Em 15 de abril de 1814, o governador do Piauí, Baltasar Botelho de Vasconcelos, comunicou ao Correio da Bahia o estabelecimento de uma ligação mensal entre Oeiras e aquela cidade. O ofício em questão foi levado pelo primeiro mensageiro do novo serviço e nada nele indicava ter havido conversações anteriores.
No documento, Vasconcelos solicitava que, doravante, todas as
cartas oficiais que lhe fossem destinadas seguissem pelo novo sistema, bem como
todas as mais que Vossa Senhoria quiser [...] ficando-lhe eu [sic] responsável pelo porte daquelas minhas que não forem oficiais a qual [sic] remeterei na mesma mala, o que nesta ocasião participei ao Exmo. Conde dos Arcos, ficando eu igualmente pronto para obsequiar a V. Sa. no que me for possível (MC, Códice Bahia, f. 128 - grifos meus)
A iniciativa parece ter sido integralmente do governador
piauiense, que não apontava, nesse documento, quais poderiam ter sido as razões a
movê-lo. Não há também qualquer menção à proposta de Paulo José da Silva Gama
datada de mais de um ano antes, de que se criasse uma linha postal entre o
Maranhão e a Bahia com passagem por Oeiras.
Até o momento, não encontramos o ofício que Vasconcelos diz
ter enviado na mesma ocasião ao Conde dos Arcos. Todavia, de maneira indireta, o
Conde atesta tê-lo recebido, já que em 24 de maio emitiu uma portaria a
determinar que o Administrador local do Correio, Prudêncio José da Cunha Vale, atendesse
ao demandado por Vasconcelos.
Na referida portaria, provavelmente a ecoar o que escrevera
Vasconcelos, o Conde indica como razão do novo estabelecimento “facilitar-se a
sua correspondência [do Piauí] e evitar-se os extravios, delongas e roubos que
tem havido nas cartas oficiais” (MC, Códice Bahia, f. 129). Por isso, também ordenava ao
administrador local que “não remeta as ditas cartas e papéis oficiais para
aquela cidade [Oeiras] se não pelo Correio que dela [enviem] a esta” (MC, Códice Bahia,
f. 129).
Não há, em nenhum desses papéis, quaisquer menções ao uso
público da linha postal, bem como a alguma tratativa relativa à fixação de
tarifas para torná-lo possível. A única referência direta a correspondências
particulares trata apenas das cartas do próprio Vasconcelos (“aquelas minhas que não forem
oficiais”). Embora aquele governador asseverasse ficar “responsável pelo porte”
delas, nada mais há com relação a esse assunto. Assim, até que surjam outros
elementos, tudo parece indicar que a rota postal em questão operava, naquele
momento, focada apenas na correspondência administrativa, ainda que suas malas
pudessem servir ao transporte oficioso de outros papéis das autoridades
envolvidas.
Ao longo do tempo, alguns registros mostram a continuidade
da operação, executada por condutores que viajavam em duplas. Diferentemente do
que acontecia em outras rotas postais, em que o percurso era segmentado entre
vários estafetas, os mesmos homens que partiam de Oeiras chegavam à Bahia com
as malas de cartas. Como as ligações eram mensais e o percurso demandava cerca
de trinta dias para ida e outros trinta para a volta, a combinação desses
fatores indica a necessidade de, pelo menos, duas equipes a circularem
concomitantemente.
O movimento desses estafetas pode ser observado na documentação da Bahia, onde, entre abril e julho de 1815, foram registrados alguns pagamentos que eles receberam, a título de comedoria e outras despesas, a demonstrar que, pelo menos naquela ocasião, os custos estavam sendo compartilhados pelas duas capitanias (ver Quadro 1). É importante ressaltar que, no mesmo período, lançamentos de pagamentos semelhantes, embora com outros valores, foram feitos também para os condutores de Sergipe (voltaremos a esse caso em outra postagem) – uma prática que não mais voltaria mais a ser registrada na mesma fonte, seja em um caso seja em outro.
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Data |
Nome dos condutores |
Valor Pago (réis) |
Discriminação |
|
14/04/1815 |
Dois condutores mais um escravizado |
16.000 |
Comedorias e sustento das cavalgaduras |
|
26/05/1815 |
Francisco Veloso e Prudente Ferreira (“escravos de Sua
Majestade”) |
6.400 |
“para a sua sustentação e algumas passagens” |
|
19 e 20/06/1815 |
Manuel e Baltazar |
6.400 |
Sem especificação, mas consta que tinham recebido outros
4.800 réis na origem |
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28/07/1815 |
João e Manuel |
6.400 |
Sem qualquer especificação |
Quadro 1 - Pagamento aos condutores do Piauí. Fonte: MC, Códice Bahia, p. 134-139.
São dados muitos esparsos, mesmo assim sinalizam alguns
aspectos interessantes. É possível observar que, no período em questão, com uma
razoável variabilidade, os condutores estavam sempre na Bahia de meados para o
final do mês, assim como acontecera na primeira viagem, há pouco comentada. A
diferença entre as datas de um mês para outro mostra uma certa elasticidade no
cumprimento dos prazos. Se elas forem representativas, havia uma razoável lacuna
entre a chegada dos estafetas piauienses e a partida das escunas correio para o
Rio de Janeiro, as quais, como vimos, estavam programadas para sair em torno do
dia 3 de cada mês. Esse intervalo somava-se aos tempos de percurso por terra e
mar para compor o prazo de tramitação de ofícios e outros papéis endereçados de
Oeiras para a Corte.
Na primeira das viagens, consignaram-se despesas relativas a dois condutores acompanhados por um escravizado e as respectivas cavalgaduras. As viagens seguintes foram todas realizadas, provavelmente, por
duplas de escravizados. Apesar de apenas no primeiro caso a documentação
o asseverar, a ausência de sobrenomes nos demais, bem como os valores mais
baixos envolvidos, parecem indicar que também não eram homens livres. Nessas
oportunidades, não há menção a gastos com cavalgaduras, possível indício de que os percursos passaram a ser feitos a pé, tal como acontecia em outras
linhas postais da América portuguesa.
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| Figura 2 - Correio do Piauí à Bahia - 1814 |
A se confiar nas datas do ofício de Vasconcelos (15 de abril) e da Portaria do Conde de Arcos (24 de maio), o tempo de percurso entre as duas capitais fora de cerca de um mês ou um pouco mais. A distância total percorrida em nosso mapa hipotético é de 142 léguas, mais ou menos, compatível com esse prazo de deslocamento, haja vista as velocidades obtidas em outras linhas postais da época na América portuguesa.
Fonte primária manuscrita
MUSEU CORREIOS, Códice Bahia, 1798-1829.
Fontes primárias impressas
BASTOS, Manoel José d’Oliveira. Roteiro das capitanias do Pará, Maranhão, Piauhy, Pernambuco e Bahia pelos seus caminhos e rios centrais. Revista Trimensal de Historia e Geographia ou Jornal do Instituto Historico e Geographico Brasileiro, t. VIII, 1846. 2ª ed. Rio de Janeiro: Typographia de João Ignacio da Silva, 1867, p. 527-539.
SPIX, F., Johann Baptist von. Viagem pelo Brasil (1817-1820) - volume 2 . Tradução de Lúcia Furquim Lahmeyer. Brasília: Senado Federal, 2017.


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