Em 24 de fevereiro de 1820, enquanto transcorriam os preparativos para a abertura do correio até o Piauí e a Bahia, o governador do Maranhão, Pinto da Fonseca, respondeu a uma consulta do major Francisco de Paula Ribeiro, comandante do destacamento de Pastos Bons, afirmando que “não trato por ora de abrir correspondência com a capitania de Goiás, pois que presentemente tenho outros muito objetos a que atentar, de mais urgente necessidade” (APEM, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.2.L.290, fl. 241). Tornava claro, assim, que a sua prioridade não era a conexão com o oeste da América portuguesa, mas sim com o Piauí e a Bahia, talvez em função das ligações comerciais mais fortes com aquelas regiões, mas também de maneira a diminuir o tempo de comunicação com o Rio de Janeiro.
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| Figura 1 - Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos - Caxias/MA. Fonte: https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&id=448982 |
Essa prioridade não significou, contudo, que o governador tenha descurado de outros aspectos da comunicação escrita na capitania. Uma parte significativa das ligações internas era realizada pelos rios. Assim, em 1º de setembro de 1820, em defesa do monopólio, mandou publicar editais para que os mestres das canoas entregassem as cartas de particulares ao Correio, com exceção daquelas referentes às cargas transportadas, sob pena de quinze dias de prisão e pagamento do tresdobro das tarifas correspondentes (APEM, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.1.L.54, f. 238). Não, porém, sinais de que tenham sido criadas rotas postais regulares nem representações locais dos Correios para atender a comunicação com o interior da capitania.
Por outro lado, como vimos na postagem anterior, estavam previstas partidas
dos estafetas da cidade do Maranhão para Caxias nos dias 6 e 20 de cada mês. De Caxias, deviam sair todo dia 20 rumo a Oeiras. A
princípio, portanto, as saídas do dia 6 destinavam-se à comunicação de longa
distância, enquanto as do dia 20 priorizavam a conexão regional. Obviamente, nada
impedia que cartas destinadas para a Bahia, por exemplo, fossem postadas a
qualquer momento, mas, nesses casos hipotéticos, haveria um tempo de retenção
dessas correspondências, a ser somado ao prazo normal de transporte.
Todavia, os dias fixados para as partidas ainda eram um experimento, a ser ajustado na prática. Dúvidas cercavam o projeto, inclusive no que se refere aos possíveis tempos de deslocamento entre as localidades envolvidas, uma realidade condicionada até mesmo pela época do ano, haja vista a interferência das chuvas (APEM, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.1.L.61, fl, 349).
Os termos em que Pinto da Fonseca vazou suas ordens naquele momento mostram certo desconhecimento da realidade dos caminhos para além do rio Parnaíba, pois previu um tempo de percurso entre Caxias e Oeiras (sete ou oito dias) bem inferior àquele entre São Luís e Caxias (até treze ou quatorze dias), apesar de as distâncias serem, mais ou menos, as mesmas. A previsão dele era que os estafetas chegariam a Oeiras por volta do dia 27 ou 28 de cada mês, “sobejando-lhe ainda três ou quatro dias para as demoras acidentais” (APEM, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.1.L.61, fl, 349) – ou seja, acreditava que as ligações da capital piauiense para a Bahia partiriam em algum dos dois primeiros dias do mês seguinte.
Na prática, como vimos em postagem anterior, os indícios são de que os condutores do Piauí saíam de Oeiras para a Bahia em meados de cada mês. Desse modo, apesar do erro de cálculo inicial, aparentemente a conexão se ajustou sem que houvesse necessidade de adiantar as datas de saída no Maranhão, como é possível verificar nos vários registros de partidas dos correios em São Luís disponíveis na documentação maranhense (Quadro 1).
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Datas de partida |
Fontes |
Ofícios encaminhados |
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06/06/1820 |
Livro 61– 1819 a 1820, fls.
352-353. |
Não consta |
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06/10/1820 |
Livro 290 – 1811-1821, fl.
216. |
14 ofícios, datados de 16/09 a
04/10/1820 |
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06/11/1820 |
Livro 290 – 1811-1821, fls.
217-218 |
6 ofícios, datados a partir de
04/11/1821 (quatro deles tiveram o texto reservado, de modo que não há como
verificar datas). O primeiro deles teve a 1a. Via encaminhada pelo correio de
Pernambuco de 26/10/1820 |
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06/12/1820 |
Livro 290 – 1811-1821, fl.
221. |
4 ofícios, datados de 01 a
05/12/1820 |
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06/01/1821 |
Livro 290 – 1811-1821, fl.
229; Livro 61.1 – 1820 a 1822, fl. 6. |
7 ofícios, datados de
29/12/1820. 1 ofício teve 2a via encaminhada pelo brigue Amazona, que saiu
para o Rio de Janeiro em 19/01/1821. Esse brigue também levou o primeiro
ofício de 1821, com texto reservado e data desconhecida. |
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01/02/1821 |
Livro 290 – 1811-1821, f.
245. |
4 ofícios, datados de 29 a
31/01/1821 |
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01/03/1821 |
Livro 290 – 1811-1821, fl.
262; Livro 61.1 – 1820 a 1822, fl. 6. |
2 ofícios, datados de
28/02/1821 |
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01/04/1821 |
Livro 61.1 – 1820 a 1822, fls.
7-8. |
1 ofício, datado de 20/03/1821 |
As lacunas existentes no Quadro 1 não significam que não houve saídas nos meses respectivos. A primeira saída dos condutores data de junho de 1820. Depois disso, apenas a partir de outubro de 1820, até abril do ano seguinte, vigorou o procedimento de se registrarem as margens dos livros de ofícios expedidos os meios de encaminhamento empregados em cada caso. Trata-se, assim, apenas de uma amostra, a faltar os meses de julho a setembro de 1820 e os posteriores a maio de 1821, inclusive. Embora nem sempre fosse obedecida a previsão de saídas no dia 6, os dados recolhidos indicam uma razoável regularidade, com elas sempre acontecendo entre o primeiro e o sexto dia de cada mês.
Embora não tenha sido encontrado nenhuma fonte a especificar como seria a estrutura de encaminhamento implantada no trecho maranhense, um ofício de 10 de dezembro de 1821 refere-se ao pagamento do "salário de costume" aos soldados Manuel do Nascimento Ferreira (da infantaria de linha) e Joaquim José de Santana (do regimento de pedestres), que tinham chegado à São Luís, vindos de Caxias, com a mala de cartas do Piauí e da Bahia (APEM, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.1.L.63, fl. 172). O documento sugere, portanto, que o trabalho era realizado por duplas de militares.
Em outro ofício, de 6 de fevereiro de 1822, o comandante de Anajatuba informava que os estafetas estavam se atrasando ali, por falta de transporte. Quando fossem necessárias cavalgaduras para atravessar o campo no tempo das cheias, deveria ser pago o importe do aluguel delas para evitar esses atrasos (APEM, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.1.L.63, fl. 193). Desse modo, provavelmente, esses condutores deslocavam-se habitualmente a pé, sendo autorizada a despesa adicional apenas em casos extraordinários, nos trechos do caminho onde isso fosse necessário.
A chegada das notícias sobre a Revolução Liberal do Porto, entretanto, começou a interferir no ritmo das comunicações poucos meses depois da implantação do novo sistema. O ofício nº 6, de 6 de fevereiro de 1821, informava à Corte os desdobramentos do movimento no Pará, onde o governador fora deposto e se instalara uma Junta Governativa, conforme mensagens recebidas pelo correio daquela capitania no dia anterior. Como a linha postal regular já partira no dia 1º, o ofício foi encaminhado por soldados destinados a Oeiras, no próprio dia de sua emissão, com ordem para que, se fosse preciso, prosseguissem até à Bahia, um indicativo da importância que se dava àquele assunto. No dia seguinte, uma segunda via foi enviada pela sumaca Magahona, destinada à Pernambuco (APEM, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.2.L.290, fl. 249). No texto do ofício, o governador maranhense informava que "Tendo vindo na mala do correio uma carta com sobrescrito para V. Exa. da tal intitulada Junta do Pará, julguei conveniente remetê-lo [sic] incluso para se não ir vendo tal sobrescrito pelos diferentes correios" (APEM, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.2.L.290, fl. 249), um inequívoco sinal do extremo cuidado adotado no caso.
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| Figura 2 - Igreja Matriz de Nossa Senhora da Vitória - Oeiras/PI (1773). Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_Matriz_de_Nossa_Senhora_da_Vit%C3%B3ria |
A urgência instaurada pelos acontecimentos pode ser observada em novos envios logo a seguir. Em 23 de fevereiro, dois ofícios (de nº 7 e 8) foram expedidos para o Rio de Janeiro via Pernambuco, a dar continuidade às notícias sobre o Pará, por meio da escuna de guerra Maria Zeferina, sem esperar os correios de terra para a Bahia, que partiram no dia 1º de março com mais um comunicado (APEM, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.2.L.290, fl. 258-262). Em 21 de março, novas mensagens foram enviadas à Corte, com uso da sumaca Santo Antônio Venturoso, destinada ao Rio de Janeiro, com escala por Cabo Verde (APEM, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.2.L.290, fl. 263; APEM, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.2.L.61.1, fl. 8).
Durante o período em que foram anotados os dados de encaminhamento dos ofícios para o Rio de Janeiro, apenas um deles teve uma cópia remetida pelo correio de terra de Pernambuco, em 26 de outubro de 1820 (APEM, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.2.L.290, fl. 218). Note-se que, na mesma época, o governo maranhense optou por enviar suas correspondências com conteúdo sensível para a Corte por meio de navios mercantes e de guerra que passavam por aquela mesma capitania.
Esse comportamento pode ser indício de um falta de confiança naquela linha postal, ou mesmo de ela realmente ter apresentado descontinuidades naqueles meses, apesar de, pouco tempo antes, as autoridades portuguesas a terem oficializado como o principal sistema de comunicação daquela região da América.
É o que veremos em breve, mas antes disso, na próxima postagem, daremos uma olhada em como fora ajustada a conexão entre o Pará e São Luís.
Fontes primárias manuscritas
ARQUIVO Público do Estado do Maranhão - APEM, Secretaria de Governo, Livro de registro da correspondência do Governador e Capitão-General, 1804-1821, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.1.L.54.
ARQUIVO Público do Estado do Maranhão - APEM, Secretaria de Governo, Livro de registro da correspondência do Governador e Capitão-General, 1819-1820, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.1.L.61.
ARQUIVO Público do Estado do Maranhão - APEM, Secretaria de Governo, Livro de registro da correspondência do Governo com diversas autoridades, 1820-1821, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.1.L.61.1.
ARQUIVO Público do Estado do Maranhão - APEM, Secretaria de Governo, Livro de registro da correspondência do Governador e Capitão General, Junta Provisória e Administrativa do Maranhão, 1821-1822, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.1.L.63.
ARQUIVO Público do Estado do Maranhão - APEM, Secretaria de Governo, Livro de registro da correspondência do do Governador e Capitão-General, 1811-1821, BR MAAPEM.1.S.9.Ss.2.L.290.


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