Como vimos na postagem de 4 de dezembro de 2024 (“Os correios indígenas do Ceará”), Pernambuco foi conectado ao Ceará por uma linha postal, em 1812, graças aos esforços de Manuel Inácio de Sampaio, governador daquela capitania mais ao norte. Vimos também, em algumas das postagens seguintes que, ao longo da década, essa conexão foi estendida até à vila de Parnaíba, no Piauí, e às cidades de São Luís, no Maranhão, que também se ligava a Belém por outra linha.
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| Figura 1 - Vista da cidade de Recife tomada do Forte do Brum. litograv., color. Acervo Digital Afro-Brasileiro. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Forte_de_S%C3%A3o_Jo%C3%A3o_Batista_do_Brum |
Aqui, abordaremos outra rede, que começou a ser articulada entre Pernambuco e a Bahia no final de 1817 e entrou em funcionamento em Recife em 11 de dezembro daquele ano (APEJE, BR PEAPEJE APDM1-GP1-20, fl. 17).
Pouco antes, como vimos, o Conde de Vila Flor adotara medidas semelhantes entre o Pará e o Maranhão, o que poderia fazer crer que ambas as iniciativas fizessem parte de um movimento mais amplo. Todavia, no caso aqui analisado, os sinais são de que o empreendimento foi principalmente pernambucano. Lembre-se, nesse aspecto, que pouco antes, em maio, fora debelada a insurreição naquela capitania. A aproximação com a Bahia significava, ainda que de maneira indireta, aproximar também Pernambuco do Rio de Janeiro, posto que o porto daquela cidade, além de contar com uma quantidade maior de ligações marítimas comerciais com a sede do governo português, dispunha de um sistema de paquetes mensais para a Corte.
A fontes mais antiga até agora encontrada encontrada sobre o assunto é uma portaria do Conde dos Arcos, datada de 28 de novembro de 1817, em que o governador da Bahia discriminava para o Administrador dos Correios daquela capitania as condições de operacionalização do novo serviço, com frequência mensal (MC, CÓDICE, fl. 144-146).
O Arquivo Público Estadual João Emerenciano, de Pernambuco, por sua vez, tem diversos documentos que mostram os desdobramentos regionais do projeto, a serem analisados com mais vagar na próxima postagem. Destaca-se, entre eles, o "Projeto de reforma do correio terrestre de Pernambuco para a Bahia", apresentado em maio de 1818 por Manuel Gregório da Silva, administrador interino dos Correios de Pernambuco, para o governador Luís do Rego Barreto. O documento em questão anexava outros papéis, entre os quais algumas reflexões do "Coronel Diretor do Correio terrestre no Penedo", assinada pelo comandante dos destacamentos militares daquela vila e de Poxim, Francisco Manuel Martins Ramos, com data de 4 de abril de 1818.
As fontes disponíveis permitem recuperar o itinerário dos correios, conforme está resumido no Quadro 1. Os documentos utilizados não trazem o detalhamento do trecho baiano, mas provavelmente o caminho utilizado correspondia, em parte, àquele percorrido em 1815 pelos condutores das cartas entre a Bahia e Sergipe. Note-se, por outro lado, a já esperada discrepância entre as distâncias calculadas atualmente e aquelas previstas na época, não só devido à modificação dos caminhos, mas à imprecisão dos métodos de medida então disponíveis.
O itinerário encontra-se representado também, de forma preliminar, no mapa da Figura 2, ainda a ser aperfeiçoado. Ele inclui a vila de São Cristóvão, na capitania de Sergipe que, apesar de não constar dos documentos pesquisados como parte dessa linha postal, provavelmente era ponto de troca dos condutores, como vimos em nossa postagem anterior.
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| Figura 2 - Itinerários dos correios entre Recife e a Cidade da Bahia - 1818 |
A rota atravessava o litoral de Alagoas, capitania que fora desmembrada de Pernambuco pelo alvará de 16 de setembro de 1817, na esteira da revolta ocorrida no primeiro semestre do ano. Todavia, o primeiro governador da nova unidade administrativa, Sebastião Francisco de Melo Povoas, somente tomaria posse em janeiro de 1819 (BRANDÃO, 1909, p. 42-45). Nesse meio tempo, a gestão continuou, na prática, nas mãos do governador de Pernambuco. Durante a constituição do novo sistema de comunicação, a vila de Alagoas, sede da comarca e da futura nova capitania, foi deixada de lado, por estar fora da rota principal destinada a ligar Recife com a Bahia.
Pelo que se verifica, eram utilizados condutores indígenas, a molde do que fora implantado por Sampaio no sistema cearense. Segundo o coronel Francisco Manuel Martins Ramos, as despesas anuais previstas com a manutenção dessa estrutura de encaminhamento, assumidas integralmente por Pernambuco, correspondiam a 608$000, divididas em partes iguais pelos trechos entre Recife e Penedo e Penedo e Bahia (APEJE, BR PEAPEJE APDM1-GP1-20, fl. 10; 10v.).
Os documentos dão conta, até meados de 1818, das dificuldades de se cumprirem os prazos de entrega das cartas fixados no projeto, bem como de rentabilização do negócio, o que levou às propostas de revisão anteriormente comentadas, a serem analisadas na próxima postagem.
Com relação às receitas auferidas, a documentação pernambucana traz dois balanços, referentes, respectivamente, à Agência de Penedo (Quadro 2) e ao movimento geral da linha entre Pernambuco e Bahia, nos dois casos entre dezembro de 1817 e março de 1818 (Quadro 3).
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| Quadro 2 - Balanço da Agência de Penedo - dezembro de 1817 a março de 1818. Fonte: APEJE, BR PEAPEJE APDM1-GP1-20, f. 13. |
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As rubricas foram diretamente transcritas dos originais. Na época, o previsto era o pagamento das tarifas ficar sob responsabilidade dos destinatários. "Cartas franqueadas" eram aquelas pagas na origem, por decisão dos remetentes, seja para serem encaminhadas pelas linhas postais oficiais, seja para serem transportadas pelos correios privados (os chamados próprios). "Cartas em ser" eram aquelas ainda não entregues, as quais, segundo as instruções anexas ao Alvará de 20 de janeiro de 1798, deveriam ser guardadas até o final do ano seguinte, findo o qual, se não procuradas, eram queimadas, mediante a lavratura de um termo.
Embora o Balanço Geral, elaborado em maio de 1818, finalize com uma declaração esperançosa de recuperação financeira do sistema no trimestre de sua elaboração (o segundo daquele ano), os dados compilados até então mostram um desempenho muito ruim. A receita efetivamente auferida com o negócio postal, descontadas as contribuições de terceiros (Câmara de Penedo e Correio Marítimo) foi de apenas 134$085 réis, equivalente a apenas 420 cartas de primeiro porte, em cerca de três meses de operação. Ainda assim, como alerta o comentário ao pé do balanço, era um resultado que computava como crédito os 24$360 réis das "cartas em ser" (18,17% da receita total), um valor que certamente não seria recebido integralmente.
Essa dificuldade de sustentação financeira do empreendimento estava ligada à escassez de tráfego, pelo menos nos primeiros tempos. Segundo o coronel Francisco Manuel Martins Ramos, ao referir-se às condições de operação observadas até abril de 1818, "acho pesado vir um correio sem carta alguma do Recife, e voltar da mesma forma, tendo de dar-se-lhes 32$000 réis infalivelmente do Recife à Bahia" (APEJE, BR PEAPEJE APDM1-GP1-20, f. 11v.)
Fontes primárias manuscritas
Arquivo Público Estadual João Emerenciano – APEJE, Ofícios da Administração dos Correios a Governador da Capitania, BR PEAPEJE APDM1-GP1-20.
Museu Correios – MC, Códice Bahia, 1798-1829.
Referências
BRANDÃO, Moreno. História de Alagoas. Penedo: J. Amorim, 1909.





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