Em 5 de janeiro de 1815, o governador da Bahia, Conde de Arcos, emitiu a seguinte portaria:
Achando-se estabelecido entre esta cidade e a de Sergipe d’El Rei um correio mensal pela via de terra, em ordem a facilitar-se a correspondência desta capital para aquela cidade e evitar-se os extravios e delongas que ordinariamente acontece [sic] nas cartas oficiais, devendo dali sair o primeiro infalivelmente no dia 15 do corrente como me participou o respectivo governador ordinário ao Administrador [do Correio] desta Cidade, Prudêncio José da Cunha Vale, não remeta as referidas cartas e papéis oficiais para aquela cidade se não pelo correio dela que vier a esta recebendo igualmente as que pelo mesmo lhe forem dirigidas, o que assim se executará enquanto não lhe for mandado o contrário. (MC, CÓDICE, p. 133-134 - grifos meus)
Alguns anos depois, em texto já mencionado em uma postagem anterior, o Semanário Cívico informaria, entre outros equívocos, que o Conde de Arcos teria estabelecido uma ligação quinzenal com Sergipe em 1811 (SEMANÁRIO, 1821). Em seus estudos, Fortunato (2023, p. 267; 333; 356) baseou-se nessa fonte mais tardia. Entretanto, como veremos, o processo não se iniciou naquele ano e levaria algum tempo até que se tentasse o estabelecimento de alguma ligação quinzenal.
Sergipe, em 1815, era subordinado à Bahia, não possuindo governo próprio. A capitania somente se tornaria independente em 1820. A localidade identificada como "Sergipe d'El Rei" no texto acima transcrito era a vila de São Cristóvão, que depois da divisão administrativa seria a sede da nova capitania.
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| Figura 1 - Praça São Francisco - São Cristóvão (SE) Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A3o_Crist%C3%B3v%C3%A3o_(Sergipe) |
Seria de se esperar que, estabelecida a linha postal em questão, ela fosse utilizada também para o transporte de correspondências particulares. Todavia, note-se que, no documento aqui transcrito, as referências são apenas às cartas oficiais, cujos "extravios e delongas" são apontados como razões para que se implantasse o novo sistema, em substituição, provavelmente, ao uso das ligações marítimas e do eventual envio de mensageiros extraordinários. Nesse sentido, o texto da portaria ecoa o daquela que o Conde de Arcos emitira em 24 de maio do ano anterior, depois de ser comunicado pelo governador do Piauí a respeito da criação de uma linha postal entre Oeiras e a Bahia (ver nossa postagem de 30 de dezembro de 2024). Como também naquele caso, não há nesse qualquer orientação para que se comunique à população a existência do novo serviço.
Assim, no âmbito desta pesquisa, embora se deva consignar o estabelecimento desse aparato de comunicação, parece mais prudente, por ora, considerá-lo, em seus anos iniciais, como dedicado apenas ao trâmite de correspondências administrativas, até prova em contrário.
No Códice Bahia do Museu Correios, há o registro de quatro portarias, emitidas entre 31 de março e 4 de dezembro de 1815, referentes ao pagamento de salários aos condutores de Sergipe pela Administração dos Correios, conforme se pode verificar no Quadro 1.
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| Quadro 1 - Pagamentos aos condutores de Sergipe - 1815. Fonte: MC, CÓDICE, p. 135-136; p. 138; . |
Mesmo esparsos, esses dados permitem entrever alguns aspectos do funcionamento da linha postal. Diferentemente de outras, ela era percorrida por um único homem. Em todos os casos, esses condutores estavam na capital entre os dias finais de um mês e o início do outro, a indicar que partiam de São Cristóvão geralmente entre os dias 15 e 20. As datas da amostra distribuem-se em um intervalo de dez dias, a indicar que, embora a ligação mensal fosse mantida, não era muito o rigor com relação ao cumprimento dos prazos
Não sabemos até quando teria funcionado essa estrutura logística, que pode ter sido interrompida nos anos seguintes. De qualquer modo, no final de 1817, como se verá em nossa postagem seguinte, foi criada uma linha postal, disponível, inclusive, para o transporte de cartas particulares, entre Pernambuco e a Bahia. Essa rota deveria cruzar o território sergipano, até chegar a Penedo, na margem norte do Rio São Francisco, já na capitania de Alagoas, que foi desmembrada de Pernambuco na mesma época. Muito provavelmente, o trecho entre a Cidade da Bahia e Penedo foi um alongamento daquele percorrido até São Cristóvão pelos correios em 1815.
Apesar da existência dessa linha postal, em 27 de março de 1821, a Junta Provisional enviou ao administrador dos Correios uma portaria em que comunicava ter criado "um sistema de postas de esta cidade ao Rio de São Francisco, resultando disso uma suma facilidade e presteza no transporte das cartas" (MC, CÓDICE, p. 155). Por isso,
não querendo este governo privar ao público de uma semelhante comodidade ordena que Vossa Mercê receba as cartas dos particulares para as remeter por via das postas estabelecidas aos seus diferentes destinos, regulando-se enquanto ao preço pela tarifa da Balança, como se observa com os Correios Marítimos (MC, CÓDICE, p. 155)
A utilização das tarifas do Correio Marítimo em uma rota terrestre era uma novidade. Elas tinham sido fixadas desde 1798 e eram substancialmente menores que as praticadas nos correios interiores. O valor cobrado no caso das cartas de primeiro porte era de apenas 80 réis, provavelmente insuficiente para cobrir os custos da operação terrestre .
Contudo, a ordem em questão deve ter sido apenas fruto de uma confusão administrativa. A Junta Provisional assumira o poder em 10 de fevereiro de 1821, pouco mais de um mês antes de emitir a portaria de criação do novo correio para o Rio de São Francisco. Desse modo, talvez os signatários do documento não tivessem clareza sobre o funcionamento do sistema postal até então. Sergipe fora desmembrada da Bahia em 8 de julho de 1820, mas o seu primeiro governador somente seria designado também em fevereiro de 1821. A ideia de criar a linha postal talvez estivesse, desse modo, ligada à reorganização administrativa e territorial deflagrada pela criação da nova unidade administrativa.
Qualquer que tenha sido a razão, em 3 de agosto de 1821, menos de cinco meses depois da ordem anterior, a mesma Junta Provisional da Bahia mandou "abolir o estabelecimento das postas desta cidade até a margem do Sul do Rio de São Francisco, ficando este substituído pelo Correio de Sergipe na forma de costume" (MC, CÓDICE, p. 165 – grifos meus). Ou seja, provavelmente, a Junta se deu conta de ter criado uma uma estrutura redundante.
Naquele momento, o provável limite setentrional da rota que atravessava Sergipe era a Vila Nova del Rei ou Vila Nova de Santo Antônio do Rio de São Francisco, no atual município de Neópolis, de onde se fazia a travessia fluvial até Penedo.
Com essas informações e hipóteses, propusemos uma representação provisória para o itinerário em questão que pode ser vista no mapa da Figura 2.
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| Figura 2 - Correios entre a Bahia e o Rio São Francisco - 1821. Fonte: Elaborado pelo autor com o software QuantumGis. |
Fonte primária manuscrita
Museu Correios – MC, Códice Bahia, 1798-1829.
Fonte primária impressa
SEMANÁRIO Cívico, n. 17, 21 de junho de 1821.
Bibliografia
FORTUNATO, Thomáz. Topologias do tempo: a formação da rede dos correios no Brasil (1796-1829). Dissertação (Mestrado em História Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2023.
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