Um correio para todos... desde que possam pagar, é óbvio
Na passagem entre as Idades Média e Moderna, grandes sistemas de correios começaram a se estender pela Europa para atender às necessidades de monarquias interessadas em reforçar o controle sobre seus domínios. Assim é que, na França, em 1477, Luís XI criou um sistema postal que chegaria a contar com 230 cavaleiros. Do outro lado do Canal da Mancha, Eduardo IV também montou um serviço semelhante, mais ou menos na mesma época, o qual, depois de uma interrupção, seria retomado mais tarde por Henrique VIII.
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| Cartão Postal de 1945. Fonte: Carte Louis XI Créateur de Poste du roi relais VILLERSCOLLECTIONS (villers-collections.fr) |
Essas estruturas, contudo, tal como as suas similares da Antiguidade e do Oriente, destinavam-se ao uso exclusivo ou preferencial do monarca ou dos órgãos que compunham a estrutura administrativa das Coroas. Se chegavam a transportar cartas de outras pessoas, era de forma ilegal ou por especial consentimento do soberano ou de gestores locais, sem cobrança de tarifa. Não existiam ainda serviços destinados a atender, de forma mais ampla, as necessidades dos povos.
A
situação começaria a mudar, lentamente, no final do século XVI, quando os
serviços postais comandados pela família dos Tassis – descendentes daquele Omedeo ou Amadeo
Tasso que, séculos antes, colocara os bergamaschi entre Roma e Milão - se
estenderam pelos domínios dos Habsburgos. O primeiro a colocar-se ao serviço da
Casa austríaca foi um certo Ruggiero, ainda no período de Frederico III.
Enquanto franceses e ingleses copiavam os italianos, os Habsburgos passaram a
contar com alguns dos maiores especialistas vindos da península e, na medida
que estendiam seu poder pela Europa, as “novas” técnicas de comunicação para
diferentes foram levadas para várias regiões.
Em
1494, Bianca Maria Sforza casou-se com o imperador Maximiliano I dos
Habsburgos. Logo em seguida, Gian Galeazzo Sforza, duque de Milão, criou, sob
responsabilidade de Iannetto de Tassis, sobrinho de Ruggiero, um serviço de
mensageiros entre Milão e Innsbruck, cidade do Tirol que funcionou como a
capital do Sacro Império durante o governo. de Maximiliano I. Francesco (Franz
ou Francisco) e Ruggiero (Roger) – irmãos de Ianetto – também passaram a servir
os Habsburgos, operando nas Flandres e em Innsbruck.
Entre
os três, o que mais se destacou foi Francisco (1459-1517), responsável pela
criação de linhas postais entre Bruxelas e a fronteira francesa e que seria
considerado o primeiro correo mayor da Espanha e hauptpostmeister
do Sacro-Império. Ainda hoje é celebrado como fundador dos correios da Espanha
e da Alemanha, tendo sido vezes homenageado em selos postais emitidos em ambos
os países.
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| Franz von Taxis ou Francisco de Tassis. Selo alemão de 1967. |
Em 1516, um neto de Maximiliano, assumiu o reino de Castela, com o nome de Carlos I, pouco antes de tornar-se também imperador do Sacro-Império, com o título de Carlos V. Assim, a rede operacional dos Tassis foi também se ampliando. Estendia-se desde o Mar do Norte até a Andaluzia, de Nápoles a Praga, espraiava-se pela Borgonha, o Franco-Condado, a Lorena, os Países Baixos, o Império Germânico, o Norte da Itália e Nápoles.
Foi
nesse momento que surgiu a grande novidade. Os contratos firmados entre os Habsburgos
e os Tassis (que passariam a ser conhecidos como Taxis nas regiões de língua
alemã) tornaram-se modelos para boa parte dos sistemas postais modernos, ao definir
direitos e responsabilidades dos seus operadores. Em 1516, logo que assumiu o trono de Castela,
Carlos I autorizou uso dos correios, mediante pagamento de tarifas, para toda a
população – pro communi hominum et reipublicae utilitar, conforme
expressão do jurista Jacopo Menocchio (1532-1607).
As
consequências desse ato superaram as fronteiras do reino espanhol. Essa foi
talvez a maior inovação entre as que contribuíram para configurar os sistemas
postais modernos, a marcar uma profunda diferença em relação aos seus
antecessores, fossem os correios da Antiguidade e do Oriente, fossem mesmo as
postas milanesas dos Visconti e Sforza, que lhes serviram de modelo
operacional.
Em
1520, foi criado o correio-mor de Portugal, inspirado de forma explícita no sistema
dos Tassis. Desde o início, prestava serviços ao soberano e a todos aqueles que
pudessem pagá-lo, sendo um dos pioneiros nesse sentido.
Em Milão, o serviço somente seria aberto ao uso público em 1545, mas ainda de modo parcial. Quando o marquês de Vasto, governador do ducado, publicou instruções nesse sentido, a utilização dos correios por particulares não era automática, mas dependia de autorização específica.
Na França, foi Henrique IV o responsável pela liberação do uso das postas pela população, em 1603. Naquele país e em outros, elas também alugavam cavalos e, por isso, D’Artagnan e os três mosqueteiros puderam correr por elas na década de 1620 até o Canal da Mancha no célebre romance de Alexandre Dumas, sempre perseguidos pelos guardas do Cardeal de Richelieu.
Na Inglaterra, uma proclamação de
Carlos I, datada de 31 de julho de 1635, marcou o reconhecimento pela Coroa do caráter
essencialmente público do serviço postal, de modo que o transporte de mensagens
privadas e comerciais deixou de ser visto ali como um privilégio, para se
transformar em um direito.
Para saber mais
BEHRINGER, Wolfgang. Communications Revolutions: a Historiographical Concept, German History, v. 24, n. 3, p. 333-374, 2006. Disponível em: https://bit.ly/2QFbKJj. Acesso em: 30 maio 2023.
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HEMMEON, Joseph Clarence. The History of the Britsh
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SALVINO, Romulo
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VAILLÉ, Eugène. Histoire des Postes françaises jusqu’en 1939.
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