segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Os ataques aos correios marítimos Caçador e Olinda (1801)

Os próximos ataques a paquetes portugueses somente viriam a acontecer em 1801. Naquele ano, foram perdidos o Caçador e o Santo Antônio de Olinda (também conhecido como Olinda), ambos destinados às capitanias setentrionais. Portugal estava, naquele momento, em guerra não só com a França, mas também com a Espanha, cujos corsários capturaram o segundo desses navios.[1] Esparteiro (1976, p. 49-50), o notável historiador naval português, refere-se ao apresamento do primeiro deles, mas não registrou o segundo caso.


Figura 1 - Bergantim. Fonte: Fuerteventura en imágenes. Disponível em: https://fuerteventuraenimagenes.com/el-ultimo-ataque-corsario-en-fuerteventura/#google_vignette

Não obtive registros mais circunstanciados sobre esses apresamentos. O Caçador, comandado pelo 1º Tenente João Urbano de Seixas, chegou a ter a sua partida anunciada para o dia 25 de outubro de 1800, mas somente se lançaria ao mar em 6 de dezembro. No início de março seguinte, estava no Maranhão, onde lhe foi prestado auxílio, com uma despesa de 329$245 réis.[2] Dali, seguiu para o Pará, mas não há notícias sobre a eventual chegada dele àquela capitania, de modo que deve ter sido capturado no trajeto. A informação de que foi vítima de um corsário francês é de Esparteiro (1976, p. 50), que não consigna qual seria a fonte primária.

Olinda, comandado pelo 2º Tenente Joaquim Manuel Mendes, teve a sua partida de Lisboa anunciada para o dia 1º de março de 1801, no entanto só saiu efetivamente no dia 3 de abril.[3] Teve uma viagem bastante acidentada. No dia 9 de maio, o paquete entrou em Pernambuco com avarias no leme e em outras partes, o que o obrigou a ficar naquele porto até o dia 27 do mesmo mês.[4] No final de junho, ainda se demorava no Maranhão, onde se embarcaram diversos produtos vindos do Piauí, com valores não especificados, além de uma carga de algodão e arroz, no montante de 973$146 réis.[5] 

Figura 2 - Anúncio de partida do Santo Antônio de Olinda. Fonte: Gazeta de Lisboa, n. 5 (suplemento), 6 de fevereiro de 1801, p. 4.

O paquete saiu do Pará apenas no início de agosto.  No dia 31 daquele mês, foi atacado por uma escuna corsária espanhola, a qual, segundo o tenente Mendes teria noventa e seis tripulantes, dez peças de calibre entre quatro e seis, além de uma columbrina.[6] A narração que o comandante do paquete deixou do episódio é bem vívida. Reproduzo-a aqui, com a pontuação original, atualizando apenas a ortografia:

[...] não podendo retirar-me por ter o dito corsário mais vantagem em sua marcha, atacando-me fez algum fogo, ao que me defendi fazendo-lhe fogo durante o dito combate o espaço de duas horas tentando o dito corsário duas vezes abordar, não o podendo fazer pelo contínuo fogo que lhe fui fazendo até que se achava [sic] a meu bordo dois homens feridos de bala tendo alguns cabos cortados, e crivado pano com muita metralha, sendo o vento bonança e tentando a terceira abordagem pela velocidade do dito corsário me abordou metendo-me mais de cinquenta homens dentro armados de espadas, facas e pistolas não podendo resistir pela pouca gente que tinha ficaram senhores do bergantim arriando eles mesmo a bandeira portuguesa que ainda se achava  içada, e eu a esse tempo já tinha feito lançar ao mar todas as malas, e mais papéis e vias fora das malas [...][7]

No combate, os espanhóis teriam ficado com pelo menos dois homens feridos, além de três mortos. Segundo o tenente Mendes, ele próprio saiu da luta com duas feridas de bala e oito golpes de espada.  O paquete e sua tripulação foram levados para Porto Rico, onde a presa foi declarada “boa” em julgamento que avaliou o caso. Dois dias depois, o tenente viu em uma gazeta estadunidense que a guerra entre Portugal e Espanha acabara antes do ataque em questão.[8] No entanto, o governador local rejeitou o recurso que lhe foi apresentado por esse motivo, com a alegação de que as notícias do jornal não eram oficiais. Os marinheiros portugueses foram levados para São Tomás, nas Ilhas Virgens Britânicas, enquanto Mendes e o escrivão receberam licença para irem até a Filadélfia em uma escuna inglesa. Dali, saíram em uma galera sueca para Lisboa, mas uma tempestade os fez arribar em Málaga, de onde seguiram por terra. Desse modo, o tenente somente apresentou oficialmente seu relato sobre o caso em 6 de março de 1802, mais de seis meses depois do ocorrido. [9]

Referências

ESPARTEIRO, António Marques. Catálogo dos Navios Brigantinos (1640-1910). Lisboa, Centro de Estudos da Marinha, 1976. 



Notas

[1] Entre 20 de maio e 6 de junho de 1801, aconteceu a chamada Guerra das Laranjas, encerrada por meio do Tratado de Badajoz, que teve seus termos revistos em 29 de setembro em Madri.. O conflito terminou com perdas territoriais no Reino, mas no mesmo ano foram retomados os Sete Povos das Missões na América portuguesa.

[2] AHU_CU_MARANHÃO, Cx. 116, D. 8966.

[3] Gazeta de Lisboa, n. 5 (suplemento), 6 de fevereiro de 1801, p. 4; AHU_CU_BRASIL-GERAL, cx. 34, D. 2744.

[4] AHU_CU_PERNAMBUCO, Cx. 226, D. 15309.

[5] AHU_CU_MARANHÃO, Cx. 116, D. 9020; AHU_CU_MARANHÃO, Cx. 117, D. 9023.

[6] AHU_CU_BRASIL-GERAL, cx. 34, D. 2744.

[7] AHU_CU_BRASIL-GERAL, cx. 34, D. 2744.

[8] O conflito terminara oficialmente em 6 de junho de 1801, com a assinatura do Tratado de Badajoz, de modo que o ataque ao paquete acontecera já durante o período de paz.

[9] AHU_CU_BRASIL-GERAL, cx. 34, D. 2744.

O ataque do Le Grand Bonaparte ao Postilhão da América (1799)


Maria Verônica Secreto, em seu trabalho sobre o Le Grand Bonaparte, mencionado em nossa postagem anterior, não aborda o ataque ao Alvacora. 

Figura 1 - Maquete do Postilhão da América. Fonte: Acervo do Museu Correios.

Todavia, segundo aquela autora, em 1799, depois de apresar perto de Cabo Frio uma corveta inglesa, a Duff, levada para Montevidéu sob as ordens de um oficial francês, o comandante do Le Grand Bonaparte decidiu

ficar perto do Rio de Janeiro aguardando a oportunidade de realizar nova presa. Nos dias seguintes capturou uma zumaca, (embarcação muito parecida com um bergantim) de bandeira portuguesa, A Nazaré, com carregamento de sal, e O Postilhão da América, um bergantim correio português. Todos ingressaram no porto de Montevidéu e, salvo a Duff, foram vendidos com certa celeridade. A fragata Duff, da London Missionary Society, ficou no porto de Montevidéu depois que os corsários partiram, apesar das ordens para não abandonarem presa no porto (Secreto, 2016, p. 425-426).

Realmente, o Postilhão da América foi o terceiro paquete a sofrer um ataque desse tipo.  A sua partida de Lisboa foi anunciada para o dia 10 de dezembro de 1798, sob comando do 1º Tenente Rufino José Peres Batista, juntamente com o Santo Antônio de Olinda, mas não temos como assegurar se saiu realmente nessa data.[1] Em 8 de fevereiro do ano seguinte chegou à Bahia, de onde partiu cinco dias depois com destino ao Rio de Janeiro.[2] Todavia, como comunicou depois D. Fernando José de Portugal,  governador da Bahia, para o secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, tinham chegado àquela capitania notícias de que o Postilhão fora apresado por um corsário francês na altura de Cabo Frio, “escapando as malas e vias, por ter o comandante a cautela de as mandar para terra em um bote, notícia que foi para mim desagradável, até pela consideração de o ter mandado construir neste porto por ordem de Sua Majestade.”[3]

Figura 2 - Aviso de partida do Postilhão da América.
Fonte: Gazeta de Lisboa, n. 49, 4 de dezembro de 1798, p. 4.

A notícia do ataque foi confirmada pelo vice-rei, Conde de Rezende, que, em 30 de maio de 1799, também escreveu a D. Rodrigo:

No infausto encontro que teve o Correio Marítimo Príncipe Real com um corsário francês que o apresou na altura de Cabo Frio, teve o seu comandante Rufino Peres Batista o acordo de meter em um catraio as malas que lhe foram confiadas; e chegando este felizmente a terra foram conduzidas para esta cidade [do Rio de Janeiro] com a devida segurança.[4]

Note-se que há um equívoco na identificação do paquete, confundido aqui com outro. O Príncipe Real saíra de Lisboa, com destino aos portos setentrionais, dois meses antes do Postilhão da América iniciar a sua viagem.[5] Passara por Salinas, no Pará, em fevereiro e chegara a Lisboa em 8 de abril de 1799, pouco menos de dois meses antes de o Conde de Rezende enviar seu ofício. O comandante mencionado pelo vice-rei, Rufino [José] Peres Batista, como vimos, estava à frente do Postilhão da América e não do Príncipe Real.

Há uma grande lacuna nesse caso. Não há como duvidar do apresamento do Postilhão da América, haja vista os ofícios de D. Fernando Portugal e do Conde de Resende (ainda que esse tenha se equivocado sobre o nome do navio), já mencionados antes por Mayra Guapindaia. O trabalho de Maria Verônica Secreto confirma o episódio com base em outra documentação. Entretanto, como veremos, o paquete continuou a navegar com a bandeira lusa até o início de 1803, tendo realizado mais duas viagens. De alguma forma, foi libertado, mas, no decorrer desta pesquisa, não se conseguiu apurar como isso aconteceu. Esparteiro (1976, p. 50), um historiador que é referência para a história naval portuguesa, menciona apenas o posterior naufrágio do navio, sem dar notícia sobre o ataque corsário que sofreu. Guapindaia (2019, p. 252) limitou-se a dizer, pluralizando o episódio, que: “Alguns paquetes foram efetivamente tomados por corsários, mas conseguiram escapar e seguir seu itinerário. Foi o caso do Postilhão da América, em fevereiro de 1799.” Assim, há espaço aqui para novas pesquisas.


Referências


ESPARTEIRO, António Marques. Catálogo dos Navios Brigantinos (1640-1910). Lisboa, Centro de Estudos da Marinha, 1976. 
GUAPINDAIA, Mayra Calandrini. O Controle do Fluxo das Cartas e as Reformas de Correio na América Portuguesa (1796-1821). Tese de doutorado em História, Lisboa, Universidade de Lisboa, 2019.
SECRETO, Maria Verónica. Territorialidades fluidas: corsários franceses e tráfico negreiro no Rio da Prata (1796-1799). Tensões locais-tensões globais. Topoi, v. 17, n. 33, p. 419-443, 2016. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/topoi/a/vkvzbnTkTs5BcvMRMnbgtbh/?format=html&lang=pt>. Acesso em: 01 dez. 2025.


Notas

[1] Gazeta de Lisboa, n. 49, 4 de dezembro de 1798, p. 4.

[2] AHU, Bahia, Cx. 98, D. 19181.

[3] AHU, Bahia, Cx. 99, D.19365. Esse mesmo episódio é registrado por Mayra Guapindaia (2019, p. 252-253).

[4] AHU, Rio de Janeiro, Cx. 98, D. xxx.

[5] Gazeta de Lisboa, n. 39 (segundo suplemento), 29 de setembro de 1798, p. 4.

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Os ataques aos correios marítimos Voador e Alvacora (1798)

 

Vimos, em postagens anteriores, como os ataques de corsários, em diferentes momentos, perturbaram o funcionamento não só das linhas de paquetes britânicos, mas também chegaram a atingir uma das escunas correio do Conde de Arcos na década de 1810.

Figura 1 - Nota sobre o adiamento da viagem dos paquetes Alvacora e Voador.
Fonte: Gazeta de Lisboa, n. 32, 7 de agosto de 1798.

Na verdade, desde sempre a predação marítima fora sério problema a afetar todas as linhas de comunicação marítima. O Regimento do Correio-Mor das Cartas do Mar já previa, em 1657, estratégias para enfrentá-lo (Salvino, 2020). Discussões a respeito do assunto permearam diversos documentos relativos aos sistemas de comunicação marítima da Inglaterra desde o século XVII (ver postagens anteriores neste blogue).

Em 1798, durante as reformas postais, foram implantados correios marítimos regulares entre Lisboa e os principais portos americanos (Machado, 2015; Guapindaia, 2019, Salvino, 2023, entre outros). A operação desses paquetes, em pleno período das guerras revolucionárias francesas, não poderia ter passado por situação diferente. A preocupação com o assunto era tão evidente que a "Instrução para os Comandantes dos Paquetes", documento complementar do Alvará de 20 de janeiro de 1798, atualizou um dos dispositivos do Regimento de 1657, ao estipular que os paquetes deveriam transportar sempre as malas com cartas "na câmara e no sítio mais bem resguardado da mesma, mas sempre lestes para serem lançadas ao mar em tempo de guerra" (ANRJ, cód. 0.67, v. 23). Com a mesma finalidade, o documento reeditava também um dos mandamentos dos paquetes ingleses, destinado a lembrar sempre os comandantes de que sua missão era  chegar com as cartas no destino e não combater: "Em tempo de guerra só se baterá em retirada, evitando sempre quanto lhe for possível  empenhar-se em ação, por que fique impossibilitado de seguir a importante comissão de que vai encarregado" (idem).

Os primeiros paquetes portugueses levantaram âncora de Lisboa no princípio de 1798.  Partiam sempre em duplas, um destinado para os portos meridionais e outro para aqueles setentrionais, de modo a navegar juntos no início da viagem, justamente por questões de segurança. 

Apesar de as conexões deverem ser mensais, outros dois correios marítimos somente voltariam a sair em junho. Suas partidas eram anunciadas com antecedência na Gazeta de Lisboa e no Correio Mercantil, de modo que as pessoas pudessem preparar suas postagens. Por meio desses anúncios, é possível verificar que as viagens, várias vezes, eram adiadas, por ordem da Coroa. Esse foi o caso da terceira delas, a ser realizada pelo Alvacora  (com destino à Bahia e ao Rio de Janeiro) e pelo Voador (com destino à Paraíba, Maranhão e Pará), comandados, respectivamente, pelos primeiros tenentes Henrique José de Carvalho e Antônio Garcia Álvares.

Naquele momento, também devido aos riscos trazidos pela guerra, as travessias dos navios mercantes entre o Reino e a América e vice-versa estavam sendo realizadas em comboios escoltados por navios de guerra. Às vésperas da data prevista para a saída dos paquetes, em  31 de julho de 1798, chegou um comboio de quinze navios de Pernambuco, sob escolta da fragata de guerra Cisne (Frutuoso; Guinote; Lopes, 2001, p. 463-464). Devido a esse fato, para que os comerciantes pudessem preparar suas respostas às correspondências recebidas, bem como eventualmente atender pedidos de mercadorias, a partida dos dois correios marítimos foi adiada para o dia 10 de agosto (Gazeta de Lisboa, n. 32, 7 de agosto de 1798 - ver figura 1).

Eles levantariam âncoras, de fato, no dia 11. Nenhum deles, contudo, completaria suas missões. 

O Voador seria capturado nas proximidades da Ilha da Madeira por corsários franceses apenas alguns dias depois de sua partida, no mesmo dia em que se separou de seu companheiro — a coincidência da data pode ser verificada no relato do comandante do Alvacora (AHU-Rio de Janeiro, cx. 171, doc. 25). A sua tripulação  foi levada para o porto de Rochefort. De Angoulême, o seu comandante escreveu para Portugal no dia 21 de setembro, com informações sobre o caso. Em sua carta  que teve um extrato publicado depois na Gazeta de Lisboa  teve o cuidado de esclarecer que, conforme previsto nas normas, "antes de se render, lançou ao mar as malas" (Gazeta de Lisboa, n. 45,  segundo suplemento, 10 de novembro de 1798  ver figura 2). Nela se lê também que o paquete fora tomado por duas fragatas de 44 peças cada uma.

Figura 2 - Notícia sobre a captura do Voador.
Fonte: Gazeta de Lisboa, n. 45,  segundo suplemento, 10 de novembro de 1798.

Alvacora lograria chegar à costa brasileira, mas também caiu nas mãos dos inimigos.  Segundo o relato de seu comandante, os dois paquetes separaram-se na proximidade da Ilha da Madeira, em obediência às instruções recebidas, por terem avistado dois navios suspeitos. Depois de fugir por algumas horas, ao não avistar mais os inimigos, seguiu para seu destino. Todavia, na altura de Cabo Frio, em 23 de outubro de 1798, acabou capturado por outra fragata francesa, depois de também jogar a mala com as cartas no mar. 

O navio corsário, segundo o relato do tenente Carvalho, chamava-se "Grã Buenaparte uma evidente tentativa de tradução do nome original. Tendo em vista os estudos de Maria Verônica Secreto (2016), era a corveta Le Grand Bonaparte, que atuou nas costas do Brasil entre 1798 e 1799, tendo como base o porto de Montevidéu.  

O corsário vinha de Pernambuco, onde atacara outra embarcação e fora perseguido por uma fragata lusa. Com alguns prisioneiros ingleses e portugueses, dirigia-se para Montevidéu em busca de suprimentos quando encontrou o Alvacora. Sua intenção era depois voltar para o corso na costa brasileira (AHU-Rio de Janeiro, cx. 171, doc. 25).

Alguns dias depois, toda a tripulação do paquete foi passada para um navio espanhol que rumava para o Rio de Janeiro. Dali, retornaram para Portugal à bordo da nau D. Maria I. O tenente Antônio Garcia Álvares seguiu como mero passageiro e não como membro da tripulação, pois, ao ser libertado, dera a sua palavra ao comandante francês de que não pegaria em armas "contra a República [francesa] enquanto se não efetuasse a troca de outro oficial" (AHU-Rio de Janeiro, cx. 171, doc. 25). 

Os dois paquetes levavam cartas no valor total de 375$920 réis quando saíram de Portugal (Machado, 2015, p. 233). Podiam transportar também mercadorias, tal como previsto no Alvará de 20 de janeiro de 1798, mas não temos informação sobre os eventuais valores neste caso. O comandante do Alvacora mencionou em seu relato transportar massame e velas para uso em navios de guerra no Rio de Janeiro. Essas, contudo, não eram as principais perdas. Além do valor em si dos navios  que se pode estimar em cerca de dez contos de réis, pelo menos (Salvino, 2023, p. 678, 680), há de se pensar nos prejuízos para o comércio, decorrentes da interferência no bom andamento dos negócios tratados nas cartas cujo fluxo foi interrompido. Pairando acima disso tudo, havia sempre o risco de que informações confidenciais pudessem cair em mãos inimigas.

Esses foram os primeiros ataques aos paquetes portugueses. Outros aconteceriam nos anos seguintes, perpetrados não só por franceses, mas também pelos espanhóis. Mas isso é assunto para outra postagem.

Fontes manuscritas

ARQUIVO HISTÓRICO ULTRAMARINO (AHU). Ofício do [vice-rei do Estado do Brasil, conde de Resende, [D. José Luís de Castro], ao [secretário de estado da Marinha e Ultramar], D. Rodrigo de Sousa Coutinho, sobre ter entrado no porto do Rio de Janeiro uma nau espanhola conduzindo o tenente da Marinha e comandante do paquete marítimo Alvacora, Henrique José de Carvalho que fora apresado pelos franceses, e que este passava à Corte na nau Maria I. AHU-Rio de Janeiro, cx. 171, doc. 25. AHU_ACL_CU_017, Cx. 167, D. 12462.

ARQUIVO NACIONAL DO RIO DE JANEIRO (ANRJ), Rio de Janeiro. Instruções anexas ao Alvará de 20 de janeiro de 1798, 26 fev. 1798, cód. 0.67, v. 23. 

Bibliografia

FRUTUOSO, Eduardo; GUINOTE, Paulo; LOPES, António. O movimento do porto de Lisboa e o comércio luso-brasileiro (1769-1836). Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2001.

GUAPINDAIA, Mayra Calandrini. O controle do fluxo das cartas e as reformas de Correio na América portuguesa (1796-1821). Tese (Doutorado em História) – Universidade de Lisboa, Lisboa, 2019.

MACHADO, Luís Guilherme G. A criação dos correios marítimos entre Portugal e Brasil em 1798. Postais: Revista do Museu Correios, n. 4, p. 226-239, 2015.

SALVINO, Romulo Valle.  Os Correios Marítimos portugueses: logística e alguns resultados financeiros (1798-1803). História Econômica & História de Empresas, v. 26, n. 3, p. 663-693, 2023.

SALVINO, Romulo Valle. Guerras de papel: comunicação escrita, política e comércio na monarquia ultramarina portuguesa. Jundiaí: Paco Editorial, 2020.

SECRETO, Maria Verónica. Territorialidades fluidas: corsários franceses e tráfico negreiro no Rio da Prata (1796-1799). Tensões locais-tensões globais. Topoi, v. 17, n. 33, p. 419-443, 2016. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/topoi/a/vkvzbnTkTs5BcvMRMnbgtbh/?format=html&lang=pt>. Acesso em: 01 dez. 2025.



terça-feira, 29 de julho de 2025

A prestação de contas entre os correios portugueses e britânicos


Uma instrução da Administração postal inglesa dirigida em 1812 ao novo agente dos paquetes no Rio de Janeiro, Joseph Peppin, lembrava que se deveria exigir a cada trimestre dos “Correios Brasileiros” (Brazilian Post, no original) o pagamento de 600 réis por onça de cartas que lhe fosse entregue, “de acordo com o Tratado existente com o governo português” (Instructions, 1812, p. 66).  

Figura 1  - Porto de Falmouth no século XIX
Fonte: Barreiros; Barreiros, 2018, p. 7.

A ordem encontrava respaldo no artigo 13º da Convenção de setembro de 1808 (APEB, BR BAAPEB CCivil-CAREG-106-145), que, por sua vez, remetia ao Tratado de 1705.  Aquele documento mais antigo previa que as remessas dos valores devidos para a Inglaterra se dariam por meio de letras de câmbio emitidas pelos correios portugueses. De acordo com as novas orientações, no entanto, as remessas seriam realizadas pelo agente britânico local, depois de descontados os valores correspondentes aos seus salários (Instructions, 1912, p. 66).

Tendo em vista tais disposições, em 20 de julho de 1812, o Barão de São Lourenço, Tesoureiro do Erário Régio determinou a Manuel Teodoro da Silva, administrador dos Correios no Rio de Janeiro, que

Na conformidade do Aviso que me foi expedido em 13 do corrente mês, determina o Ilustríssimo. e Excelentíssimo Senhor Conde Aguiar, Presidente do Real Erário, que Vossa Mercê pague ao Cônsul Geral, Deputado e Agente dos Paquetes da Nação Britânica, na forma de que se acha estipulado, a importância do vencimento dos portes das cartas que vierem em cada paquete daqui em diante, recebendo Vossa Mercê do dito Agente os competentes recibos para lhe serem abonados nas contas que der do seu recebimento (Aviso, 20 de julho de 1812, p. 38 - grifos meus).

Chama a atenção que seja mencionado, no caso, não o novo agente, Joseph Peppin, a quem fora dirigida a Instrução dos Correios britânicos, mas o Cônsul, que até então fora o responsável direto pelo serviço, a mostrar  que se tratava de um momento de transição. O trecho em destaque ("daqui em diante"), por sua vez, parece indicar que, no intervalo entre a assinatura da primeira convenção dos paquetes e aquele momento, não teriam acontecido os pagamentos previstos. Essa expressão e o fato de que o assunto ficara de fora da Convenção de 1810 podem ser indício de eventuais divergências e novas tratativas, mas somente outros indícios poderiam esclarecer essa questão.

Como os packet boats atendiam também a Bahia, era necessário contabilizar as correspondências entregues naquele lugar. As providências nesse, contudo, somente foram adotadas quase um ano depois. Em 14 de junho de 1813, o governador daquela capitania, Conde dos Arcos, determinou que, em atenção a um Aviso Régio datado de 2 daquele mesmo mês, o correio local deveria emitir e entregar ao cônsul britânico  uma nota com a quantidade de cartas recebida em cada um daqueles navios (MC, Códice Bahia, 1813, p. 129), para que ele a repassasse ao agente do serviço no Rio de Janeiro. [1]

Esse procedimento mostra que o fechamento de contas ficou inicialmente centralizado no Rio de Janeiro, além de reforçar a ideia de que, pelo menos até aquele momento, não havia um preposto dedicado ao serviço de paquetes na Bahia, de modo que a função era acumulada pelo cônsul local. Por outro lado, até o momento, não encontramos o Aviso de 2 de junho mencionado pelo governador.

Figura 2 - Ofício do Conde dos Arcos ao Administrador dos 
Correios da Bahia sobre as cartas recebidas pelos paquete ingleses - 1813
Fonte: MC, Códice Bahia, 1813, p. 129

As cartas transportadas pelos paquetes já tinham sido obrigatoriamente cobradas na origem. Assim, esses pagamentos constituíam uma receita suplementar para a administração postal britânica. Os 600 réis por onça devidos pelos Correios luso-brasileiros equivaliam, no câmbio para transações correntes de 1810, mais ou menos, ao valor pago por uma “simples carta”. Como uma onça correspondia ao peso de cerca de quatro dessas correspondências, os Correios portugueses ficavam, naquele momento, com aproximadamente três quartos das receitas auferidas, descontados os valores daquelas cartas eventualmente devolvidas por não terem sido procuradas por seus destinatários, conforme estabelecido pelo Tratado de 1705.

São vários os documentos emitidos na primeira década de 1820 a determinar o pagamento com atraso dos valores devidos aos ingleses. O mais antigo deles é do início de 1823, dirigido por Martim Francisco Ribeiro de Andrade à Junta da Fazenda de Pernambuco, a determinar que se pagasse 

ao Cônsul da Grã-Bretanha, residente nessa província, o que se dever ao seu governo de porte das cartas deixadas pelos paquetes e entregues ao no respectivo Correio, vindas da Inglaterra, desde o seu estabelecimento, em conformidade do artigo adicional à convenção dos ditos paquetes, de 19 de fevereiro de 1810, como se tem praticado no Correio Geral desta Corte [...] (Provisão, 20 de fevereiro de 1823, p. 27)

Como não encontramos nenhuma ordem anterior a respeito desse assunto no que se refere à Pernambuco, é possível mesmo que a dívida se acumulasse desde o final de 1817, quando os primeiros paquetes tocaram naquele porto.

Ordem semelhante foi enviada à Bahia em 4 de agosto do mesmo ano, com a ressalva de que  os pagamentos deveriam ser realizados com exclusão "da importância das  cartas enviadas no tempo em que  essa cidade esteve sujeita ao governo de Portugal e desligada da união brasileira" (Provisão, 4 de agosto de 1812, p. 102). Como, no caso daquela província, já houvera instruções anteriores, o período em atraso devia ser mais limitado. Observa-se que, diferentemente do que acontecera em 1813, os pagamentos seriam realizados diretamente ao representante do governo britânico naquele local. Não conseguimos apurar, entretanto, se essa modificação vigoraria a partir daquele momento, ou se já se encontrava em prática anteriormente. 

O assunto, no entanto, não se resolveu de imediato. As ordens tiveram de ser renovadas em setembro de 1824, depois de reclamação do Cônsul Geral britânico no Rio de Janeiro de que os débitos ainda não haviam sido cobertos (Portaria, 24 de setembro de 1824, p. 333). A pendenga ainda se arrastaria por vários meses. Quase dois anos depois do início do caso,  o Cônsul Geral ainda reclamava, informando que o administrador dos Correios da Bahia ignorava quais os valores a serem tomados como base da operação (Provisão, 20 de junho de 1825, p. 99). Desse modo, sempre com a ressalva de que não devia ser contemplado o período em que aquela província se mantivera fiel a Portugal, determinou-se que a Junta da Fazenda baiana satisfizesse a dívida à razão de 55,50 réis (a fração consta na fonte) por onça (idem, p. 99). Esse era um número significativamente menor que os 600 réis estabelecidos em 1705 e ratificados em 1812, mas também não sabemos se já estava em vigência anteriormente ou se foi uma inovação. 

Fonte primária manuscrita

ARQUIVO Público do Estado da Bahia (APEB), Carta do conde de Linhares para o conde da Ponte, informando sobre o irregular procedimento do cônsul Inglês, quanto a abertura da mala do Paquete, na qual remete uma cópia da convenção que sobre este artigo se ajustou [...]. 24 de março de 1809. APEB,  BR BAAPEB CCivil-CAREG-106-145.

MUSEU Correios (MC). Registo da carta do Exmo. Conde dos Arcos em que ordena o seguinte [...] 14 de junho de 1813. In: Códice Bahia, p. 129.


Fontes primárias impressas

AVISO de 20 de julho de 1812. In: ARAÚJO, J.P. F. N. Collecção Chronologica das Leis, Decretos, Resoluções de Consulta, Provisões, etc., etc., do Imperio do Brazil, desde o ano de 1808 até 1831 inclusive [...]. v. 2. Rio de Janeiro: J. Villeneuve, 1837.

CONVENÇÃO entre o Príncipe Regente o Senhor D. João, e Jorge III da Gran-Bretanha, sobre o estabelecimento de paquetes [...], de 19 de fevereiro de 1810. In: CASTRO, José Ferreira Borges de. Collecção dos Tratados, Convenções, Contratos e Actos Publicos celebrados entre a Coroa de Portugal e mais potências de 1640 até o presente. Lisboa: Imprensa Nacional, 1857.

INSTRUCTIONS given by John, Earl of Sandwich and Thomas, Earl of Chichester, His Majesty’s Postmaster General, to Joseph Peppin, Agent at Rio de Janeiro for His Majesty’s Packets sailing between Falmouth and the Brazils. 1812. In: HOWAT, J. N. T. South American Packets: The British Packet Service to Brazil, the River Plate, the West Coast (via the Straits of Magellan) and the Falkland Islands, 1808-80. London: The Postal History Society; York: William Sessions, 1984.

PORTARIA de 24 de setembro de 1824. In: ARAÚJO, J.P. F. N. Collecção Chronologica das Leis, Decretos, Resoluções de Consulta, Provisões, etc., etc., do Imperio do Brazil, desde o ano de 1808 até 1831 inclusive [...]. v. 4. Rio de Janeiro: J. Villeneuve, 1838.

PROVISÃO de 20 de fevereiro de 1823. In: ARAÚJO, J.P. F. N. Collecção Chronologica das Leis, Decretos, Resoluções de Consulta, Provisões, etc., etc., do Imperio do Brazil, desde o ano de 1808 até 1831 inclusive [...]. v. 4. Rio de Janeiro: J. Villeneuve, 1838.

PROVISÃO de 4 de agosto de 1823. In: ARAÚJO, J.P. F. N. Collecção Chronologica das Leis, Decretos, Resoluções de Consulta, Provisões, etc., etc., do Imperio do Brazil, desde o ano de 1808 até 1831 inclusive [...]. v. 4. Rio de Janeiro: J. Villeneuve, 1838.

PROVISÃO de 20 de junho de 1825. In: ARAÚJO, J.P. F. N. Collecção Chronologica das Leis, Decretos, Resoluções de Consulta, Provisões, etc., etc., do Imperio do Brazil, desde o ano de 1808 até 1831 inclusive [...]. v. 5. Rio de Janeiro: J. Villeneuve, 1838.

TRATADO entre o correio-mor de Portugal e o da Grã-Bretanha. 1705. In: FERREIRA, Godofredo (comp.). Documentos dos séculos XIII a XIX relativos a correios. Lisboa: Fundação Portuguesa das Comunicações, 2008. Edição em CD-Rom.

Bibliografia

BARREIROS, Eduardo; BARREIROS, Luís. Os "Falmouth Packets" para a Coruna e o correio para Portugal. Boletim do Clube Filatélico de Portugal, n. 460, p. 5-15, 2018.

GOLDFEDER, Pérola. “Em torno do trono”: a economia política das comunicações postais no Brasil do século XIX. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2022.

GUAPINDAIA, Mayra Calandrini. Correios da Bahia: A experiência global das comunicações terrestres e marítimas no processo da Independência (1798-1822). In: PIMENTA, João Paulo; SANTIROCCHI, Ítalo Domingos. A Independência do Brasil em perspectiva mundial. São Paulo: Alameda, 2022.



Nota

[1] Esse mesmo documento foi comentado por Mayra Guapindaia. Segundo aquela autora, ainda  não ciente de que os paquetes britânicos passavam por aquela capitania desde 1808, "apesar de não se saber de fato o fluxo dos navios transportadores de cartas de outros reinos europeus, alguns indícios deixam entrever que as ligações postais se estreitaram, pelo menos com a Grã-Bretanha (Guapindaia, 2022, p. 29). Depois de referir-se à Convenção de 1810, a autora observa que "não há nenhuma indicação de trajetória pela Bahia, mas o aviso do Conde dos Arcos traz o indício de uma difusão do serviço, abrangendo também a capitania do Norte" (idem, p, 29).

Texto atualizado em 02/08/2025, tendo em vista a descoberta, em 29/07/2025, dos artigos da Convenção de setembro de 1808.


sexta-feira, 25 de julho de 2025

O "mistério" das packet letters não marcadas pelo correio português

 

Das trinta e quatro cartas da coleção Finnie trazidas pelos paquetes, apenas dez (29,41%) apresentam sinais de passagem pelo correio português. Entre essas, somente oito trazem indicação dos portes a serem cobrados. Isso não deveria acontecer. Embora não se conheçam diretrizes operacionais diretamente aplicáveis às packet letters, as normas incidentes sobre o serviço postal exigiam a marcação dos portes devidos nos sobrescritos tão logo as correspondências entrassem no sistema postal, para evitar erros de cobrança e agilizar as entregas. 

Figura 1 - Envelope com representação imaginária do Windor Castle (1970)
Fonte: https://memoryspot.com/product/post-office-packet-windsor-castle-cover/

Frazão chegou a propor algumas explicações para o caso. Duas de suas hipóteses apontam para diferentes formas de evasão de receitas, com a entrega irregular das cartas ao seu destinatário, seja pelo representante britânico dos paquetes, seja pelo agente postal português (Frazão, 2010, p. 28). Aquele autor acredita que, se esse for o caso, o mais provável seria a fraude praticada pelo agente britânico, mas a comprovação disso exigiria provas adicionais (Frazão, 2010, p. 35). Como vimos, as duas convenções dos paquetes previam que as correspondências não fossem entregues soltas ao representante português, mas sim fechadas nas mesmas malas vindas da Inglaterra, o que dificultaria esse tipo de desvio.

Outra possibilidade, ainda segundo Frazão (2010, p. 29), seria o registro de um valor único apenas na primeira das várias cartas de um maço, depois de serem pesadas em conjunto, uma prática comum em Lisboa no caso de  diversas correspondências vindas de uma única origem para o mesmo destinatário. Como uma possível evidência nesse sentido, o autor aponta a existência de um numeral, "11.550”,[1] registrado no anverso de uma missiva postada em Londres e trazida pelo Windsor Castle, que aportara no Rio de Janeiro no dia 25 de outubro de 1811.[2]. Segundo o pesquisador, a marca poderia ser uma provável referência ao valor a ser cobrado de um maço de papéis com peso entre 70 e 72 oitavas, cerca de dois quilogramas, de acordo com a conversão usual da medida de peso portuguesa). 

É possível observar na relação de cartas elaborada por Frazão que, na mesma data,  Finnie recebeu também uma single letter postada em Liverpool,. Essa correspondência não tem qualquer marcação do correio português, de modo que, se aceita a hipótese do maço, poderia ter feito parte dele. Todavia, seriam necessárias, cerca de dezessete cartas com 4 oitavas (cerca de 115 gramas cada uma), peso correspondente ao de uma revista de cerca de vinte páginas para completar o peso total tarifado.  

Mencionei supostas cartas com 4 oitavas, pois, entre as oito packet letters da coleção Finnie marcadas pelo correio português, três trazem  indicação de possuir, no mínimo esse peso (tarifa de 660 réis). Outras três foram tarifadas com 990 réis, como se possuíssem, no mínimo, seis oitavas (171 gramas) e uma com 1.980 réis, valor corresponde a uma carta com mais de 12 oitavas (342 gramas).  A última das cartas marcadas é a que traz o número "11.550". Em todos os casos, seriam correspondências muito volumosas, com pesos bastante incomuns não só naquela época, mas em qualquer outra. Assim, embora esse raciocínio não seja invocado pelo próprio Frazão, parece-me que ele corrobora a hipótese da tarifação em maços. Note-se, nesse sentido, que não existe no Quadro 1 nenhuma correspondência tarifada com 330 réis, ou seja, na primeira faixa da matriz tarifária, aplicável a cartas de até de duas oitavas (57,38 gramas). Esse seria o peso mais esperado de uma single letter e até mesmo de uma double letter, haja vista as gramaturas de papel mais comuns da época.  É óbvio que, se tivéssemos acesso às cartas em questão e pudéssemos pesá-las e lê-las, para verificar se eram eventualmente acompanhadas de algum anexo volumoso (como amostras de mercadorias, por exemplo), a hipótese poderia ser reforçada (ou não).

Todavia, por que na maioria dos dias em que foram recebidas packet letter não há nenhum delas com a marcação do correio português? [3] Por que, em todos esses casos, teriam sido perdidas justamente as cartas que serviam de capas de lote? E onde estariam as outras cartas que compunham os supostos maços nos dias em que há cartas marcadas, já que não aparecem na coleção? Essas supostas missivas teriam sido também perdidas? Não há como saber.  Mas, ao que aparece, o conjunto aqui chamado de coleção Finnie compõe-se apenas de correspondências stritu senso. No caso do sistema postal, eram tarifados também outros papéis, como letras de câmbio, notas ou registros de preços, que poderiam ser organizados em maços para serem entregues no Brasil. Isso explicaria as “cartas desaparecidas” – não seriam correspondências propriamente ditas, embora fossem classificadas dessa forma para o trâmite postal.

Por outro lado, parece-me que não se pode desprezar outra hipótese para explicar pelo menos parte dos casos, fora a fraude e a formação de maços.  Não é difícil imaginar também que, na chegada das malas trazidas pelos paquetes, já houvesse destinatários impacientes à espera. Não era difícil que isso acontecesse, pois a ancoragem dos navios era de conhecimento geral nas proximidades da área portuária, onde ficavam não só os português e britânico, mas a maioria das casas comerciais. Normalmente, os navios já eram avistados pelos fortes que guarneciam a baía da Guanabara antes de cruzarem a barra e essa notícia chegava ao Morro do Castelo pelo telégrafo ótico que já funcionava na época.

Figura 2 - Folha de rosto de: Luccock, John. Notes on Rio de Janeiro, and the 
Southern Parts of Brazil [..]
. 1820.
Disponível em: https://archive.org/details/notesonriodejan00lucc/page/n9/mode/2up

Tal suposição parece ser reforçada por uma pequena anedota lembrada também por Frazão (2010, p. 24-26), embora com outra finalidade.[4] Trata-se de um episódio que, se verdadeiro, seria incomum. Todavia, ele dá a dimensão do sentimento de urgência com que as pessoas podiam esperar as demoradas cartas da época e, tão logo chegassem, os navios, acorressem ao correio . É em Lucckock que o lemos:

Estava na véspera de deixar o Rio e esperando com grande ansiedade pelo navio de carreira, convencido que ele me traria informações das mais interessantes. Ao chegar, procurei pelo superintendente dos Correios. Pedindo-lhe que me fosse entregue a carta aguardada; mas a mala ainda ali não chegara, parecendo ter encontrado qualquer dificuldade desnecessária. Fui então ao Consulado da Inglaterra, sabendo ali que ela de lá já saíra fazia muito tempo. Ao descer as escadas, notei que um dos criados portugueses se achava à porta, com um pequeno embrulho na mão. Perguntei-lhe se não era aquilo a mala da Inglaterra, respondendo ele que sim e que há muito que ali estava à espera de alugar alguém que lha levasse até os Correios, que dali não distavam mais de duzentas jardas”.

Eu, que por esse tempo, não andava de ânimo para tolerar semelhante tolice, arrebatei-lhe o pacote das mãos e levei-o embora, num passo raramente visto em cidade brasileira, com o homem nos calcanhares a murmurar "os ingleses são diabos". Fui imediatamente introduzido no gabinete e galardoado com a esperada carta”. (Luccock, 1975, p. 73)

Nesse caso, provavelmente, a entrega da correspondência foi cobrada, mas dificilmente o funcionário perdeu tempo em marcar o valor no sobrescrito antes...


Fonte primária manuscrita

ARQUIVO Público do Estado da Bahia (APEB), Carta do conde de Linhares para o conde da Ponte, informando sobre o irregular procedimento do cônsul Inglês, quanto a abertura da mola do Paquete, na qual remete uma cópia da convenção que sobre este artigo se ajustou [...]. 24 de março de 1809. APEB,  BR BAAPEB CCivil-CAREG-106-145.

Fontes primárias impressas

CONVENÇÃO entre o Príncipe Regente o Senhor D. João, e Jorge III da Gran-Bretanha, sobre o estabelecimento de paquetes [...], de 19 de fevereiro de 1810. In: CASTRO, José Ferreira Borges de. Collecção dos Tratados, Convenções, Contratos e Actos Publicos celebrados entre a Coroa de Portugal e mais potências de 1640 até o presente. Lisboa: Imprensa Nacional, 1857.

LUCCOCK, John. Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil. Trad. Milton da Silva Rodrigues. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1975.

Bibliografia

FRAZÃO, Luís V. P. B. Cartas de Inglaterra para o Brasil pelo paquete do Rio de Janeiro (1811- 1815). Boletim do Clube Filatélico de Portugal, n. 249, p. 7-35, 2010. 



Notas

[1] Essa correspondência foi lançada na tabela de Frazão entre as não marcadas pelo correio português, mas optamos por reclassificá-la, haja vista o registro desse numeral. Aquele autor (2011,p. 34) menciona que a marca em questão encontra-se no verso da missiva (face com os dados do destinatário), mas a imagem reproduzida no artigo mostra que o valor foi consignado no anverso dela (face com os dados do remetente), diferentemente da prática habitual.

[2] A data de chegada do Windsor Castle pode ser verificada em: Olenkiewicz, 2018, p. 6.

[3] Na tabela de Frazão (2010, p. 8), consta que Finnie teria recebido pelos paquetes mais de uma carta somente em poucas ocasiões: a) em 5 de maio de 1811, foram duas, ambas taxadas com 990 réis; b) em 9 de janeiro de 1812, chegaram três, todas sem marcação individual de portes; c) em 29 de maio de 1814, outras três, também sem quaisquer indicações de portes; d) em 7 de novembro de 1814, duas, nas mesmas condições; e) em 23 de maio de 1815, mais quatro, também sem marcações.

[4] Frazão utiliza essa passagem de Luccock em trecho que trata do relacionamento entre os representantes ingleses e o correio português, como ilustração das práticas então vigentes entre as duas administrações. O autor não remete diretamente Luccock. Reporta-se, em segunda mão, a um trabalho do filatelista Paulo Comelli, que transcreve o mesmo texto, mas sem indicar a referência completa.  

Texto atualizado em 02/08/2025, tendo em vista a descoberta, em 29/07/2025, dos artigos da Convenção de setembro de 1808.


quinta-feira, 24 de julho de 2025

Tarifas portuguesas para as ship letters (1812)


Até aqui abordamos as tarifas aplicáveis as cartas que circulavam pelos paquetes entre o Reino Unido e os domínios portugueses, as chamadas packet letters. Além delas e das correspondências contrabandeadas por passageiros e tripulações, havia também missivas postadas nos correios britânicos e transportadas pelos navios mercantes, as chamadas ship letters. 

Figura 1 - Mapa do Rio de Janeiro de 1810 
(Esquisse de la Ville et du Port de Rio de Janeiro. Tardieu, Pierre-Francois.
Disponível em: https://bahia.ws/mapa-do-rio-de-janeiro-de-1810/ 

Obviamente, era de interesse da administração postal portuguesa que todas as missivas lhes fossem confiadas, para serem cobradas durante a entrega. Se, de acordo com as convenções de 1808 e 1810, as packet letters lhes eram trazidas em malas fechadas pelo agente britânico dos paquetes, as demais dependiam dos comandantes dos navios para que lhe chegassem às mãos. 

Como vimos também, as tarifas inglesas das ship letters eram metade daquelas das packet letters. A legislação conhecida não indica que essa  prática fosse aplicável no Brasil, de modo que, aparentemente, até o final de 1812, as cartas desse tipo  eventualmente entregues pelos correios portuguesas eram cobradas de acordo com os mesmos preços aplicáveis àquelas transportadas pelos paquetes. 

Entre as ship letters da Coleção Finnie, uma única traz sinais de ter sido tarifada no Rio de Janeiro antes de novembro de 1812, quando o assunto foi objeto de normatização, tendo-lhe sido imposto o porte de 660 réis (ver figura 2). Postada em Liverpool em 1º de agosto daquele ano, ela seguiu pelo navio mercante Gambier e foi recebida por James Finnie em 24 de outubro. O porte aplicado no caso indica que foi cobrada como se tivesse sido transportada pelos paquetes.

Figura 2 - Carta postada em Liverpool em 1º de agosto de 1812.
Fonte: Frazão, 2010, p. 22.

Supor a existência de uma prática tarifária com base em um único exemplo seria temerário. Porém, menos de um mês depois de essa correspondência ter sido entregue, foi publicada, em 14 de novembro daquele ano, a Decisão nº 40, que elucidava os portes a serem pagos no caso.  Em sua abertura, o documento em questão fala em "cobrança indevida"  até aquele momento.  É explícito que houvera reclamações a respeito:

Sendo presente a Sua Alteza Real o Príncipe Regente Nosso Senhor que por essa Administração do Correio se tem cobrado indevidamente das cartas vindas pelos navios mercantes ingleses o mesmo porte de cartas, que se deve tão somente pagar pelas que vem nos paquetes, obrigando-se de mais a mais os donos das amostras das fazendas, e das gazetas a pagar por estas um porte que não é devido, ainda que viessem pelos mesmos paquetes (Decisão, 1812 - grifos meus)

Apesar da afirmativa de que os valores eram cobrados  "indevidamente", não se encontraram quaisquer normas anteriores sobre o assunto. Como vimos, a Convenção 1810 estabelecia simplesmente que a Coroa portuguesa poderia impor as suas próprias tarifas, mas tal disposição aplicava-se, a princípio, apenas às packet letters. De qualquer modo, para eliminar possíveis dúvidas, a Decisão  nº 40 estabelecia que, doravante,

foi servido o mesmo Senhor ordenar que as cartas, que vierem pelos navios de comércio só paguem o porte de 120 réis por uma simples carta de folha de papel, e das mais em proporção (Decisão, 1812 - grifos meus)

Note-se que que os portes, diferentemente do que acontecia na Inglaterra, não correspondiam à metade daqueles aplicados às cartas vindas nos paquetes. 

Com relação às gazetas e amostras devia ser cobrado apenas “o que se pratica na Grã- Bretanha por iguais artigos” (Decisão, 1812, p. 49). No entanto, até o momento, não encontramos qualquer norma complementar a estabelecer os valores aplicáveis no caso. Também não conseguimos, até o momento, informações sobre aqueles vigentes na Inglaterra. Howat (1984, p. 253-257) realizou um extenso estudo sobre as tarifas estabelecidas pelos correios ingleses no que se refere ao tráfego para o Brasil durante o século XIX, mas abordou aquelas incidentes sobre jornais, livros e amostras de mercadoria apenas depois de 1867.

Por outro lado, obviamente, era de interesse da administração postal portuguesa que tanto as ship letters propriamente ditas quanto as cartas contrabandeadas lhes fossem confiadas, para serem cobradas durante a entrega. Por isso, a mesma Decisão estipulava que era devido aos mestres das embarcações o pagamento de 35 réis por carta trazida, independentemente do peso delas (Decisão, 1812, p. 49)Assim, ao cabo, a administração postal portuguesa ficava com 85 réis líquidos de uma carta de primeiro porte recebida por esse meio, 205 réis de uma de segundo porte e assim por diante. 

Tal determinação emulava providência semelhante adotada pela administração postal britânica em 1799, quando se estabeleceu a tarifa de 4 d. para a entrega de cartas transportadas pelos navios mercantes, com o correspondente pagamento de 2d. para os comandantes que as entregassem (Hemmeon, 1912, p. 124). O atrativo oferecido, aparentemente, funcionava, pois há exemplos de correspondências oriundas do Brasil  tarifadas de acordo com essa norma (ver figura 3).

Figura 3 - Carta das Coleções Robertson e Comelli.
Escrita no Rio de Janeiro em19 de janeiro de 1814, com destino a Guernesey.
Transportada por navio mercante, deu entrada no correio de Plymouth,
 onde lhe foi imposto o porte de 4 d. (ver sobrescrito).
Fonte: Santos, 2011, p. 130.

Das ship letters e cartas contrabandeadas recebidas por Finnie por meio dos navios mercantes, dezenove chegaram antes da Decisão nº 40 de 1812. Entre essas, apenas a da Figura 2 (5% do total) apresenta a marca do correio português. Depois das novas posturas, chegaram mais vinte e sete correspondências, das quais dez (37,03%) ostentam os sinais de tarifação no Rio de Janeiro. Nenhuma delas traz indícios de ter passado pelo correio britânico. Tais números parecem indicar que o  incentivo oferecido pelo governo português trouxe resultados, de modo que parte dos marinheiros ingleses passou a  entregar ao correio local inclusive as correspondências saídas de forma irregular da Inglaterra.

  

Fonte primária manuscrita

ARQUIVO Público do Estado da Bahia (APEB), Carta do conde de Linhares para o conde da Ponte, informando sobre o irregular procedimento do cônsul Inglês, quanto a abertura da mola do Paquete, na qual remete uma cópia da convenção que sobre este artigo se ajustou [...]. 24 de março de 1809. APEB,  BR BAAPEB CCivil-CAREG-106-145.

Fontes primárias impressas

CONVENÇÃO entre o Príncipe Regente o Senhor D. João, e Jorge III da Gran-Bretanha, sobre o estabelecimento de paquetes [...], de 19 de fevereiro de 1810. In: CASTRO, José Ferreira Borges de. Collecção dos Tratados, Convenções, Contratos e Actos Publicos celebrados entre a Coroa de Portugal e mais potências de 1640 até o presente. Lisboa: Imprensa Nacional, 1857.

DECISÃO n. 40, de 14 de novembro de 1812. In: COLLECÇÃO das Leis do Brazil: Decisões de 1812.  Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1891. 

Bibliografia

FRAZÃO, Luís V. P. B. Cartas de Inglaterra para o Brasil pelo paquete do Rio de Janeiro (1811- 1815). Boletim do Clube Filatélico de Portugal, n. 249, p. 7-35, 2010. 

GOLDFEDER, Pérola. “Em torno do trono”: a economia política das comunicações postais no Brasil do século XIX. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2022.

HEMMEON, J. C. The History of the British Post Office. Cambridge: Harvard University, 1912.

SANTOS, Everaldo Nigro dos. Documentos postais na História do Brasil. São Paulo: Edição do Autor, 2011.

Texto atualizado em 02/08/2025, tendo em vista a descoberta em, 29/07/2025, dos artigos da Convenção de setembro de 1808.


Os ataques aos correios marítimos Caçador e Olinda (1801)

Os próximos ataques a paquetes portugueses somente viriam a acontecer em 1801. Naquele ano, foram perdidos o  Caçador  e o Santo Antônio de ...