sábado, 24 de junho de 2023

O Correio-Mor do Reino

A monarquia portuguesa foi uma das primeiras na Europa a implantar um serviço postal potencialmente disponível para todo o povo, quando, em 1520, D. Manuel concedeu o título de correio-mor do Reino a um certo Luís Homem, cavaleiro da Casa Real que já lhe prestara várias vezes serviço como espião e mensageiro, inclusive fora de Portugal.

Correio a pé. Século XVI. Fonte: Fundação Portuguesa das Comunicações. Disponível em : Correio a pé do séc. XVI | Fundação Portuguesa das Comunicações | Flickr


De acordo com o alvará régio, Luís Homem teria o monopólio de todas as postagens realizadas em um raio de cinco léguas (cerca de trinta quilômetros) em torno de Lisboa. Nesse perímetro, todos poderiam mandar livremente as suas cartas por meio de “pessoas que não fossem correios”, isto é, que não exercessem a atividade mediante remuneração. Todavia, não poderiam acertar os envios diretamente com mensageiros profissionais, sob pena de uma pesada multa de cem cruzados (40.000 réis). Nesse último caso, as remessas deviam acontecer por “mão do dito Luís Homem”, que ficaria com 10% dos valores acertados em cada caso, isto é, atuaria como intermediário nesses negócios.

Em contrapartida, o novo correio-mor deveria garantir o funcionamento dos serviços e supervisioná-los. Era de sua responsabilidade, inclusive, apontar os locais onde as postas seriam instaladas, cabendo ao rei a nomeação dos responsáveis por elas, os quais passariam a ser chamados de “mestres de postas” no final do século.

Outro alvará, em 1525, garantiu também o monopólio do correio-mor nas entregas realizadas na zona sob sua jurisdição, inclusive no caso das cartas vindas do exterior de Portugal, o que impunha limites às incursões de correios estrangeiros. Como uma forma de incentivo à atividade, o mesmo documento consolidou e ampliou os benefícios dos mensageiros e operadores das postas, com a dispensa de encargos devidos às municipalidades e o privilégio de trazer espada e punhal e de portar o escudo de armas do rei.

Na prática, nas décadas seguintes, mensageiros e mestres de postas passaram a ser funcionários dos correios-mores ou de assistentes dele nomeados em outras localidades. Nesse período, embora os serviços postais cobrissem diversas regiões, o sistema de postas foi implantado apenas entre Lisboa e a fronteira com a Espanha.

Em 1580, quando a Coroa de Portugal passou às mãos dos soberanos espanhóis, o cargo de correio-mor do Reino já vinha sendo transmitido há duas gerações de sogro para genro, graças a “alvarás de lembrança” que o garantiam como dote para as filhas de seus ocupantes. O “alvará de lembrança” era um tipo de documento por meio do qual o rei prometia um determinado benefício, a ser concedido posteriormente. Dessa forma, de um modo peculiar, ensaiava-se a hereditariedade do ofício.

Com a união das coroas ibéricas, o correo mayor espanhol, D. Juan de Tassis, chegou a se apossar do serviço postal português por cerca de três anos, mas a tentativa foi interrompida graças a uma sentença judicial que reconheceu os direitos de Manuel Gouveia, detentor do cargo até aquele momento. Depois disso, até o início do século XVII, não foi nomeado novo titular para o ofício, que passou a ser exercido por interinos, enquanto Cristóvão de Sousa Coutinho, genro de Gouveia, pleiteava ocupá-lo.

Provavelmente, foi depois da União Ibérica que se instituiu o serviço postal regular (periódico) em Portugal, bem como surgiram também alguns correios-mores regionais, em Porto, Coimbra, Braga e Aveiro. A nomenclatura desses cargos, em um indício da fluidez das estruturas então vigentes e de conflitos de jurisdição, oscilava bastante: “lugar-tenente do correio-mor”, “assistente do correio-mor” ou mesmo “correio-mor do lugar X”.

Em 19 de julho de 1606, o cargo de correio-mor do Reino foi vendido pela Coroa a um homem de negócios português de origem espanhola, Luís Gomes da Mata, em caráter hereditário e irrevogável. O preço estipulado foi 70 mil cruzados (16 contos de réis). O monopólio do serviço foi afirmado de maneira mais férrea do que até então, com a proibição de que qualquer um que não fosse autorizado pelos Matas transportasse correspondências. Consolidou-se também a subordinação dos correios regionais ao titular de Lisboa, que podia nomear livremente mensageiros e mestres de posta.

Em 1640, quando da Guerra de Restauração, os Matas aderiram na primeira hora à Casa de Bragança. Apesar de alguns questionamentos com relação à venda do correio-mor, que perduraram até aquele momento, o fato é que o ofício passara a ser legalmente propriedade plena da família Mata e como tal, por quase dois séculos, foi assim respeitado. Somente no final do século XIX, durante as reformas postais joaninas, o monopólio do serviço postal voltou para Coroa, mediante compra e concessão de uma vultosa indenização a seus detentores. Mas essa é outra história.


 



Palácio do Correio-Mor em Loures, Portugal. Século XVIII. Disponível em:  https://bit.ly/33HsN31.



Para saber mais

FERREIRA, Godofredo. Dos Correios-mores do Reino aos Administradores Gerais dos Correios e Telégrafos. 3. ed. Lisboa: CTT, 1963.

FIRMINO, Glória. Subsídios para a história dos Assistentes do Correio-Mor. Lisboa: Grupo dos Amigos do Museu das Comunicações, 2005.

MACHADO, Luiz Guilherme. História geral dos Correios portugueses nos séculos XVI ao XVIII. [s.l.]: 2008, s.p. Disponível em: https://bit.ly/39icBGh. Acesso em: 24 jun. 2023.

SALVINO, Romulo Valle. Guerras de papel: comunicação escrita, política e comércio na monarquia ultramarina portuguesa. Jundiaí: Paco Editoral, 2020.





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