terça-feira, 30 de maio de 2023

Um correio para todos... desde que possam pagar, é óbvio


Na passagem entre as Idades Média e Moderna, grandes sistemas de correios começaram a se estender pela Europa para atender às necessidades de monarquias interessadas em reforçar o controle sobre seus domínios. Assim é que, na França, em 1477, Luís XI criou um sistema postal que chegaria a contar com 230 cavaleiros. Do outro lado do Canal da Mancha, Eduardo IV também montou um serviço semelhante, mais ou menos na mesma época, o qual, depois de uma interrupção, seria retomado mais tarde por Henrique VIII.


Essas estruturas, contudo, tal como as suas similares da Antiguidade e do Oriente, destinavam-se ao uso exclusivo ou preferencial do monarca ou dos órgãos que compunham a estrutura administrativa das Coroas. Se chegavam a transportar cartas de outras pessoas, era de forma ilegal ou por especial consentimento do soberano ou de gestores locais, sem cobrança de tarifa. Não existiam ainda serviços destinados a atender, de forma mais ampla, as necessidades dos povos.

A situação começaria a mudar, lentamente, no final do século XVI, quando os serviços postais comandados pela família dos Tassis – descendentes daquele Omedeo ou Amadeo Tasso que, séculos antes, colocara os bergamaschi entre Roma e Milão - se estenderam pelos domínios dos Habsburgos. O primeiro a colocar-se ao serviço da Casa austríaca foi um certo Ruggiero, ainda no período de Frederico III. Enquanto franceses e ingleses copiavam os italianos, os Habsburgos passaram a contar com alguns dos maiores especialistas vindos da península e, na medida que estendiam seu poder pela Europa, as “novas” técnicas de comunicação para diferentes foram levadas para várias regiões.

Em 1494, Bianca Maria Sforza casou-se com o imperador Maximiliano I dos Habsburgos. Logo em seguida, Gian Galeazzo Sforza, duque de Milão, criou, sob responsabilidade de Iannetto de Tassis, sobrinho de Ruggiero, um serviço de mensageiros entre Milão e Innsbruck, cidade do Tirol que funcionou como a capital do Sacro Império durante o governo. de Maximiliano I. Francesco (Franz ou Francisco) e Ruggiero (Roger) – irmãos de Ianetto – também passaram a servir os Habsburgos, operando nas Flandres e em Innsbruck.

Entre os três, o que mais se destacou foi Francisco (1459-1517), responsável pela criação de linhas postais entre Bruxelas e a fronteira francesa e que seria considerado o primeiro correo mayor da Espanha e hauptpostmeister do Sacro-Império. Ainda hoje é celebrado como fundador dos correios da Espanha e da Alemanha, tendo sido vezes homenageado em selos postais emitidos em ambos os países.

Franz von Taxis ou Francisco de Tassis. Selo alemão de 1967.


Em 1516, um neto de Maximiliano, assumiu o reino de Castela, com o nome de Carlos I, pouco antes de tornar-se também imperador do Sacro-Império, com o título de Carlos V. Assim, a rede operacional dos Tassis foi também se ampliando. Estendia-se desde o Mar do Norte até a Andaluzia, de Nápoles a Praga, espraiava-se pela Borgonha, o Franco-Condado, a Lorena, os Países Baixos, o Império Germânico, o Norte da Itália e Nápoles.

Foi nesse momento que surgiu a grande novidade. Os contratos firmados entre os Habsburgos e os Tassis (que passariam a ser conhecidos como Taxis nas regiões de língua alemã) tornaram-se modelos para boa parte dos sistemas postais modernos, ao definir direitos e responsabilidades dos seus operadores.  Em 1516, logo que assumiu o trono de Castela, Carlos I autorizou uso dos correios, mediante pagamento de tarifas, para toda a população – pro communi hominum et reipublicae utilitar, conforme expressão do jurista Jacopo Menocchio (1532-1607).

As consequências desse ato superaram as fronteiras do reino espanhol. Essa foi talvez a maior inovação entre as que contribuíram para configurar os sistemas postais modernos, a marcar uma profunda diferença em relação aos seus antecessores, fossem os correios da Antiguidade e do Oriente, fossem mesmo as postas milanesas dos Visconti e Sforza, que lhes serviram de modelo operacional.

Em 1520, foi criado o correio-mor de Portugal, inspirado de forma explícita no sistema dos Tassis. Desde o início, prestava serviços ao soberano e a todos aqueles que pudessem pagá-lo, sendo um dos pioneiros nesse sentido.

Em Milão, o serviço somente seria aberto ao uso público em 1545, mas ainda de modo parcial. Quando o marquês de Vasto, governador do ducado, publicou instruções nesse sentido, a utilização dos correios por particulares não era automática, mas dependia de autorização específica. 

Na França, foi Henrique IV o responsável pela liberação do uso das postas pela população, em 1603. Naquele país e em outros, elas também alugavam cavalos e, por isso, D’Artagnan e os três mosqueteiros puderam correr por elas na década de 1620 até o Canal da Mancha no célebre romance de Alexandre Dumas, sempre perseguidos pelos guardas do Cardeal de Richelieu. 

Na Inglaterra, uma proclamação de Carlos I, datada de 31 de julho de 1635, marcou o reconhecimento pela Coroa do caráter essencialmente público do serviço postal, de modo que o transporte de mensagens privadas e comerciais deixou de ser visto ali como um privilégio, para se transformar em um direito.


Para saber mais


BEHRINGER, Wolfgang. Communications Revolutions: a Historiographical Concept, German History, v. 24, n. 3, p. 333-374, 2006. Disponível em: https://bit.ly/2QFbKJj. Acesso em: 30 maio 2023.

BUTI, Antonio Bandini. Storia dela posta e del francobollo. 2. ed. Milano: Ulrico Hoepli, 1946.

CAIZZI, Bruno. Dalla posta dei re alla posta di tutti: territorio e comunicazioni in Italia dal XVI secolo all’Unità. Milano: Franco Angeli, 1993.

CAPLAN, Jay. Postal culture in Europe – 1500-1800. Oxford: Oxford University; Voltaire Foundation, 2015

HEMMEON, Joseph Clarence. The History of the Britsh Post Office. Cambridge: Harvard University, 1912.

MAYO, Leoncio. ¡Taxi, taxi…! (historia de una familia). Madrid: Real Academia Hispánica de Filatelia, 2007.

SALIERNO, Vito. Le poste a Milano nei secoli XV, XVI e XVII. Milano: La Mar[1]tinella di Milano, 1972.

SALVINO, Romulo Valle. Guerras de papel: comunicação escrita, política e comércio na monarquia ultramarina portuguesa. Jundiaí: Paco Editoral, 2020.

VAILLÉ, Eugène. Histoire des Postes françaises jusqu’en 1939. Bruxelles: P.I.E. Peter Lang, 2015.


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