sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Os ataques aos correios marítimos Voador e Alvacora (1798)

 

Vimos, em postagens anteriores, como os ataques de corsários, em diferentes momentos, perturbaram o funcionamento não só das linhas de paquetes britânicos, mas também chegaram a atingir uma das escunas correio do Conde de Arcos na década de 1810.

Figura 1 - Nota sobre o adiamento da viagem dos paquetes Alvacora e Voador.
Fonte: Gazeta de Lisboa, n. 32, 7 de agosto de 1798.

Na verdade, desde sempre a predação marítima fora sério problema a afetar todas as linhas de comunicação marítima. O Regimento do Correio-Mor das Cartas do Mar já previa, em 1657, estratégias para enfrentá-lo (Salvino, 2020). Discussões a respeito do assunto permearam diversos documentos relativos aos sistemas de comunicação marítima da Inglaterra desde o século XVII (ver postagens anteriores neste blogue).

Em 1798, durante as reformas postais, foram implantados correios marítimos regulares entre Lisboa e os principais portos americanos (Machado, 2015; Guapindaia, 2019, Salvino, 2023, entre outros). A operação desses paquetes, em pleno período das guerras revolucionárias francesas, não poderia ter passado por situação diferente. A preocupação com o assunto era tão evidente que a "Instrução para os Comandantes dos Paquetes", documento complementar do Alvará de 20 de janeiro de 1798, atualizou um dos dispositivos do Regimento de 1657, ao estipular que os paquetes deveriam transportar sempre as malas com cartas "na câmara e no sítio mais bem resguardado da mesma, mas sempre lestes para serem lançadas ao mar em tempo de guerra" (ANRJ, cód. 0.67, v. 23). Com a mesma finalidade, o documento reeditava também um dos mandamentos dos paquetes ingleses, destinado a lembrar sempre os comandantes de que sua missão era  chegar com as cartas no destino e não combater: "Em tempo de guerra só se baterá em retirada, evitando sempre quanto lhe for possível  empenhar-se em ação, por que fique impossibilitado de seguir a importante comissão de que vai encarregado" (idem).

Os primeiros paquetes portugueses levantaram âncora de Lisboa no princípio de 1798.  Partiam sempre em duplas, um destinado para os portos meridionais e outro para aqueles setentrionais, de modo a navegar juntos no início da viagem, justamente por questões de segurança. 

Apesar de as conexões deverem ser mensais, outros dois correios marítimos somente voltariam a sair em junho. Suas partidas eram anunciadas com antecedência na Gazeta de Lisboa e no Correio Mercantil, de modo que as pessoas pudessem preparar suas postagens. Por meio desses anúncios, é possível verificar que as viagens, várias vezes, eram adiadas, por ordem da Coroa. Esse foi o caso da terceira delas, a ser realizada pelo Alvacora  (com destino à Bahia e ao Rio de Janeiro) e pelo Voador (com destino à Paraíba, Maranhão e Pará), comandados, respectivamente, pelos primeiros tenentes Henrique José de Carvalho e Antônio Garcia Álvares.

Naquele momento, também devido aos riscos trazidos pela guerra, as travessias dos navios mercantes entre o Reino e a América e vice-versa estavam sendo realizadas em comboios escoltados por navios de guerra. Às vésperas da data prevista para a saída dos paquetes, em  31 de julho de 1798, chegou um comboio de quinze navios de Pernambuco, sob escolta da fragata de guerra Cisne (Frutuoso; Guinote; Lopes, 2001, p. 463-464). Devido a esse fato, para que os comerciantes pudessem preparar suas respostas às correspondências recebidas, bem como eventualmente atender pedidos de mercadorias, a partida dos dois correios marítimos foi adiada para o dia 10 de agosto (Gazeta de Lisboa, n. 32, 7 de agosto de 1798 - ver figura 1).

Eles levantariam âncoras, de fato, no dia 11. Nenhum deles, contudo, completaria suas missões. 

O Voador seria capturado nas proximidades da Ilha da Madeira por corsários franceses apenas alguns dias depois de sua partida, no mesmo dia em que se separou de seu companheiro — a coincidência da data pode ser verificada no relato do comandante do Alvacora (AHU-Rio de Janeiro, cx. 171, doc. 25). A sua tripulação  foi levada para o porto de Rochefort. De Angoulême, o seu comandante escreveu para Portugal no dia 21 de setembro, com informações sobre o caso. Em sua carta  que teve um extrato publicado depois na Gazeta de Lisboa  teve o cuidado de esclarecer que, conforme previsto nas normas, "antes de se render, lançou ao mar as malas" (Gazeta de Lisboa, n. 45,  segundo suplemento, 10 de novembro de 1798  ver figura 2). Nela se lê também que o paquete fora tomado por duas fragatas de 44 peças cada uma.

Figura 2 - Notícia sobre a captura do Voador.
Fonte: Gazeta de Lisboa, n. 45,  segundo suplemento, 10 de novembro de 1798.

Alvacora lograria chegar à costa brasileira, mas também caiu nas mãos dos inimigos.  Segundo o relato de seu comandante, os dois paquetes separaram-se na proximidade da Ilha da Madeira, em obediência às instruções recebidas, por terem avistado dois navios suspeitos. Depois de fugir por algumas horas, ao não avistar mais os inimigos, seguiu para seu destino. Todavia, na altura de Cabo Frio, em 23 de outubro de 1798, acabou capturado por outra fragata francesa, depois de também jogar a mala com as cartas no mar. 

O navio corsário, segundo o relato do tenente Carvalho, chamava-se "Grã Buenaparte uma evidente tentativa de tradução do nome original. Tendo em vista os estudos de Maria Verônica Secreto (2016), era a corveta Le Grand Bonaparte, que atuou nas costas do Brasil entre 1798 e 1799, tendo como base o porto de Montevidéu.  

O corsário vinha de Pernambuco, onde atacara outra embarcação e fora perseguido por uma fragata lusa. Com alguns prisioneiros ingleses e portugueses, dirigia-se para Montevidéu em busca de suprimentos quando encontrou o Alvacora. Sua intenção era depois voltar para o corso na costa brasileira (AHU-Rio de Janeiro, cx. 171, doc. 25).

Alguns dias depois, toda a tripulação do paquete foi passada para um navio espanhol que rumava para o Rio de Janeiro. Dali, retornaram para Portugal à bordo da nau D. Maria I. O tenente Antônio Garcia Álvares seguiu como mero passageiro e não como membro da tripulação, pois, ao ser libertado, dera a sua palavra ao comandante francês de que não pegaria em armas "contra a República [francesa] enquanto se não efetuasse a troca de outro oficial" (AHU-Rio de Janeiro, cx. 171, doc. 25). 

Os dois paquetes levavam cartas no valor total de 375$920 réis quando saíram de Portugal (Machado, 2015, p. 233). Podiam transportar também mercadorias, tal como previsto no Alvará de 20 de janeiro de 1798, mas não temos informação sobre os eventuais valores neste caso. O comandante do Alvacora mencionou em seu relato transportar massame e velas para uso em navios de guerra no Rio de Janeiro. Essas, contudo, não eram as principais perdas. Além do valor em si dos navios  que se pode estimar em cerca de dez contos de réis, pelo menos (Salvino, 2023, p. 678, 680), há de se pensar nos prejuízos para o comércio, decorrentes da interferência no bom andamento dos negócios tratados nas cartas cujo fluxo foi interrompido. Pairando acima disso tudo, havia sempre o risco de que informações confidenciais pudessem cair em mãos inimigas.

Esses foram os primeiros ataques aos paquetes portugueses. Outros aconteceriam nos anos seguintes, perpetrados não só por franceses, mas também pelos espanhóis. Mas isso é assunto para outra postagem.

Fontes manuscritas

ARQUIVO HISTÓRICO ULTRAMARINO (AHU). Ofício do [vice-rei do Estado do Brasil, conde de Resende, [D. José Luís de Castro], ao [secretário de estado da Marinha e Ultramar], D. Rodrigo de Sousa Coutinho, sobre ter entrado no porto do Rio de Janeiro uma nau espanhola conduzindo o tenente da Marinha e comandante do paquete marítimo Alvacora, Henrique José de Carvalho que fora apresado pelos franceses, e que este passava à Corte na nau Maria I. AHU-Rio de Janeiro, cx. 171, doc. 25. AHU_ACL_CU_017, Cx. 167, D. 12462.

ARQUIVO NACIONAL DO RIO DE JANEIRO (ANRJ), Rio de Janeiro. Instruções anexas ao Alvará de 20 de janeiro de 1798, 26 fev. 1798, cód. 0.67, v. 23. 

Bibliografia

FRUTUOSO, Eduardo; GUINOTE, Paulo; LOPES, António. O movimento do porto de Lisboa e o comércio luso-brasileiro (1769-1836). Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2001.

GUAPINDAIA, Mayra Calandrini. O controle do fluxo das cartas e as reformas de Correio na América portuguesa (1796-1821). Tese (Doutorado em História) – Universidade de Lisboa, Lisboa, 2019.

MACHADO, Luís Guilherme G. A criação dos correios marítimos entre Portugal e Brasil em 1798. Postais: Revista do Museu Correios, n. 4, p. 226-239, 2015.

SALVINO, Romulo Valle.  Os Correios Marítimos portugueses: logística e alguns resultados financeiros (1798-1803). História Econômica & História de Empresas, v. 26, n. 3, p. 663-693, 2023.

SALVINO, Romulo Valle. Guerras de papel: comunicação escrita, política e comércio na monarquia ultramarina portuguesa. Jundiaí: Paco Editorial, 2020.

SECRETO, Maria Verónica. Territorialidades fluidas: corsários franceses e tráfico negreiro no Rio da Prata (1796-1799). Tensões locais-tensões globais. Topoi, v. 17, n. 33, p. 419-443, 2016. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/topoi/a/vkvzbnTkTs5BcvMRMnbgtbh/?format=html&lang=pt>. Acesso em: 01 dez. 2025.



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Os ataques aos correios marítimos Caçador e Olinda (1801)

Os próximos ataques a paquetes portugueses somente viriam a acontecer em 1801. Naquele ano, foram perdidos o  Caçador  e o Santo Antônio de ...