segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Os Correios do Piauí para a Bahia


Em 15 de abril de 1814, o governador do Piauí, Baltasar Botelho de Vasconcelos, comunicou ao Correio da Bahia o estabelecimento de uma ligação mensal entre Oeiras e aquela cidade. O ofício em questão foi levado pelo primeiro mensageiro do novo serviço e nada nele indicava ter havido conversações anteriores. 

Figura 1 - Mapa da Província do Piauí, redigida segundo as cartas manuscritas de José Pedro César de Menezes e Matias José da Silva Pereira, 1828. Arquivo Nacional. Fundo Ministério da Guerra. BR_RJANRIO_OG_0_MAP_0023

No documento, Vasconcelos solicitava que, doravante, todas as cartas oficiais que lhe fossem destinadas seguissem pelo novo sistema, bem como

todas as mais que Vossa Senhoria quiser [...] ficando-lhe eu [sic] responsável pelo porte daquelas minhas que não forem oficiais a qual [sic] remeterei na mesma mala, o que nesta ocasião participei ao Exmo. Conde dos Arcos, ficando eu igualmente pronto para obsequiar a V. Sa. no que me for possível (MC, Códice Bahia, f. 128 - grifos meus)

A iniciativa parece ter sido integralmente do governador piauiense, que não apontava, nesse documento, quais poderiam ter sido as razões a movê-lo. Não há também qualquer menção à proposta de Paulo José da Silva Gama datada de mais de um ano antes, de que se criasse uma linha postal entre o Maranhão e a Bahia com passagem por Oeiras.

Até o momento, não encontramos o ofício que Vasconcelos diz ter enviado na mesma ocasião ao Conde dos Arcos. Todavia, de maneira indireta, o Conde atesta tê-lo recebido, já que em 24 de maio emitiu uma portaria a determinar que o Administrador local do Correio, Prudêncio José da Cunha Vale, atendesse ao demandado por Vasconcelos.

Na referida portaria, provavelmente a ecoar o que escrevera Vasconcelos, o Conde indica como razão do novo estabelecimento “facilitar-se a sua correspondência [do Piauí] e evitar-se os extravios, delongas e roubos que tem havido nas cartas oficiais” (MC, Códice Bahia, f. 129). Por isso, também ordenava ao administrador local que “não remeta as ditas cartas e papéis oficiais para aquela cidade [Oeiras] se não pelo Correio que dela [enviem] a esta” (MC, Códice Bahia, f. 129).

Não há, em nenhum desses papéis, quaisquer menções ao uso público da linha postal, bem como a alguma tratativa relativa à fixação de tarifas para torná-lo possível. A única referência direta a correspondências particulares trata apenas das cartas do próprio Vasconcelos (“aquelas minhas que não forem oficiais”). Embora aquele governador asseverasse ficar “responsável pelo porte” delas, nada mais há com relação a esse assunto. Assim, até que surjam outros elementos, tudo parece indicar que a rota postal em questão operava, naquele momento, focada apenas na correspondência administrativa, ainda que suas malas pudessem servir ao transporte oficioso de outros papéis das autoridades envolvidas.

Ao longo do tempo, alguns registros mostram a continuidade da operação, executada por condutores que viajavam em duplas. Diferentemente do que acontecia em outras rotas postais, em que o percurso era segmentado entre vários estafetas, os mesmos homens que partiam de Oeiras chegavam à Bahia com as malas de cartas. Como as ligações eram mensais e o percurso demandava cerca de trinta dias para ida e outros trinta para a volta, a combinação desses fatores indica a necessidade de, pelo menos, duas equipes a circularem concomitantemente.

O movimento desses estafetas pode ser observado na documentação da Bahia, onde, entre abril e julho de 1815, foram registrados alguns pagamentos que eles receberam, a título de comedoria e outras despesas, a demonstrar que, pelo menos naquela ocasião, os custos estavam sendo compartilhados pelas duas capitanias (ver Quadro 1). É importante ressaltar que, no mesmo período, lançamentos de pagamentos semelhantes, embora com outros valores, foram feitos também para os condutores de Sergipe (voltaremos a esse caso em outra postagem) – uma prática que não mais voltaria mais a ser registrada na mesma fonte, seja em um caso seja em outro. 

Data

Nome dos condutores

Valor Pago (réis)

Discriminação

14/04/1815

Dois condutores mais um escravizado

16.000

Comedorias e sustento das cavalgaduras

26/05/1815

Francisco Veloso e Prudente Ferreira (“escravos de Sua Majestade”)

6.400

“para a sua sustentação e algumas passagens”

19 e 20/06/1815

Manuel e Baltazar

6.400

Sem especificação, mas consta que tinham recebido outros 4.800 réis na origem

28/07/1815

João e Manuel

6.400

Sem qualquer especificação

Quadro 1 - Pagamento aos condutores do Piauí. Fonte: MC, Códice Bahia, p. 134-139.

São dados muitos esparsos, mesmo assim sinalizam alguns aspectos interessantes. É possível observar que, no período em questão, com uma razoável variabilidade, os condutores estavam sempre na Bahia de meados para o final do mês, assim como acontecera na primeira viagem, há pouco comentada. A diferença entre as datas de um mês para outro mostra uma certa elasticidade no cumprimento dos prazos. Se elas forem representativas, havia uma razoável lacuna entre a chegada dos estafetas piauienses e a partida das escunas correio para o Rio de Janeiro, as quais, como vimos, estavam programadas para sair em torno do dia 3 de cada mês. Esse intervalo somava-se aos tempos de percurso por terra e mar para compor o prazo de tramitação de ofícios e outros papéis endereçados de Oeiras para a Corte.

Na primeira das viagens, consignaram-se despesas relativas a dois condutores acompanhados por um escravizado e as respectivas cavalgaduras. As viagens seguintes foram todas realizadas, provavelmente, por duplas de escravizados. Apesar de apenas no primeiro caso a documentação o asseverar, a ausência de sobrenomes nos demais, bem como os valores mais baixos envolvidos, parecem indicar que também não eram homens livres. Nessas oportunidades, não há menção a gastos com cavalgaduras, possível indício de que os percursos passaram a ser feitos a pé, tal como acontecia em outras linhas postais da América portuguesa.

O itinerário entre Oeiras e a Bahia não está detalhado nas fontes manuscritas consultadas, mas muito provavelmente seguia os caminhos dos boiadeiros que foram detalhados por Manuel José de Oliveira Bastos em 1819, em texto publicado décadas depois pela Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil (BASTOS, 1867). Os pontos principais do trajeto para Salvador, retratados no mapa da Figura 2, eram o Registro de Juazeiro (atual Petrolina/PE); Juazeiro da Jacobina (atual Juazeiro/BA), Vila Nova da Rainha (atual Senhor do Bonfim/BA), São José das Itapororocas (atual distrito de Maria Quitéria, no município de Feira de Santana/BA) e Cachoeira (Cachoeira/BA). Esses foram também lugares visitados, no sentido inverso, por Spix e Martius na sua célebre viagem entre a Bahia e o Maranhão em 1817. 

Figura 2 - Correio do Piauí à Bahia - 1814

A se confiar nas datas do ofício de Vasconcelos (15 de abril) e da Portaria do Conde de Arcos (24 de maio), o tempo de percurso entre as duas capitais fora de cerca de um mês ou um pouco mais. A distância total percorrida em nosso mapa hipotético é de 142 léguas, mais ou menos, compatível com esse prazo de deslocamento, haja vista as velocidades obtidas em outras linhas postais da época na América portuguesa.

Fonte primária manuscrita

MUSEU CORREIOS, Códice Bahia, 1798-1829.

Fontes primárias impressas

BASTOS, Manoel José d’Oliveira. Roteiro das capitanias do Pará, Maranhão, Piauhy, Pernambuco e Bahia pelos seus caminhos e rios centrais. Revista Trimensal de Historia e Geographia ou Jornal do Instituto Historico e Geographico Brasileiro, t. VIII, 1846. 2ª ed. Rio de Janeiro: Typographia de João Ignacio da Silva, 1867, p. 527-539. 

SPIX, F., Johann Baptist von. Viagem pelo Brasil (1817-1820) - volume 2 . Tradução de Lúcia Furquim Lahmeyer. Brasília: Senado Federal, 2017.




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