terça-feira, 30 de maio de 2023

Os correios ordinários e a criação de um novo espaço-tempo

O sistema de postas e a possibilidade de uso do serviço por toda a população foram dois grandes pilares dos correios modernos. O primeiro garantiu um melhor domínio do espaço e do tempo, permitindo que a trocas de mensagens ficassem mais velozes. O segundo fez com que se ampliasse a quantidade de cartas trocadas, ampliando as parcelas da população que poderiam se comunicar. Comerciantes, letrados, pensadores, artistas, amantes ganharam um novo meio para conversarem à distância. Em contrapartida, as monarquias ganharam “sócios” que ajudavam a pagar as caras estruturas operacionais, e os custos dos envios caíram.

O Pequeno Correio, de Albrecht Dürer  (1471-1528)

Houve, todavia, outra grande inovação, que se tornou mais um sustentáculo do novo serviço. 

Até determinado momento, quando alguém queria enviar uma carta, um mensageiro tinha que partir especialmente para isso, mesmo usando as postas. Quando muito, alguns interessados podiam juntar as suas remessas para uma dada direção, de modo a compartilhar os custos.

Todavia, ao longo do século XVI – novamente na Itália – ganharam força os chamados correios ordinários: em dias certos, com frequências claramente estabelecidas, mensageiros partiam para uma determinada direção. Muito rapidamente a ideia se espalhou por outros lugares.

Se antes os correios permitiam saber claramente quantos dias uma correspondência levaria para chegar de um lugar para outro, agora era possível saber também quando poderiam ser mandadas as cartas para um determinado destino, em uma outra forma de regramento do espaço-tempo. Com isso, as pessoas podiam programar suas remessas. Os condutores saíam de cada local carregando mais correspondências, e isso gerava um ganho de escala. As tarifas poderiam ser ainda mais barateadas, enquanto os operadores postais aumentavam seus ganhos. Os correios tiveram reforçado o seu papel de instrumento de circulação de ideias e de notícias, fornecendo a base para que livros e os primeiros periódicos pudessem chegar a lugares longínquos.

Entre uma partida e outra dos correios ordinários, se alguém tinha pressa e podia pagar por isso, mandava um mensageiro expresso.

Foi uma revolução, quase inimaginável nestes nosso mundo de mensagens instantâneas.

Em meados do século XVII, enquanto estava em Roma, o grande escrevedor de cartas que foi o Padre Antônio Vieira sabia exatamente quais os dias em que os correios partiam para Paris e Lisboa, onde estavam alguns de seus principais correspondentes. Sabia que toda semana podia enviar uma mensagem para a capital da França e que, do mesmo modo, toda semana devia chegar uma nova carta de lá. Pautava assim o seu próprio tempo por essa cadência de comunicação e angustiava-se quando havia atrasos.

O padre vivia em um mundo impensável um século antes. Agora o tempo parecia mais acelerado e uma nova relação se estabelecia com o espaço.

Padre Antônio Vieira. Óleo sobre tela, 1680 x 1280 mm. Casa Cadaval, Muge, Portugal. Fonte: Padre António Vieira - António Vieira – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)


Para saber mais


BEHRINGER, Wolfgang. Communications Revolutions: a Historiographical Concept, German History, v. 24, n. 3, p. 333-374, 2006. Disponível em: https://bit.ly/2QFbKJj. Acesso em: 30 maio 2023.

CAIZZI, Bruno. Dalla posta dei re alla posta di tutti: territorio e comunicazioni in Italia dal XVI secolo all’Unità. Milano: Franco Angeli, 1993.

CAPLAN, Jay. Postal culture in Europe – 1500-1800. Oxford: Oxford University; Voltaire Foundation, 2015

SALVINO, Romulo Valle. Guerras de papel: comunicação escrita, política e comércio na monarquia ultramarina portuguesa. Jundiaí: Paco Editoral, 2020.

VIEIRA, Antônio. Obra completa: tomo I epistolografia, volume III: Cartas de Roma. São Paulo: Edições Loyola, 2014.

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