segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

O ataque do Le Grand Bonaparte ao Postilhão da América (1799)


Maria Verônica Secreto, em seu trabalho sobre o Le Grand Bonaparte, mencionado em nossa postagem anterior, não aborda o ataque ao Alvacora. 

Figura 1 - Maquete do Postilhão da América. Fonte: Acervo do Museu Correios.

Todavia, segundo aquela autora, em 1799, depois de apresar perto de Cabo Frio uma corveta inglesa, a Duff, levada para Montevidéu sob as ordens de um oficial francês, o comandante do Le Grand Bonaparte decidiu

ficar perto do Rio de Janeiro aguardando a oportunidade de realizar nova presa. Nos dias seguintes capturou uma zumaca, (embarcação muito parecida com um bergantim) de bandeira portuguesa, A Nazaré, com carregamento de sal, e O Postilhão da América, um bergantim correio português. Todos ingressaram no porto de Montevidéu e, salvo a Duff, foram vendidos com certa celeridade. A fragata Duff, da London Missionary Society, ficou no porto de Montevidéu depois que os corsários partiram, apesar das ordens para não abandonarem presa no porto (Secreto, 2016, p. 425-426).

Realmente, o Postilhão da América foi o terceiro paquete a sofrer um ataque desse tipo.  A sua partida de Lisboa foi anunciada para o dia 10 de dezembro de 1798, sob comando do 1º Tenente Rufino José Peres Batista, juntamente com o Santo Antônio de Olinda, mas não temos como assegurar se saiu realmente nessa data.[1] Em 8 de fevereiro do ano seguinte chegou à Bahia, de onde partiu cinco dias depois com destino ao Rio de Janeiro.[2] Todavia, como comunicou depois D. Fernando José de Portugal,  governador da Bahia, para o secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, tinham chegado àquela capitania notícias de que o Postilhão fora apresado por um corsário francês na altura de Cabo Frio, “escapando as malas e vias, por ter o comandante a cautela de as mandar para terra em um bote, notícia que foi para mim desagradável, até pela consideração de o ter mandado construir neste porto por ordem de Sua Majestade.”[3]

Figura 2 - Aviso de partida do Postilhão da América.
Fonte: Gazeta de Lisboa, n. 49, 4 de dezembro de 1798, p. 4.

A notícia do ataque foi confirmada pelo vice-rei, Conde de Rezende, que, em 30 de maio de 1799, também escreveu a D. Rodrigo:

No infausto encontro que teve o Correio Marítimo Príncipe Real com um corsário francês que o apresou na altura de Cabo Frio, teve o seu comandante Rufino Peres Batista o acordo de meter em um catraio as malas que lhe foram confiadas; e chegando este felizmente a terra foram conduzidas para esta cidade [do Rio de Janeiro] com a devida segurança.[4]

Note-se que há um equívoco na identificação do paquete, confundido aqui com outro. O Príncipe Real saíra de Lisboa, com destino aos portos setentrionais, dois meses antes do Postilhão da América iniciar a sua viagem.[5] Passara por Salinas, no Pará, em fevereiro e chegara a Lisboa em 8 de abril de 1799, pouco menos de dois meses antes de o Conde de Rezende enviar seu ofício. O comandante mencionado pelo vice-rei, Rufino [José] Peres Batista, como vimos, estava à frente do Postilhão da América e não do Príncipe Real.

Há uma grande lacuna nesse caso. Não há como duvidar do apresamento do Postilhão da América, haja vista os ofícios de D. Fernando Portugal e do Conde de Resende (ainda que esse tenha se equivocado sobre o nome do navio), já mencionados antes por Mayra Guapindaia. O trabalho de Maria Verônica Secreto confirma o episódio com base em outra documentação. Entretanto, como veremos, o paquete continuou a navegar com a bandeira lusa até o início de 1803, tendo realizado mais duas viagens. De alguma forma, foi libertado, mas, no decorrer desta pesquisa, não se conseguiu apurar como isso aconteceu. Esparteiro (1976, p. 50), um historiador que é referência para a história naval portuguesa, menciona apenas o posterior naufrágio do navio, sem dar notícia sobre o ataque corsário que sofreu. Guapindaia (2019, p. 252) limitou-se a dizer, pluralizando o episódio, que: “Alguns paquetes foram efetivamente tomados por corsários, mas conseguiram escapar e seguir seu itinerário. Foi o caso do Postilhão da América, em fevereiro de 1799.” Assim, há espaço aqui para novas pesquisas.


Referências


ESPARTEIRO, António Marques. Catálogo dos Navios Brigantinos (1640-1910). Lisboa, Centro de Estudos da Marinha, 1976. 
GUAPINDAIA, Mayra Calandrini. O Controle do Fluxo das Cartas e as Reformas de Correio na América Portuguesa (1796-1821). Tese de doutorado em História, Lisboa, Universidade de Lisboa, 2019.
SECRETO, Maria Verónica. Territorialidades fluidas: corsários franceses e tráfico negreiro no Rio da Prata (1796-1799). Tensões locais-tensões globais. Topoi, v. 17, n. 33, p. 419-443, 2016. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/topoi/a/vkvzbnTkTs5BcvMRMnbgtbh/?format=html&lang=pt>. Acesso em: 01 dez. 2025.


Notas

[1] Gazeta de Lisboa, n. 49, 4 de dezembro de 1798, p. 4.

[2] AHU, Bahia, Cx. 98, D. 19181.

[3] AHU, Bahia, Cx. 99, D.19365. Esse mesmo episódio é registrado por Mayra Guapindaia (2019, p. 252-253).

[4] AHU, Rio de Janeiro, Cx. 98, D. xxx.

[5] Gazeta de Lisboa, n. 39 (segundo suplemento), 29 de setembro de 1798, p. 4.

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