Dominar a distância e o tempo nos mares: os paquetes
Uma
das grandes inovações dos sistemas postais na Europa moderna foi a criação, durante o século XVI, dos chamados correios ordinários, um serviço aberto ao uso da
população, mediante pagamento de tarifas, com dias certos de saída e chegada dos
mensageiros em cada ponto da rede.
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| Famouth Packets. Fonte: Falmouth Packet Service, Cornwall to the Empire (cornwall-calling.co.uk) |
Em algumas rotas marítimas, no
final daquele século, também surgiu um serviço semelhante, com navios ligando
periodicamente alguns portos. Inicialmente, essas embarcações, que se tornariam
conhecidas pelo nome de paquetes (do inglês packet boat, literalmente
“barcos de pacotes”), atendiam apenas itinerários mais curtos, quando não
havia alternativa terrestre, como entre Holyhead (Inglaterra) e Dublin
(Irlanda). No século seguinte ganhariam maior importância, quando passaram a
ligar Dover (Inglaterra) com Calais (França) e Harwich (também na Inglaterra)
com Helvoetsluys (Países Baixos).
Nessas travessias, eram sempre
utilizados navios velozes e armados de canhões. Desde cedo, os paquetes
ingleses começaram a transportar também passageiros e mercadorias, como uma
forma de rentabilizar as viagens. O padre Antônio Vieira chegou a viajar em um
deles, entre Dover e Calais, por julgá-lo “seguro de corsários”, conforme
contou em uma carta de 1647.
Durante o século XVII, por causa
de sua privilegiada localização geográfica, Falmouth, no sudoeste inglês,
firmou-se como o grande porto dos paquetes ingleses. Dali, os navios saiam
facilmente tanto para o Atlântico quanto para o Mediterrâneo.
Entretanto, esse tipo de solução
demorou a se firmar nas grandes rotas oceânicas, principalmente devido aos
altos custos e riscos envolvidos. Assim, durante muito tempo, as cartas
cruzavam os mares levadas apenas por embarcações mercantes e de guerra que
viajavam solitárias ou em frotas. No caso de mensagens mais urgentes, as Coroas
lançavam mão de navios de aviso (ou simplesmente avisos – advice
boats em inglês), que podiam tanto lhes pertencer quando serem
especialmente fretados nessas ocasiões. É como se esses avisos correspondessem
aos correios extraordinários nos sistemas terrestres, enquanto os paquetes
fariam o mesmo papel dos correios ordinários.
Tendo em vista os custos e as
dificuldades inerentes à atividade, até o final do século XVIII, algumas
potências europeias, como a França, sequer chegaram a tentar a criação de sistemas
de paquetes nas rotas atlânticas. Esses não foram, contudo, os casos de
Inglaterra, Espanha e Portugal.
No caso dos ingleses, os
primeiros navios desse tipo surgiram no final do século XVI, para levar cartas à Irlanda. Durante o século XVII a rede se expandiu para Dover e Norwich, de onde os paquetes cruzavam, respectivamente, o Canal da Mancha até Calais e o Mar do Norte até os Países Baixos. Os correios marítimos foram levados para o Atlântico Norte apenas em 1702, devido
as exigências da comunicação administrativa e militar com suas colônias
americanas durante a guerra de Sucessão Espanhola. Com o fim do conflito,
as ligações com a América foram interrompidas durante por algum tempo, mas, nas
décadas seguintes o sistema inglês consolidou-se e conseguiu firmar-se como
modelo para os demais.
Embora desde o século XVI a
Espanha tenha tentado criar, sem grande sucesso, algumas ligações periódicas
para a América, somente mais tarde conseguiu uma solução mais duradoura. Em
1713, o vice-rei do Peru solicitou que fossem estabelecidos quatro avisos
anuais entre a Espanha e as índias Ocidentais. A demanda foi
atendida apenas cinco anos depois, quando um decreto régio estabeleceu o envio
de quatro navios anualmente para a Nova Espanha e quatro para a Terra Firme,
com a proibição de que levassem passageiros e cargas. O sistema, contudo, não
teve o sucesso esperado, e apenas em 1764 foi criada a primeira carreira de
paquetes (paquebotes, em espanhol) para Havana. Três anos depois,
idêntica solução seria implantada para Buenos Aires.
A respeito do caso português,
faremos algumas postagens específicas.
Nas primeiras décadas do XIX os
paquetes viveram seu momento áureo. Transformaram-se em um
importante negócio, com o transporte não só de cartas, mas também de
mercadorias e passageiros. O sucesso foi tal que a palavra paquete começou a
designar mesmo navios que não levavam prioritariamente correspondências, mas se
concentravam nos demais negócios. Rotas de várias nacionalidades
(inglesas, estadunidenses, francesas, portuguesas, entre outras) estenderam-se
por todos os mares, o que não quer dizer que a navegação mercante tenha deixado
de transportar cartas para os correios oficiais, inclusive nos percursos também
atendidos pelos paquetes. Com a emergência da tecnologia a vapor, outros portos
passaram a disputar a primazia com Falmouth, como Liverpool e Baltimore,
No Rio de Janeiro, era tanta a
popularidade dessas embarcações que, na segunda metade do século XIX,
"estar de paquete" significava que as mulheres estavam em seu período
de menstruação. Segundo o historiador Luiz Felipe de Alencastro, as viagens dos
paquetes entre aquela cidade e Liverpool demoravam 27 ou 28 dias, um tempo
semelhante ao do ciclo biológico feminino.
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| Anúncio de paquetes (1793). Fonte: Packet Schooner - Packet boat - Wikipedia |
Para saber mais
ARANEDA RIQUELME,
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en el imperio español durante las reformas borbónicas, siglo XVIII. In: ARANEDA
RIQUELME, José et al. Seminário Simón Collier 2014. Santiago de Chile: Pontificia
Universidad Católica de Chile, 2015.
ALENCASTRO, Luiz
Felipe de. Vida privada e ordem privada no Império. In: ALENCASTRO, Luiz Felipe
de (org). História da Vida Privada no Brasil: Império. São Paulo: Cia
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Correio marítimo hispano-americano: a carreira de Buenos Aires
(1767-1779). Assis: FFCL-Assis; São Paulo: Revista dos Tribunais, 1971.
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Rocio. Cartas para Gobernar: El establecimiento de la Administración de
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Rocio. Comunicación e Imperio: proyectos y reformas del correo en
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PAWLYN, Tony. The Falmouth Packets: 1689-1851. Cornwall: Truran, 2003.
SALVINO, Romulo
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monarquia ultramarina portuguesa. Jundiaí: Paco Editoral, 2020.
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VIEIRA, Antonio.
Cartas do Padre Antonio Vieira. Lisboa: J.M.C. Seabra & T.Q. Antunes, 1854,
t.1.


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