Pouco depois do início da ligação pela costa entre São Luís e Pernambuco e daquela entre Oeiras e a Bahia, começaram a aparecer sinais na documentação sobre uma linha postal entre as capitais do Maranhão e do Piauí, através do sertão.
![]() |
| Figura 1 - Mapa das cidades, vilas, lugares e freguesias das capitanias do Maranhão e do Piauí, por Francisco José Teles da Silva, 1787. Biblioteca Nacional; SILVA, 2024, p. 96-97. |
Nos anos 1770, fora intensa a circulação de correios militares entre Oeiras e São Luís, mas não conseguimos comprovar nem a regularidade do fluxo de comunicação nem uma possível continuidade dele nos anos seguintes (SALVINO, 2023; SALVINO, 2024). O mais provável é que as conexões tivessem se tornado irregulares, bastante esparsas, com o envio de homens apenas no caso de necessidades mais prementes.
Como já vimos, Silva Gama apresentara em 1813 a proposta de uma linha postal para a Bahia que, obviamente, tinha que atravessar o território piauiense. A Coroa a aprovou, mas não há qualquer sinal de que o governador do Maranhão tenha efetivamente adotado alguma providência para torná-la realidade. Um fluxo efetivamente regular, com prazos certos, voltado ainda apenas para o trâmite de correspondências de governo entre Oeiras e São Luís, parece somente ter-se estabelecido em meados da década de 1810, depois das tentativas acontecidas no século anterior.
Data de 13 de março de 1815 a mais antiga referência nos códices maranhenses do século XIX a um provável serviço sistema desse tipo entre as duas capitanias, quando o governador Silva Gama, escreveu ao juiz de fora de Caxias, informando que o fazia por intermédio de um "correio do Piauí" que partia naquela data (APEM, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.1.L.59, f. 81). É a partir daquele momento que começaram a se acumular menções a esses mensageiros. Embora não haja como garantir que aquela fosse a primeira viagem deles, é improvável que viessem acontecendo muito antes.
Aparentemente, a chegada desses correios piauienses a São Luís foi iniciativa de Baltasar Botelho de Vasconcelos, logo depois ou ao mesmo tempo do estabelecimento das ligações de Oeiras com a Bahia.
Em um primeiro momento, os condutores do Piauí chegavam até capital maranhense. Apenas em 26 de janeiro de 1816, depois de uma reclamação de Vasconcelos, Silva Gama determinou ao juiz de fora de Caxias que, doravante, eles fossem dispensados de prosseguir a partir daquela vila. Dali, depois de receberem ali as cartas oriundas de São Luís, deviam voltar à sua base, enquanto outros condutores levariam os papéis por eles trazidos até a capital maranhense (APEM, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.1.L.59, f. 233-234).
Com essa providência, Caxias transformava-se de um mero local de passagem em um ponto de conexão da linha de correios inter-regional. Faltam, contudo, informações de como se fazia ali a gestão temporal das trocas das malas ou maços de cartas, pois certamente o tempo de viagem entre Oeiras e Caxias não era o mesmo daquele entre Caixas e São Luís, a gerar retenções de carga e esperas, que deviam ser consideradas para a definição dos prazos efetivamente praticados entre as duas capitais.
Nesses primeiros anos, as poucas menções na documentação maranhense resumem-se à existência de um correio até o Piauí, a sinalizar que a implantação do projeto mais ousado de instalação de um serviço postal público daquela capitania até a Bahia não prosseguiu naquele momento. Vimos que já existia uma ligação entre Oeiras e Salvador. Todavia, apesar do ímpeto inicial de Silva Gama, as providências administrativas e operacionais para o envio regular de correspondências particulares por aquela rota ainda não foram adotadas. As iniciativas regionais pareciam ainda desconectadas. Até que se encontre alguma evidência contrária, a falta de qualquer ordem para os administradores dos Correios envolvidos bem como de alguma comunicação para as populações locais a respeito da nova linha postal faz crer que a tentativa tenha se resumido até então a um sistema de trocas de correspondências administrativas, assim como parece ter acontecido com aquela entre Oeiras e a Bahia na mesma época.
Somente alguns anos depois, os documentos começam a trazer informações sobre um correio público para a Bahia, quando o governador do Maranhão já era Bernardo da Silveira Pinto da Fonseca.
A historiografia, de modo geral, o tem apresentado como hábil administrador e político. Membro da aristocracia portuguesa, depois de uma rápida carreira militar em Portugal, chegara ao Rio de Janeiro em 1816 com a Divisão de Voluntários Reais. Ali foi ajudante-geral das tropas da Corte antes de ser nomeado governador e capitão general do Maranhão em agosto de 1819. Pouco depois de tomar posse, elaborou um relatório bastante crítico com relação à gestão anterior, expondo a situação da capitania como deplorável. Notabilizou-se por diversas obras de reforma urbana e por ter, logo depois da Revolução do Porto, conseguido manter-se à frente do governo em um momento de grande turbulência (MEIRELES, 1960; GODÓIS, p. 16-27). O primeiro periódico do Maranhão, O Conciliador Maranhense, surgiu por sua iniciativa, como órgão de propaganda política, primeiro em versão manuscrita e depois impressa (GALVES, BASÍLIO, Pinto, 2019, p. 99-111). Mário M. Meireles aponta, entre suas iniciativas, que "estabeleceu correios terrestres, fez reconhecer todo o litoral e tirar a planta do porto e, por fim, mandou levantar, pelo Coronel dos Engenheiros Antônio Bernardino Pereira do Lago, a Carta Geral da Província" (MEIRELES, 1960, p. 204 - grifos meus).
Em 25 de janeiro de 1820, Pinto da Fonseca enviou aos juízes de fora de Caixas e Itapecuru-Mirim o seguinte ofício:
Sendo da maior utilidade para os Povos e para o Comércio interior desta capitania o estabelecimento de correios que facilitem as comunicações desta capital com essa vila e com a do Itapecuru-Mirim, igualmente com a capitania do Piauí, e tendo resolvido dar imediatamente princípio a tão útil e necessário estabelecimento, Vossas Mercês proporão sem demora à Junta da Real Fazenda um sujeito estabelecido, com capacidade de exercer as funções de Correio Assistente nessa vila devendo esse prestar a necessária fiança na conformidade do Regulamento Provisional dos Correios de 1º de abril de 1799, para que, sendo aprovado pela mesma Junta, principie a exercer as referidas funções logo que se estabeleçam os ditos Correios, ficando a cargo de Vossa Mercê fazer aprontar casa competente e todos os auxílios que exige tão útil estabelecimento. (APEM, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.1.L.61, f. 196-197)
Note-se que a proposta mencionava apenas o atendimento das necessidades internas da própria capitania e de sua conexão com a vizinha Piauí, sem ainda qualquer menção à Bahia. O teor do ofício confirma também que, naquele momento, inexistia qualquer ligação postal pública naquela direção.
Um diferencial em relação a outras propostas semelhantes na América portuguesa é a atribuição do título de “Correios Assistentes” aos agentes locais, uma denominação comum em Portugal, em que esses oficiais garantiram a transição operacional e administrativa entre o antigo Correio-Mor a e nova Administração de Correios depois da reforma postal de 1798. No restante da documentação, contudo, desaparece essa forma.
O referencial maior de Pinto da Fonseca parece ser a realidade dos Correios portugueses e não americanos. Outro indício disso é que, em vez de citar o Alvará de 20 de janeiro de 1798 e suas instruções anexas, preferiu mencionar o Regulamento Provisional dos Correios de 1º de abril de 1799, aplicável principalmente às terras do outro lado do Atlântico. Aquela norma, contudo, parece ter sido trazida à cena sem uma consulta direta, pois não traz qualquer requisito quanto à prestação de fiança por parte dos agentes locais (REGULAMENTO, 1799, passim).
Em 3 de fevereiro de 1820, um novo ofício, desta vez para o coronel comandante de Caxias, determinava que ele, em conjunto com o juiz de fora, escolhesse pessoas para acertarem detalhes de funcionamento do correio (paradas, dias de partida e de chegada) até o ponto em que as malas seriam entregues aos estafetas do Piauí (APEM, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.1.L.61, f. 215-216).
Em 22 de fevereiro, em ofício a José Manuel de Melo, administrador do Correio Geral do Maranhão, pela primeira vez a Bahia foi mencionada, não apenas como destino do novo sistema, mas como ponto de passagem para outras capitanias. Assim, cerca de sete anos depois da proposta inicial de Silva Gama começava a ganhar corpo realmente o novo meio de encaminhamento postal:
Remeto a Vossa Mercê o Regulamento que tenho dado para o estabelecimento e direção da correspondência das cartas do serviço público e particular para toda a capitania, por mar e por terra, e pelos estafetas para progredir pelo correio do Piauí à capitania da Bahia e dali por diante. Vossa Mercê o porá em execução e efetividade logo que estejam estabelecido [sic] o arranjamento preciso. (APEM, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.1.L.61, f. 240 – grifos meus)
Em 6 de abril de 1820, como já vimos, a Decisão nº 23 informou que, naquela data, fora encaminhado um aviso a vários governadores, entre eles os do Pará, Maranhão, Ceará e Paraíba, para promoverem o estabelecimento de correios entre as diversas províncias. O referido aviso foi assinado pelo poderoso secretário Tomás Antônio de Vilanova Portugal, que acumulava as pastas dos Negócios do Reino, da Fazenda e da Guerra. No caso do Maranhão, determinava a criação de "correios certos" destinados ao Pará e Piauí. A coincidência no envio desse documento quando já havia providências em curso no Maranhão pode fazer pensar mesmo que Pinto da Fonseca rumara para seu novo posto já com orientações para implementá-las.
De qualquer modo, em 5 de junho, ele pode responder que não só a conexão com o Pará e o Ceará estavam em funcionamento (vejam-se as próximas postagens), mas que já tinham sido estabelecidas as linhas postais para Itapicuru Mirim e Caxias, de onde as cartas prosseguiam até a capital do Piauí e a Bahia e de lá "para onde fosse o seu destino", providências adotadas [...] antes de receber o Aviso de V. Exa." (APEM, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.2.L.290, fl. 189). E concluiu:
Como pois pela condução deste Correio fica mais regular e breve a correspondência com a Corte, rogo a V. Exa. para dignar-se transmitir-me pela Bahia (quando se proporcione) a sua correspondência para poder chegar mais depressa ao meu recebimento e eu lhe dar o devido cumprimento. (APEM, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.2.L.290, fl. 189)
Na mesma data, oficiou para o governador da Bahia, Conde da Palma, a comunicar-lhe que no dia seguinte, 6 de junho de 1820, partiria o correio público do Maranhão até Oeiras "para progredir até essa cidade e dai seguir o destino para a Corte do Rio de Janeiro, ou para onde designarem os sobrescritos" (ANR, Série Interior, IJJ 328). Doravante, deveriam ser encaminhadas pelos estafetas do Piauí todas as cartas dirigidas da Bahia ou do Rio de Janeiro para o Maranhão.
Desde 18 de abril, já estavam nomeados os administradores locais de Caxias e Itapicuru Mirim, e foi dada ordem para que lhes enviassem livros, balanças e outros aprestos necessários para o serviço (APEM, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.1.L.61, fl. 303-304). De início estabeleceu-se que os estafetas deveriam partir duas vezes por mês de São Luís, nos dias 10 e 25, a partir de maio (APEM, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.1.L.61, fl. 301-302). Houve, contudo, atraso nessa previsão, bem como a reprogramação dos dias de saída, estabelecidos depois para os dias 6 e 20 de cada mês, por meio de nova ordem datada de 27 de maio do mesmo ano.
Em 29 de maio, encerraram-se os preparativos para o funcionamento da nova linha. Só nesse momento, Pinto da Fonseca determinou que se comunicasse à população que, a partir de 6 de junho de 1820, entraria, finalmente, em operação um correio por terra para a Bahia, via Caxias e Oeiras (APEM, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.1.L.61, fl. 352-353). Naquela ocasião, a periodicidade das ligações para o Piauí e a Bahia foi definida como mensal, diferentemente do que acontecia com aquelas para as vilas maranhenses. Essa informação é confirmada pela mensagem enviada ao Conde da Palma e pelo expediente que esse encaminhou ao Rio de Janeiro depois de recebê-la (ANR, Série Interior, IJJ 328).
Entre Ipapicuru Mirim (atualmente Itapecuru Mirim/MA) e Caxias, o percurso se fazia possivelmente pelo rio Itapicuru, como consta no roteiro de Bastos (1867, p. 531-533). Segundo Spix (2017, p. 368), que atravessou aquela região em 1817, os
caminhos por terra, que passam ao longo dele [rio Itapicuru], de uma fazenda para outra, só servem para cavaleiros e são apenas transitáveis para os cargueiros, pois só a custo se podem manter abertos no meio dos palmeirais pantanosos e cerrados e são, além disso, expostos às inundações do rio.
A partir de Caxias, a determinação era de que as correspondências deviam sair rumo ao Piauí também todo dia 20, devendo as malas serem levadas até a Passagem de Santo Antônio, no Quartel do Coronel José Antônio da Cunha Rabelo, onde seriam trocadas com as trazidas pelos condutores piauienses (APEM, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.1.L.61, fl, 348-350). A Passagem de Santo Antônio, localizada no atual município de Timon, no Maranhão, era o principal ponto de travessia do Rio Parnaíba, utilizado desde meados do século XVIII, e um dos primeiros núcleos populacionais da região (MARQUES, 1970, p. 507, 570-571; HISTÓRIA, 2024).
Desse modo, a cada duas semanas, mais ou menos, haveria conexão entre São Luís e as duas vilas maranhenses, enquanto aquela com o Piauí e a Bahia seria mensal. O percurso acima mencionado está representado na Mapa da Figura 2, para o qual valem as mesmas observações relativas à provisoriedade da solução proposta apresentadas em nossa postagem anterior. O itinerário entre a Passagem de Santo Antônio e a Bahia não está detalhado nas fontes manuscritas consultadas, mas muito provavelmente seguia os mesmos caminhos do gado descritos por Manuel José de Oliveira Bastos (1867, p. 533-537), em texto já aqui mencionado quando tratamos dos primeiros correios entre Oeiras e o Maranhão.
![]() |
| Figura 2 - Mapa dos Correios - Maranhão - Piauí - Bahia |
![]() |
| Quadro 1 - Rota sertaneja do Maranhão para a Bahia.. Fontes: APEM, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.1.L.61; BASTOS, 1867. |
ARQUIVO Nacional do Rio de Janeiro - ANRJ, Série Interior, doc. 193-197.
ARQUIVO Público do Estado do Maranhão - APEM, Secretaria de Governo, Livro de registro da correspondência do Governador e Capitão-General, 1814-1816, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.1.L.59.
ARQUIVO Público do Estado do Maranhão - APEM, Secretaria de Governo, Livro de registro da correspondência do Governador e Capitão-General, 1819-1820, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.1.L.61.
ARQUIVO Público do Estado do Maranhão - APEM, Secretaria de Governo, Livro de registro da correspondência do Governador e Capitão-General, 1811-1821, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.2.L.290.
Fontes primárias impressas
BASTOS, Manoel José d’Oliveira. Roteiro das capitanias do Pará, Maranhão, Piauhy, Pernambuco e Bahia pelos seus caminhos e rios centrais. Revista Trimensal de Historia e Geographia ou Jornal do Instituto Historico e Geographico Brasileiro, t. VIII, 1846. 2ª ed. Rio de Janeiro: Typographia de João Ignacio da Silva, 1867, p. 527-539.
REGULAMENTO provisional para o novo estabelecimento do Correio. Lisboa: Oficina de Antônio Galhardo, 1799.
SPIX, F., Johann Baptist von. Viagem pelo Brasil (1817-1820) - volume 2 . Tradução de Lúcia Furquim Lahmeyer. Brasília: Senado Federal, 2017.
GALVES, Marcelo Cheche; BASÍLIO, Romário Sampaio; PINTO, Lucas Gomes Carvalho. Venden-se impressos a preços cômodos na Cidade do Maranhão. São Luís: Editora UEMA, 2019.
GODÓIS, Antônio Batista Barbosa de. História do Maranhão. v. 3. 3 ed. São Luís: AML/EDUEMA, 2021.
HISTÓRIA do Município. In: CÂMARA Municipal de Timon. Disponível em: <https://timon.ma.leg.br/historia-do-municipio/>. Acesso em: 29 dez. 2024.
MARQUES, César Augusto. Dicionário histórico-geográfico da província do Maranhão. 3 ed. Rio de Janeiro: Fon-Fon e Seleta, 1970.
MEIRELES, Mário M. História do Maranhão. Rio de Janeiro: DASP - Serviço de Documentação, 1960.
SALVINO, Romulo Valle. “Circular a substância espirituosa que vivifica e faz obrar o corpo político”: o sistema de comunicação de Gonçalo Lourenço Botelho de Castro no Piauí (1770-1777), História (São Paulo), v. 41, 2023, p. 1-26.
SALVINO, Romulo Valle. Os correios dos governadores: Sistemas de comunicação escrita administrativa e militar na América portuguesa. Jundiaí: Paco Editorial, 2024.
SILVA, Felipe William dos Santos. As povoações do Diretório dos Índios e as dinâmicas espaciais na capitania do Maranhão (1757-1774). Curitiba: CRV, 2024.



Nenhum comentário:
Postar um comentário