sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Os Correios Marítimos da Bahia (1812-1822) – parte 5

Mesmo com a perda da Tártara, desviada para guerra na região platina, a operação dos paquetes entre o Rio de Janeiro e a Bahia foi relativamente regular durante todo o primeiro semestre de 1817. Somente em fevereiro não houve saídas dos navios nos dois portos.

Bênção das bandeiras da Revolução de 1817, óleo sobre tela de Antônio Parreiras. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_Pernambucana 


Em março daquele ano, eclodiu a Revolução Pernambucana. Durante os enfrentamentos, o porto do Recife foi bloqueado, com a decisiva participação de navios baianos. As duas escunas artilheiras dos Correios, porém, foram mantidas na sua atividade, um sinal da importância dada à comunicação com a Corte naquela conjuntura.

Em 20 de maio o governo revolucionário rendeu-se, diante do avanço das forças legalistas, um esforço em que o Conde dos Arcos, teve um papel central. Dez dias depois, a Pandura largou velas para o Rio de Janeiro, a antecipar a viagem de junho. De que levava despachos relativos à repressão do movimento não há dúvidas, pois, pouco depois, a imprensa baiana anunciou a promoção a capitão-tenente do comandante da escuna, Raimundo Eustáquio Monteiro, “por ter sido o portador dos ofícios em que o governador e capitão general da capitania da Bahia participou as primeiras notícias que tivera da sujeição de Pernambuco” (Idade d’Ouro do Brazil, n. 60, 1º agosto de 1817).

O secretário de governo do Reino, Tomás Antônio de Vila Nova Portugal, chegou a repreender o Conde de Arcos por mandar fuzilar sumariamente o Padre Roma, um dos líderes da revolta de Pernambuco, que fora à Bahia na tentativa de expandir o movimento. Apesar disso, o governador foi nomeado, em julho de 1817, titular da Secretaria de Negócios da Marinha e Ultramar, cargo do qual tomou posse em fevereiro de 1818, uma promoção para a qual parece ter contribuído o seu decisivo posicionamento durante a revolta.

Talvez seja uma mera coincidência, mas, a partir da volta do Conde ao Rio de Janeiro, quando passou a ter a gestão da Armada, as partidas dos paquetes para a Bahia tornaram-se bastante regulares. Entre março de 1818 e o final de 1821, as escunas não deixaram a Corte apenas quatro vezes – maio de 1819, junho de 1820, maio e novembro de 1821 (NOTÍCIAS, 2024). Em 37 das 41 (90,24%) ocorrências com registros completos, as embarcações partiram no dia 3 de cada mês, como previsto no projeto original da Bahia para as viagens iniciadas naquela cidade. Em apenas um caso (2,4%) a saída foi antecipada em 8 dias; nos 3 casos restantes (7,32%) ocorreu até o dia 8. Tendo em vista a situação anterior, de constantes atrasos e irregularidade nas viagens, é difícil não ver o dedo do novo secretário de governo na mudança.

Em 20 de novembro de 1818, por ordem do Conde dos Arcos, estabeleceu-se que, nove vezes por ano, em dias certos, sairiam correios marítimos do Rio de Janeiro para Lisboa (Decisão nº 14, de 20 de novembro de 1818; AHU_ACL_CU_017, Cx. 281, D. 19630; SALVINO, 2022; FORTUNATO, 2023, p. 274). As exceções seriam os meses de abril, agosto e dezembro, mas, na prática houve algumas variações em torno dessa previsão. Os navios deveriam sempre tocar na Bahia na ida e na volta. Tal sistema será abordado com mais detalhes nas postagens que dedicaremos ao fluxo postal ente o Brasil e Portugal, mas já cabe observar aqui que, com a implementação dele, incrementaram-se as ligações entre a Corte e a Bahia. Desse modo, entre 1819 e 1821, as duas localidades não ficaram nenhum mês sem a ligação postal, pois em todos aqueles em que as escunas não saíram do Rio de Janeiro, foram cobertas pelas embarcações que tinham Lisboa como destino (NOTÍCIAS, 2024).

Embora em 1821 ainda tenha havido dez viagens dos paquetes baianos, já começaram a se observar sinais de declínio da capacidade operacional dos navios dedicados ao circuito. A primeira a deixar o serviço foi a mais nova das escunas, a Afra, que fez sua derradeira viagem em abril daquele ano. Em julho, foi a vez da Pandura partir uma última vez para a Bahia. Daquele porto, no mês seguinte, o seu antigo comandante, o Capitão-Tenente Raimundo Eustáquio Monteiro, saiu com uma nova embarcação, a sumaca Conceição, claramente identificada na imprensa como “correio da Bahia” (GAZETA, 1821). 

Segundo Esparteiro (1976, p. 54; 69), tanto a Pandura quanto a Afra e a Kalmuka estavam condenadas na Bahia em 1822. Essa afirmação é confirmada parcialmente por dois ofícios da Junta Governativa daquela capitania, datados de 19 e 21 de de outubro de 1821, segundo os quais não fora possível o envio da mala postal previsto para o dia 3 daquele mês, haja a vista a falta de uma embarcação apta para tanto. De acordo com tais fontes, determinara-se a construção de uma nova escuna para substituir a Pandura, que, "por estar podre", fora retirada do serviço dos Correios  (Gazeta do Rio de Janeiro, n. 109, de 10 de novembro de 1821). A mala acabou seguindo apenas no dia 20 pelo brigue 13 de maio que, por sorte, ali aportara vindo de Lisboa (idem). Por outro lado, uma escuna com o nome de Kalmuka integrou a flotilha brasileira do Prata em 1823 (LAURENZANO, 2008, p. 116; GUERRA FILHO, 2023, p. 253). Pode ser tanto que o antigo paquete tenha sido recuperado para completar os quadros da nova Marinha brasileira, quanto dado lugar a um homônimo.

De qualquer modo, 1822 marcou o encerramento dessa primeira geração de navios correio costeiros. Em janeiro daquele ano, o Conde dos Arcos foi demitido por D. Pedro e enviado para Portugal. Em fevereiro, na Bahia, o general português Luís Madeira de Melo, nomeado Governador das Armas por Lisboa, assumiu o controle militar da capital da província. Em junho, a vila de Santo Amaro da Purificação revoltou-se contra Madeira, e a vila de Cachoeira aclamou D. Pedro como Defensor Perpétuo do Brasil, tornando-se capital provisória de um governo contra o general. A guerra prosseguiu nos meses seguintes, culminando com o bloqueio naval da Baía de Todos os Santos, até a derrota das forças portuguesas em 1823 (GUERRA FILHO, 2023).

Marinha do Brasil - Combate de 4 de maio de 1823 - Mar aberto perto de Salvador, Bahia. Disponível em: https://www.flickr.com/photos/mboficial/with/52327535735 


Em 1822, apenas a Conceição circulou duas vezes, com a última saída do Rio de Janeiro em maio daquele ano, pouco antes da eclosão dos enfrentamentos maiores na Bahia. Aparentemente não foi mais devolvida para o Rio. Como vimos em uma postagem anterior, uma sumaca com o mesmo nome prestou serviços à Coroa portuguesa na África nos anos seguintes, mas, com os dados até agora disponíveis, não há como assegurar que se tratasse da mesma embarcação.

Era o fim do sistema de paquetes implantado pelo Conde dos Arcos uma década antes. Os navios correio voltariam a circular entre o Rio de Janeiro e a Bahia algum tempo depois, já durante o período imperial, mas eram outras embarcações, com outra organização operacional, a atender outro sistema logístico – uma outra história, em suma, a ser trazida aqui futuramente.

Fontes manuscritas

OFÍCIO do [secretário de estado da Marinha e Ultramar no Brasil], conde dos Arcos, [D. Marcos de Noronha e Brito], ao [governador do Reino], Patriarca eleito de Lisboa [...] 16 de novembro de 1818. AHU_ACL_CU_017, Cx. 281, D. 19630.

Fontes impressas

DECISÃO nº 14, de 20 de novembro de 1818.  In: COLEÇÃO de Leis do Império do Brasil (1808 - 1889): Decisões de 1818. Disponível em: <https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/legislacao/colecao-anual-de-leis/copy_of_colecao1.html>. Acesso em: 14 nov. 2024.

IDADE d’Ouro do Brazil, n. 60, 1º agosto de 1817.

Bibliografia

ESPARTEIRO, António Marques. Catálogo dos navios brigantinos (1640-1910). Lisboa: Centro de Estudos da Marinha, 1976.

FORTUNATO, Thomáz. Topologias do tempo: a formação da rede dos correios no Brasil (1796-1829). Dissertação (Mestrado em História Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2023.

GUERRA FILHO, Sérgio. Entre a baía e o oceano: aspectos navais da Guerra de Independência na Bahia (1822-1823). In: DUARTE, Marcello Felipe; LOUREIRO, Marcello; GULÃO, Marcelo (orgs.). A armada imperial e a independência do Brasil: outros olhares, novas perspectivas. Rio de Janeiro: Jaguatirica, 2023, p. 209-230.

LAURENZANO, Mayra Cristina. Os conflitos platinos e a formação do Estado brasileiro (1808-1828). Dissertação – História Social. Universidade Federal de Londrina, 2009.

SALVINO, Romulo Valle. Reformas postais joaninas: redes de comunicação escrita e novas territorialidades em um império em movimento. Ciclo de Palestras Horizontes Atlânticos, Santa Maria, Universidade de Santa Maria, 2022. Disponível em: <https://bit.ly/4fE9T1x >. Acesso em: 25 jun. 2024.

Base de dados

NOTÍCIAS Atlânticas. Brasília, 2024.

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