Na postagem anterior, viu-se que, durante a sua implantação, o projeto original de Manuel de Inácio Sampaio de estender as linhas postais cearenses até o Maranhão foi modificado, com a troca do Presídio da Amarração pela vila de Parnaíba como o ponto de conexão entre os condutores vindos de Granja e aqueles a serem enviados pelas capitanias mais ao Norte. Ali também foi implantada uma Agência em 1815.
![]() |
| Figura 1 - “Cópia da Villa de São João da Parnaíba”, 1809. Fonte: REIS, Nestor Goulart. Imagens de Vilas e Cidades do Brasil Colonial, de Nestor Goulart Reis, 2000. |
A respeito dessa parte do projeto, infelizmente não tivemos, até agora, acesso a fontes primárias, mas apenas à reconstituição que Hugo Victor (1947) fez dela em uma edição do Almanaque de Parnaíba, em que são transcritos trechos de documentos da época, mas sem incluir as referências arquivísticas originais.
De acordo com aquela fonte secundária, em 31 de agosto de 1815, como fruto de um acordo com o governador do Piauí e com autoridades da vila, Sampaio nomeou o capitão João José de Sales agente do Correio Cearense em Parnaíba (VICTOR, 1947, p. 319). É provável que ele já fosse o encarregado da entrega e postagem das cartas trocadas via marítima naquele lugar, que fora integrado à malha dos correios marítimos desde 1798. Para as trocas de papeis realizadas por meio daquele modal de transporte, Parnaíba era ponto de passagem obrigatório até à sede da capitania, Oeiras, situada em pleno sertão.
Em Pernambuco também um mesmo indivíduo acumulava os títulos de administrador local dos Correios e de agente dos Correios do Ceará. Tais fatos, bem como a constatação de os documentos também se referirem a "correios do Ceará" mesmo no caso das linhas postais situadas além das fronteiras daquela capitania, sinalizavam provavelmente não apenas o reconhecimento do protagonismo de Sampaio na implantação do sistema, mas também dificuldades de percepção da nova rede como parte de um sistema mais amplo, de envergadura imperial ou trans-regional, destinado a integrar o conjunto das capitanias.
Isso não impediu que, com o objetivo de viabilizar a implantação da nova agência, o negociante de Recife Domingos José Martins (depois um dos líderes da Revolução de 1817) e alguns moradores de Parnaíba tinham lançado uma subscrição, que recolheu 996 mil réis “para suprir as despesas do estabelecimento no caso inesperado que excedam a receita” (VICTOR, 1947, p. 319).
Essa mobilização dos esforços de indivíduos de diferentes localidades mostrava o interesse de parte da população, ou pelo menos de seus setores mais abastados, na implantação do novo sistema postal, provavelmente para atender necessidades de comércio trans-locais. Note-se também que o procedimento estava de acordo com a recomendação da Coroa a Silva Gama de que "para o pagamento dos condutores e mais despesas da manutenção do Correio, V. Ex. proporá o meio que julgar mais próprio e menos oneroso aos Povos e à Fazenda Real para se haver o dinheiro necessário para este objeto [instalação dos Correios]" (Decisão nº 22, de 28 de junho de 1813).
Segundo Victor (1947, p. 319), no trecho entre Parnaíba e Granja, as tarifas eram de, respectivamente, 80 réis até o peso de quatro oitavas para as cartas e de 80 réis por oito oitavas para as “gazetas, autos e outros quaisquer papéis cintados sem capas fechadas”. Se essa informação estiver correta, o valor do primeiro porte das cartas equivalia a dois terços daquele anunciado em 1813 pela Gazeta do Rio de Janeiro para as cartas de "comunicação interior" do Correio cearense. Se os demais governadores não baixaram as tarifas nos outros ramais – o que alteraria todo o equilíbrio econômico-financeiro do sistema –, estamos diante de uma matriz tarifária microrregional, a ser aplicada apenas no caso das trocas entre aquelas duas vilas limítrofes entre o Ceará e o Piauí.
De acordo também com Victor (1947, p. 319), eram empregados no novo trecho entre Granja e Parnaíba dois condutores indígenas, que recebiam cada um quatro patacas (1.280 réis) por viagem, o valor por légua mais baixo a ser pago em toda aquela rede.
Na época, algumas linhas postais, na América portuguesa, eram percorridas por duplas de homens, mais por questões de segurança do que pelo volume da carga a ser transportada, já que a quantidade de cartas geralmente era pequena. Todavia, nos demais trechos das linhas cearenses, com exceção daquele entre Goiana e Pernambuco, o serviço era executado por um condutor solitário. Assim, a referência a dois deles no caso pode estar ligada ao incremento da frequência das viagens.
Ainda segundo Victor, havia quatro ligações por mês entre Granja e Parnaíba, uma informação que, como as outras referentes a esse caso, não conseguimos confirmar em fontes primárias. Como não existe nenhuma indicação de que nos outros segmentos da rede se tenha implantada frequência semelhante, essa pode ter sido uma decisão regional, ligada a supostas ou reais necessidades de comunicação mais rápida entre as duas localidades. Inclusive as chegadas em São Luís eram mensais.
Houve, portanto, uma mudança no sistema de condução das cartas implantado inicialmente, de tal modo que a rota entre Fortaleza e São Luís passou a contar com três grandes segmentos: entre Fortaleza e Granja; entre Granja e Parnaíba; entre Parnaíba e São Luís (por sua vez, subdivido em partes menores, como vimos na postagem anterior).
![]() |
| Correios do Ceará - 1814-1815. |
Referências


Nenhum comentário:
Postar um comentário