Antes de prosseguir com o estudo das linhas postais do Norte e Nordeste durante as guerras da independência, faremos um desvio, de modo a tratar, nas próximas postagens, dos paquetes ingleses que, desde 1808, incluíram portos brasileiros em sua rota. Para tanto, nesta e na seguinte, vamos vamos um recuo até os séculos anteriores, para explicar como se constituiu aquele serviço de correios marítimos.
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| Figura 1 - Batalha entre Rossie e o paquete Princess Amelie (1812). Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Post_Office_Packet_Service |
Entre os séculos XVI e XVIII, a expansão dos sistemas de
correios modernos acompanhou não só a consolidação e expansão das principais
monarquias na Europa, mas os principais fluxos comerciais (Salvino, 2020). Foi
nesse contexto que surgiram também os primeiros correios marítimos com
frequência regular e rotas pré-determinadas, desde logo conhecidos em inglês como packet boats, expressão que resultaria em paquebote (espanhol e
português arcaico) e paquete (português, principalmente a partir da segunda metade do século XVIII).
A primeira experiência nesse sentido aconteceu a partir de
1589, a ligar o porto galês de Holyhead à Dublin, na Irlanda (Pawlyn, 2003). No início do século seguinte, paquetes também
conectaram Dover com Calais, na França, e Ostende, nos Países Baixos, bem como
Harwich, com Hellevoetsluis, também nos Países Baixos, propiciando aos
britânicos portas de entrada para os diversos países da Europa. Em 1647, o
padre Antônio Vieira (1854, t. 1, p. 5) chegou a utilizar um dos navios da linha
de Dover para cruzar o Canal da Mancha, por julgá-lo “seguro de corsários”.
Em 1688, com a eclosão da chamada Guerra dos Nove Anos, a
rota de Calais foi substituída por uma ligação com La Coruña, na Espanha. O
porto de saída desses paquetes era Falmouth, na Cornualha, criado sob gestão do
Correio inglês. Até aquele momento, o lugar era um embarcadouro pequeno, sem
relevância comercial e considerado distante de Londres. A realização de
investimentos ali já sinalizava a intenção de se criar uma alternativa para
ligações mais rápidas com o Atlântico e o Mediterrâneo. Falmouth não apenas
tinha uma localização privilegiada nesse sentido, mas seu porto, protegido pelo
promontório de Meneage, oferecia uma ancoragem muito segura, mesmo diante das
maiores tempestades (Norway, 1895, p. 17)
Com a paz em 1697, o serviço de Dover para Calais e Ostende foi restaurado. Contudo, depois de uma relação conflituosa com a administração postal francesa, ambas as operações seriam novamente interrompidas com o início da Guerra da Sucessão Espanhola (1702-1714). Para manter a conexão com a Península Ibérica, os barcos destinados à Espanha foram então desviados para Lisboa, com ligações inicialmente quinzenais (Joyce 1893, p. 77-78). Não conseguimos apurar exatamente quando esse procedimento teria começado, mas, a se confiar em Norway (1895), teria sido por volta de 1704, antes de ter sido oficializado por meio de um tratado.
Ainda durante a guerra, foram criadas mais
duas rotas de paquetes. A primeira delas funcionou, de modo ininterrupto, entre
1702 e 1711, também centralizada em Falmouth. Destinava-se às Índias
Ocidentais, com paradas em Nevis, Saint Christopher, Antigua, Jamaica e
Montserrat. A segunda prolongou-se, de modo intermitente, entre 1710 e 1715.
Conectava Bristol com Nova Iorque, mas, em algumas das travessias, incluiu
paradas também em Filadélfia e Newport.
Algum tempo depois do estabelecimento das ligações com Lisboa, a quantidade de embarcações nelas empregadas subiu de duas para cinco, com viagens todas as semanas. A partir da assinatura o Tratado de Methuen [1], em 1703, intensificaram-se as relações comerciais entre Portugal e Inglaterra e, como consequência, a troca de correspondências relativas a esses negócios. No entanto, Joyce (1893, p. 78), sem indicar fonte, assevera que o aumento da quantidade de navios “deveu-se a razões mais políticas do que comerciais”, pois o pretendente ao trono da Espanha, o arquiduque Carlos, mudara-se para a capital portuguesa, depois de passar por Londres.
A oficialização dessas novas ligações aconteceu em 20 de fevereiro de 1705, mediante a assinatura de um Tratado entre os Correios de Portugal e a Espanha. A Coroa inglesa ficou responsável por manter as ligações semanais entre os portos de Falmouth e Lisboa. O correio português, por outro lado, pagaria 600 réis por onça de cartas recebidas da Inglaterra. Dez por cento do total arrecadado nos dois sentidos seriam reservados para remunerar a entrega das cartas em cada país. A prestação de contas entre as partes deveria ser, no máximo, trimestral, com saldo a favor dos ingleses enviado por meio de letras de câmbio (Tratado, 2008, p. 293-295).
Os
paquetes entre Falmouth e Lisboa eram isentos da fiscalização aduaneira, por
terem o estatuto de navios diplomáticos. Embora o transporte de mercadorias
neles fosse proibido, acontecia na prática, com participação não só de
comandantes e oficiais, mas de todas as tripulações. Norway (1895, p. 94-95), referindo-se ao final do século XVIII, chegou a afirmar que, em uma versão
própria de “livre comércio”, os barcos para Lisboa
exportavam todo tipo de produtos manufaturados, frequentemente no valor de £ 4.000 em uma única viagem. Essas não eram, de forma alguma, especulações apenas do capitão ou dos oficiais. Os marinheiros negociavam, cada um, por sua conta. Cada homem tinha seu próprio espaço de armazenamento reservado sob o teto do castelo de proa. Ali, seus "empreendimentos" eram suspensos, e ninguém ousava reivindicá-los. [2]
Em 1705, pouco depois de ter sido firmado o acordo entre os Correios dos dois países, Sir Paul Methuen (o mesmo que deu nome ao tratado de 1703), provavelmente pressionado pelos portugueses, fez uma representação formal à administração britânica sobre o contrabando nos paquetes, afirmando que Lisboa se transformava em um mercado público de produtos ingleses assim que aquelas embarcações chegavam (Joyce, 1893, p. 91). Em 6 de outubro do mesmo ano, tendo em vista "“a devassidão com que se desencaminham os direitos das fazendas que vêm nos paquebotes” (ANTT, Gavetas, Gav. 2, mç. 4, n. 24), o rei D. Pedro II proibiu que qualquer pessoa, "de qualquer condição ou qualidade" fosse a bordo deles, sob pena de multa e de trinta dias de prisão. As mesmas punições, mais a perda dos barcos, seriam aplicáveis aos arrais ou fragateiros (operadores das fragatas, pequenas embarcações do Tejo) que levassem alguém a bordo dos paquetes.
Mudou o soberano, passaram-se os anos, mas os problemas persistiram. Assim, em 16 de agosto de 1722 D. João V voltou à carga, “para evitar os descaminhos que se fazem à minha Fazenda por alto assim dos paquebotes como de quaisquer outros navios e embarcações” (ANTT, Gavetas, Gav. 2, mç. 4, n. 60). Proibia-se agora, de forma mais matizada, que qualquer pessoa fosse a bordo antes do término da descarga de mercadorias sem autorização por escrito do Provedor da Fazenda. A pessoa eventualmente autorizada deveria passar obrigatoriamente pela Alfândega. Proibia-se também no porto de Lisboa o uso de catraias ou canoas, embarcações de porte menor que estavam a substituir as antigas fragatas.
Desde cedo, multiplicaram-se também as acusações de que aqueles navios serviam ao contrabando de ouro e diamantes vindos do Brasil. No final da década de 1740, esse argumento chegou a ser utilizado contra um projeto de criação de paquetes portugueses entre Lisboa e os principais portos do Brasil. Naquela ocasião, entre outras objeções, os opositores da proposta chegaram a alegar que a iniciativa poderia se prestar a contrabando semelhante ao existente entre Falmouth e a capital lusa (Salvino, 2018). A retomada do assunto mais de duas décadas depois da Lei de 1722 é sintoma de que os velhos problemas continuavam.
A despeito disso, os paquetes britânicos continuaram a circular sem interrupções para Lisboa durante todo o século XVIII. Além dessa rota e daquelas para o Mar do Norte e a Irlanda, a partir das décadas de 1740 e 1750 seriam reativadas as linhas para as Índias Ocidentais e para a América do Norte, ambas agora centralizadas em Falmouth. Os dois roteiros seriam mantidos até meados do século XIX, quando foram substituídos por navios a vapor baseados no porto de Southampton. Os novos paquetes de Falmouth para as Índias Ocidentais circularam entre 1746 e 1749 e voltaram ao serviço entre janeiro de 1756 e dezembro de 1851. A rota de Falmouth para a América do Norte voltou a funcionar em dezembro de 1755 e resistiu também até o final da década de 1840. Mesmo durante as guerras com as antigas colônias inglesas, os navios correio continuaram seus giros, ainda que com a troca de alguns portos de destino. Nos asnos seguintes, também seria criada uma linha para o Mediterrâneo, passando por Cádiz, Gibraltar, Malta, Corfu, Pátras e Alexandria, com paradas eventuais em Lisboa. A localização dos portos de packet boats durante a segunda metade do século XVIII e a distribuição das rotas entre eles podem ser vistas no mapa da Figura 2.
Diferentemente do que aconteceria depois nos sistemas
espanhol e português, os paquetes ingleses pertenciam a armadores particulares,
até serem substituídos, durante algum tempo, pelos navios da Armada a partir de
1823. Geralmente, os próprios comandantes eram donos de parte substancial
deles. Por outro lado, segundo Norway (1895, p. 32) “eram muito poucos os
funcionários [dos Correios], desde o secretário até os porteiros, que não
possuíssem ações nos paquetes”. Essa situação teria dado margem à leniência na fiscalização dos serviços,
haja vista que a participação nos lucros dos navios conflitava com a defesa mais profunda dos interesses
da Coroa.
Para manter os paquetes, os Correios asseguravam os salários
das tripulações, a remuneração do capital investido e as despesas relativas a
mantimentos, munições, seguro das embarcações, tarifas portuárias, além de
outros custos. Se a operação era deficitária para a Fazenda inglesa, resultava
bastante lucrativa para seus operadores e fomentava a economia local em
Falmouth.
É comum encontrarmos na historiografia e nas memórias locais
referências ao enriquecimento dos comandantes dos navios, cujas rendas seriam
alimentadas não somente pelos pagamentos realizados pelos Correios, mas pela já
mencionada prática de contrabando. As práticas relativas ao transporte de
passageiros nos paquetes variaram, mas no final do século XVIII estava
oficializada, com tarifas estabelecidas de modo centralizado, sendo que a maior
parte dos valores recebidos ficava com os acionistas dos navios. O transporte
de valores, seja de barras de ouro e prata, pedras preciosas e dinheiro e
espécie também se tornou regular. Na rota para Lisboa, os valores eram
divididos meio a meio, enquanto naquelas atlânticas, mais longas e mais
perigosas, apenas um terço ficava com os Correios.
No início da década de 1790, haja vista os prejuízos
estruturais, surgiu uma proposta para diminuir os valores dispendidos com os
paquetes, mediante, inclusive, a mudança dos tipos de navio e a redução das
tripulações (Norway, 1895, p. 37; Hemmeon, 1912, p. 128; Pawlyn, 2003, p.
123-124). Todavia, a eclosão do conflito
com o governo revolucionário francês, a partir de 1793, atrapalhou esses
planos. A segurança das cargas transportadas
e a velocidade das travessias permeariam todas as discussões. O incremento de
canhões e homens contribuía com a segurança, mas tendia a impactar
negativamente os tempos de viagem. Alguns defendiam que navios velozes, capazes
de fugir de todos os atacantes sem lhes dar combate, eram a solução ideal, mas
as discussões foram acaloradas, a opor em certos momentos os administradores
dos Correios e os homens de negócio.
De qualquer modo, se em 1793 foram dispendidos £45.666 com
os paquetes, em 1796 esse valor subiria para £77.599, dos quais £60.444 apenas
com aqueles baseados em Falmouth (Hemeon, 1912, p. 129). Além dos custos
normais com a operação e a despeito do sistema de seguros em vigor, os gastos
dos Correios ascenderam ao longo da década com o pagamento de
indenizações. No final do século XVIII,
o serviço acumulava um prejuízo anual de mais de £12.000, fora as indenizações
pelos paquetes capturados, que montavam a mais de £34.000 (Norway, 1895, p.
71).
A ordem era que, em casos de ataques, os paquetes sempre
procurassem fugir e que, diante do risco de abordagem, a mala com as
correspondências fosse jogada ao mar, para que segredos, sejam comerciais sejam
de governo, não caíssem em mãos inimigas.[3] Enfrentamentos, todavia, aconteciam, várias
vezes com perda dos navios e dos valores transportados, apesar da resistência
das tripulações em vários casos.
Fontes manuscritas
ANTT - Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lei pela qual D. Pedro II proibia que nenhuma pessoa, qualquer que fosse a sua qualidade ou condição, pudesse entrar ou ir a bordo dos paquetes. 6 de outubro de 1705. Gavetas, Gav. 2, mç. 4, n.º 24.
ANTT - Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lei pela qual D. João V proibia que se pudesse ir a bordo dos paquetes e mais embarcações, quer fossem portuguesas quer estrangeiras, antes de descarregarem as mercadorias. 16 de agosto de 1722. Gavetas, Gav. 2, mç. 4, n.º 60.
AZEVEDO, J. Lúcio de. No signo de Methuen. In: AZEVEDO, J. Lúcio de. Épocas de Portugal econonómico: esboços de história. 2 ed. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1947.
BATISTA, Felipe de Alvarenga. Os tratados de Methuen de 1703: guerra, portos, panos e vinho. Dissertação de mestrado em Economia Política Internacional. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2014.
HEMMEON, J. C. The History of the British Post Office. Cambridge: Harvard University, 1912.
HOWAT, Jeremy Noel Thomas. South American Packets: The British Packet Service to Brazil, the River Plate, the West Coast (via the Straits of Magellan) and the Falkland Islands, 1808-80. London: The Postal History Society; York: William Sessions, 1984.
JOYCE, Herbert. The History of the Post Office from its Establishment Down to 1836. London: Richard Bentley & Son. 1893.
NORWAY, Arthur H. History of the Post-Office Packet Service Between the Years 1793-1815. London: Macmillan, 1895.
OLENKIEWICZ, J. S. British Packet Sailings. Bristol - North America:1710-1715. Falmouth - North America:1755:1840 and mail boats. 2018a. Disponível em: <https://www.gbps.org.uk/information/downloads/postal-history.php>. Acesso em: 6 fev. 2025.
OLENKIEWICZ, J. S. British Packet Sailings. West Indies: Edmund Dummer Packets (1702-1711) – Falmouth Packets (1745-1749 and 1756-1841). 2018b. Disponível em: <https://www.gbps.org.uk/information/downloads/postal-history.php>. Acesso em: 6 fev. 2025.
PAWLYN, Tony. The Falmouth Packets: 1689-1851. Cornwall, Truran, 2003.
SALVINO, Romulo Valle. Entre pontes e muros: Tentativas de implantação do correio marítimo entre Portugal e o Brasil na primeira metade do século XVIII. Varia Historia, v. 34, n. 64, p. 15-49, 2018.
SALVINO, Romulo Valle. Guerras de papel: comunicação escrita, política e comércio na monarquia ultramarina portuguesa. Jundiaí: Paco Editorial, 2020.
STEELE, Ian K. The English Atlantic, 1675-1740: an Exploration of Communication and Community. Oxford: Oxford University, 1986.
TRATADO entre o correio-mor de Portugal e o da Grã-Bretanha. In: FERREIRA, Godofredo (comp.). Documentos dos séculos XIII a XIX relativos a correios. Lisboa: Fundação Portuguesa das Comunicações, 2008. Edição em CD-Rom.
VIEIRA, Antonio. Cartas do Padre Antonio Vieira. v.1. Lisboa: J.M.C. Seabra & T.Q. Antunes, 1854.
NOTAS
[1] O tratado de Methuen (1703), celebrado entre Portugal e Inglaterra, foi também conhecido como “dos panos e dos vinhos”. Por meio dele, Portugal franqueava seu território aos tecidos ingleses, enquanto a Inglaterra liberava a entrada dos vinhos portugueses. Azevedo, 1947; Sodré,1965; Batista, 2014.
[2] No original: “The Lisbon Packets
exported every kind of manufactured goods, often to the value of £'4000 on a
single voyage. The seamen traded, each on his own account. Every man had his
own stowage space reserved under the ceiling of the forecastle. Here his
"ventures" were suspended, and no one claimed to interfere with them”
(tradução nossa).
[3] De
acordo com a fórmula reproduzida por Norway (1895, p. 38). “Você deve correr para onde puder. Você
deve lutar quando não puder mais correr, e quando não puder mais lutar, você
deve afundar as cartas antes de investir."
No original: “You must
run where you can. You must fight when you can no longer run, and when you can
fight no more you must sink the mails before you strike."



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