como instrumentos de governo à distância. Entre eles, talvez o cursus publicus romano seja o mais conhecido e realmente impressiona até hoje a extensão de suas linhas, espalhadas por partes da Europa e Ásia e pelo extremo norte da África. Houve outros, porém, mais antigos, na China e no Egito, apenas para lembrarmos alguns. 

Mensageiro Medieval. Fonte: Medieval Occupations and Jobs: Messenger. History and Activities (medievalbritain.com)

Durante a Idade Média, ficou famoso o serviço postal dos tártaros, descrito por Marco Polo em Il Milione, livro de viagens que tanto incendiou as imaginações europeias até o início da Idade Moderna. Entre outros possíveis exemplos desses sistemas mais tardios, a partir do século XIII, o sultanato mameluco implantou também o seu próprio serviço postal no Oriente Médio, uma estrutura que continuava em funcionamento mais de duzentos anos depois.

Na Europa, depois do fim do império romano, desconhecemos a existência de estruturas semelhantes até o final do século XII, quando linhas postais e corporações de mensageiros apareceram na península itálica e nas terras da futura Espanha. Na Catalunha, por volta de 1166, um certo Pedro de Marennes criou uma corporação de mensageiros (ou trotters) para atender, sob contrato, os comerciantes. Na Itália, na década de 1290, a figura lendária de Omedeo Tasso estendeu um circuito de correios entre Milão e Roma, passando por Veneza. Seus mensageiros eram chamados de bergamaschi, em alusão à Bérgamo, região de origem de Omedeo.  Em Aragão, o rei D. Pedro, o Cerimonioso, entre 1336 e 1387, chegou a contar com o serviço de 80 mensageiros.

Ao que parece, contudo, foi a partir da Itália que o principal fundamento operacional dos sistemas de correios espalhou-se pela Europa: o sistema de postas. Inspirado provavelmente em estruturas semelhantes que mercadores conheceram no Oriente, o sistema foi aperfeiçoado em solo italiano e tornou-se tão importante que passou a designar o próprio serviço em boa parte das línguas europeias. Tanto é que, neste mesmo texto, desde o início falamos em “sistema postal” e “serviço postal” como sinônimos de “serviço de correios”, mesmo quando esses não contavam com postas propriamente ditas.

Foi o duque de Milão Gian Galeazzo Visconti (1378-1402) – o modelo do Príncipe de Maquiavel – quem introduziu as primeiras estações de postas em seus domínios. O sistema, entretanto, ganhou perenidade e a sua forma dominante apenas no século XV, no governo de Filippo Maria Visconti (1412-1447).

A palavra “posta” deriva do latim posita statio, referente às estações ou locais fixos de parada dos mensageiros presentes no cursus publicus. Originalmente, eram apenas pousadas, onde homens e animais podiam alimentar-se, descansar e passar a noite. À medida que os sistemas ficaram mais sofisticados, passaram a servir como pontos de trocas dos cavalos, de modo que os mensageiros tivessem sempre à sua disposição um animal descansado, capaz de correr a toda velocidade até a estação seguinte. Os tempos de percurso, assim, eram reduzidos ao máximo permitido pela tecnologia de transporte mais rápida da época.

A partir de certo momento, as postas passaram a exercer também a função de pontos de controle sobre os próprios homens, com a anotação dos horários em que eles ali passavam. Desse modo, elas transformaram-se em uma autêntica tecnologia de domínio espaço-temporal, visto que os itinerários não eram apenas segmentados, mas ordenados temporalmente.

As distâncias entre as postas variavam de lugar para lugar. Na França, a distância mais comum, durante muito tempo, foi de sete léguas, podendo cair para duas naqueles trechos em que se queria obter mais velocidade. 

Por isso, no século XVII, os calçados mágicos tomados do Ogro pelo Pequeno Polegar no conto de Perrault ficaram conhecidos como .... as “botas de sete léguas”.  Elas eram capazes de fazê-lo vencer grandes distâncias com um único passo e lhe permitiram servir como mensageiro, tanto para o rei, interessado nas movimentações dos campos de batalha, quanto para as damas, desejosas de notícias de seus amantes, em uma notável representação literária de algumas possibilidades oferecidas pelos correios modernos.


O Pequeno Polegar tira as botas do Ogro. Gravura de Gustave Doré (1867).


Para saber mais:

GAZAGNADOU, Didier. La poste à relais en Eurasie: la diffusion d´une techinique d´information et de pouvoir – Chine – Iran – Syrie – Italie. Paris: Éditions Kimé, 2013.

MARTÍNEZ BAEZA, Sergio. El Correo Mayor de las Indias y el ducado de San Carlos. 2. ed. Santiago del Chile: Academia Chilena de la Historia, 2014.

PERRAULT, Charles. Contos de Perrault. Belo Horizonte: Itatiaia, 1985.

SALIERNO, Vito. Le poste a Milano nei secoli XV, XVI e XVII. Milano: La Martinella di Milano, 1972.

SALVINO, Romulo Valle. Guerras de papel: comunicação escrita, política e comércio na monarquia ultramarina portuguesa. Jundiaí: Paco Editoral, 2020.

VAILLÉ, Eugène. Histoire des Postes françaises jusqu’en 1939. Bruxelles: P.I.E. Peter Lang, 2015.


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