Os correios e as postas
Desde a Antiguidade, grandes monarquias criaram serviços de correios como instrumentos de governo à distância. Entre eles, talvez o cursus publicus romano seja o mais conhecido e realmente impressiona até hoje a extensão de suas linhas, espalhadas por partes da Europa e Ásia e pelo extremo norte da África. Houve outros, porém, mais antigos, na China e no Egito, apenas para lembrarmos alguns.
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| Mensageiro Medieval. Fonte: Medieval Occupations and Jobs: Messenger. History and Activities (medievalbritain.com) |
Durante
a Idade Média, ficou famoso o serviço postal dos tártaros, descrito por Marco
Polo em Il Milione, livro de viagens que tanto incendiou as imaginações europeias
até o início da Idade Moderna. Entre outros possíveis exemplos desses sistemas
mais tardios, a partir do século XIII, o sultanato mameluco implantou também o
seu próprio serviço postal no Oriente Médio, uma estrutura que continuava em
funcionamento mais de duzentos anos depois.
Na
Europa, depois do fim do império romano, desconhecemos a existência de estruturas
semelhantes até o final do século XII, quando linhas postais e corporações de
mensageiros apareceram na península itálica e nas terras da futura Espanha.
Na Catalunha, por volta de 1166, um certo Pedro de Marennes criou uma
corporação de mensageiros (ou trotters) para atender, sob contrato, os
comerciantes. Na Itália, na década de 1290, a figura lendária de Omedeo Tasso
estendeu um circuito de correios entre Milão e Roma, passando por Veneza. Seus
mensageiros eram chamados de bergamaschi, em alusão à Bérgamo, região de
origem de Omedeo. Em Aragão, o rei D.
Pedro, o Cerimonioso, entre 1336 e 1387, chegou a contar com o serviço de 80 mensageiros.
Ao
que parece, contudo, foi a partir da Itália que o principal fundamento operacional
dos sistemas de correios espalhou-se pela Europa: o sistema de postas. Inspirado
provavelmente em estruturas semelhantes que mercadores conheceram no Oriente, o
sistema foi aperfeiçoado em solo italiano e tornou-se tão importante que passou
a designar o próprio serviço em boa parte das línguas europeias. Tanto é que,
neste mesmo texto, desde o início falamos em “sistema postal” e “serviço postal”
como sinônimos de “serviço de correios”, mesmo quando esses não contavam com postas propriamente ditas.
Foi o
duque de Milão Gian Galeazzo Visconti (1378-1402) – o modelo do Príncipe de
Maquiavel – quem introduziu as primeiras estações de postas em seus domínios. O
sistema, entretanto, ganhou perenidade e a sua forma dominante apenas no
século XV, no governo de Filippo Maria Visconti (1412-1447).
A
palavra “posta” deriva do latim posita statio, referente às estações ou
locais fixos de parada dos mensageiros presentes no cursus publicus.
Originalmente, eram apenas pousadas, onde homens e animais podiam alimentar-se,
descansar e passar a noite. À medida que os sistemas ficaram mais sofisticados,
passaram a servir como pontos de trocas dos cavalos, de modo que os mensageiros
tivessem sempre à sua disposição um animal descansado, capaz de correr a toda
velocidade até a estação seguinte. Os tempos de percurso, assim, eram reduzidos
ao máximo permitido pela tecnologia de transporte mais rápida da época.
A partir
de certo momento, as postas passaram a exercer também a função de pontos de
controle sobre os próprios homens, com a anotação dos horários em que eles ali
passavam. Desse modo, elas transformaram-se em uma autêntica tecnologia de domínio
espaço-temporal, visto que os itinerários não eram apenas segmentados, mas ordenados
temporalmente.
As
distâncias entre as postas variavam de lugar para lugar. Na França, a distância
mais comum, durante muito tempo, foi de sete léguas, podendo cair para duas naqueles
trechos em que se queria obter mais velocidade.
Por
isso, no século XVII, os calçados mágicos tomados do Ogro pelo Pequeno Polegar no
conto de Perrault ficaram conhecidos como .... as “botas de sete léguas”. Elas eram capazes de fazê-lo vencer grandes
distâncias com um único passo e lhe permitiram servir como mensageiro, tanto para
o rei, interessado nas movimentações dos campos de batalha, quanto para as
damas, desejosas de notícias de seus amantes, em uma notável representação literária
de algumas possibilidades oferecidas pelos correios modernos.
| O Pequeno Polegar tira as botas do Ogro. Gravura de Gustave Doré (1867). |
Para saber mais:
GAZAGNADOU, Didier. La poste à relais en Eurasie: la diffusion d´une
techinique d´information et de pouvoir – Chine – Iran – Syrie – Italie. Paris:
Éditions Kimé, 2013.
MARTÍNEZ BAEZA,
Sergio. El Correo Mayor de las Indias y el ducado de San Carlos. 2. ed.
Santiago del Chile: Academia Chilena de la Historia, 2014.
PERRAULT, Charles. Contos
de Perrault. Belo Horizonte: Itatiaia, 1985.
SALIERNO, Vito. Le poste a Milano nei secoli XV, XVI e XVII. Milano:
La Martinella di Milano, 1972.
SALVINO, Romulo
Valle. Guerras de papel: comunicação escrita, política e comércio na
monarquia ultramarina portuguesa. Jundiaí: Paco Editoral, 2020.
VAILLÉ, Eugène. Histoire
des Postes françaises jusqu’en 1939. Bruxelles: P.I.E. Peter Lang,
2015.

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