quarta-feira, 31 de maio de 2023

Dominar a distância e o tempo nos mares: os paquetes


Uma das grandes inovações dos sistemas postais na Europa moderna foi a criação, durante o século XVI, dos chamados correios ordinários, um serviço aberto ao uso da população, mediante pagamento de tarifas, com dias certos de saída e chegada dos mensageiros em cada ponto da rede.


Famouth Packets. Fonte: Falmouth Packet Service, Cornwall to the Empire (cornwall-calling.co.uk)


Em algumas rotas marítimas, no final daquele século, também surgiu um serviço semelhante, com navios ligando periodicamente alguns portos. Inicialmente, essas embarcações, que se tornariam conhecidas pelo nome de paquetes (do inglês packet boat, literalmente “barcos de pacotes”), atendiam apenas itinerários mais curtos, quando não havia alternativa terrestre, como entre Holyhead (Inglaterra) e Dublin (Irlanda). No século seguinte ganhariam maior importância, quando passaram a ligar Dover (Inglaterra) com Calais (França) e Harwich (também na Inglaterra) com Helvoetsluys (Países Baixos).

Nessas travessias, eram sempre utilizados navios velozes e armados de canhões. Desde cedo, os paquetes ingleses começaram a transportar também passageiros e mercadorias, como uma forma de rentabilizar as viagens. O padre Antônio Vieira chegou a viajar em um deles, entre Dover e Calais, por julgá-lo “seguro de corsários”, conforme contou em uma carta de 1647.

Durante o século XVII, por causa de sua privilegiada localização geográfica, Falmouth, no sudoeste inglês, firmou-se como o grande porto dos paquetes ingleses. Dali, os navios saiam facilmente tanto para o Atlântico quanto para o Mediterrâneo.

Entretanto, esse tipo de solução demorou a se firmar nas grandes rotas oceânicas, principalmente devido aos altos custos e riscos envolvidos. Assim, durante muito tempo, as cartas cruzavam os mares levadas apenas por embarcações mercantes e de guerra que viajavam solitárias ou em frotas. No caso de mensagens mais urgentes, as Coroas lançavam mão de navios de aviso (ou simplesmente avisos – advice boats em inglês), que podiam tanto lhes pertencer quando serem especialmente fretados nessas ocasiões. É como se esses avisos correspondessem aos correios extraordinários nos sistemas terrestres, enquanto os paquetes fariam o mesmo papel dos correios ordinários.

Tendo em vista os custos e as dificuldades inerentes à atividade, até o final do século XVIII, algumas potências europeias, como a França, sequer chegaram a tentar a criação de sistemas de paquetes nas rotas atlânticas. Esses não foram, contudo, os casos de Inglaterra, Espanha e Portugal.

No caso dos ingleses, os primeiros navios desse tipo surgiram no final do século XVI, para levar cartas à Irlanda. Durante o século XVII a rede se expandiu para Dover e Norwich, de onde os paquetes cruzavam, respectivamente, o Canal da Mancha até Calais e o Mar do Norte até os Países Baixos. Os correios marítimos foram levados para o Atlântico Norte apenas em 1702, devido as exigências da comunicação administrativa e militar com suas colônias americanas durante a guerra de Sucessão Espanhola.  Com o fim do conflito, as ligações com a América foram interrompidas durante por algum tempo, mas, nas décadas seguintes o sistema inglês consolidou-se e conseguiu firmar-se como modelo para os demais. 

Embora desde o século XVI a Espanha tenha tentado criar, sem grande sucesso, algumas ligações periódicas para a América, somente mais tarde conseguiu uma solução mais duradoura. Em 1713, o vice-rei do Peru solicitou que fossem estabelecidos quatro avisos anuais entre a Espanha e as índias Ocidentais.  A demanda foi atendida apenas cinco anos depois, quando um decreto régio estabeleceu o envio de quatro navios anualmente para a Nova Espanha e quatro para a Terra Firme, com a proibição de que levassem passageiros e cargas. O sistema, contudo, não teve o sucesso esperado, e apenas em 1764 foi criada a primeira carreira de paquetes (paquebotes, em espanhol) para Havana. Três anos depois, idêntica solução seria implantada para Buenos Aires.

A respeito do caso português, faremos algumas postagens específicas.

Nas primeiras décadas do XIX os paquetes viveram seu momento áureo.  Transformaram-se em um importante negócio, com o transporte não só de cartas, mas também de mercadorias e passageiros. O sucesso foi tal que a palavra paquete começou a designar mesmo navios que não levavam prioritariamente correspondências, mas se concentravam nos demais negócios.  Rotas de várias nacionalidades (inglesas, estadunidenses, francesas, portuguesas, entre outras) estenderam-se por todos os mares, o que não quer dizer que a navegação mercante tenha deixado de transportar cartas para os correios oficiais, inclusive nos percursos também atendidos pelos paquetes. Com a emergência da tecnologia a vapor, outros portos passaram a disputar a primazia com Falmouth, como Liverpool e Baltimore,

No Rio de Janeiro, era tanta a popularidade dessas embarcações que, na segunda metade do século XIX, "estar de paquete" significava que as mulheres estavam em seu período de menstruação. Segundo o historiador Luiz Felipe de Alencastro, as viagens dos paquetes entre aquela cidade e Liverpool demoravam 27 ou 28 dias, um tempo semelhante ao do ciclo biológico feminino.






Anúncio de paquetes (1793). Fonte: Packet Schooner - Packet boat - Wikipedia



Para saber mais


ARANEDA RIQUELME, José. Una correspondencia mensual, semanaria y a todas horas: correo y espacio en el imperio español durante las reformas borbónicas, siglo XVIII. In: ARANEDA RIQUELME, José et al. Seminário Simón Collier 2014. Santiago de Chile: Pontificia Universidad Católica de Chile, 2015.

ALENCASTRO, Luiz Felipe de. Vida privada e ordem privada no Império. In: ALENCASTRO, Luiz Felipe de (org). História da Vida Privada no Brasil: Império. São Paulo: Cia das Letras, 2001, p. 11-93.

BELOTTO, Manoel Lelo. Correio marítimo hispano-americano: a carreira de Buenos Aires (1767-1779). Assis: FFCL-Assis; São Paulo: Revista dos Tribunais, 1971.

GARAY UNIBASO, Francisco. Correos marítimos españoles. Bilbao: El Mensajero, 1987, 3 v.

HARRISON, Jane E. The Intercourse of Letters: Transatlantic Correspondence in Early Canada, 1640-1812.  Tese (Doutorado em História) – University of Toronto, Toronto, 2000.

MORENO CANANILLAS, Rocio. Cartas para Gobernar: El establecimiento de la Administración de Correos de Cartagena de Indias (1764-1769). Saarbrücken: Editorial Académica Española, 2017. 

MORENO CANANILLAS, Rocio. Comunicación e Imperio: proyectos y reformas del correo en Cartagena de Indias (1707-1777). Madrid: Sílex Universidade, 2022.

PAWLYN, Tony. The Falmouth Packets: 1689-1851. Cornwall: Truran, 2003.

SALVINO, Romulo Valle. Guerras de papel: comunicação escrita, política e comércio na monarquia ultramarina portuguesa. Jundiaí: Paco Editoral, 2020.

STEELE, Ian K. The English Atlantic, 1675-1740: an Exploration of Communication and Community. New York; Oxford: Oxford University, 1986.

VIEIRA, Antonio. Cartas do Padre Antonio Vieira. Lisboa: J.M.C. Seabra & T.Q. Antunes, 1854, t.1.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Os ataques aos correios marítimos Caçador e Olinda (1801)

Os próximos ataques a paquetes portugueses somente viriam a acontecer em 1801. Naquele ano, foram perdidos o  Caçador  e o Santo Antônio de ...