terça-feira, 3 de setembro de 2024

Os Correios Marítimos da Bahia (1812-1822) – parte 2

Na postagem anterior, introduzimos a história da implantação pelo Conde dos Arcos, a partir de maio de 1812, de um sistema de pequenos navios correio entre a Bahia e o Rio de Janeiro, uma passagem que, apesar de não totalmente ignorada pelos historiadores, merece ter o seu estudo aprofundado, haja vista o seu pioneirismo e sua importância para a  comunicação em um importante eixo geográfico da América portuguesa.


Figura 1 - Escuna. Ilustração de Maria Luiza Ferguson. Fonte: GODOY, 2007, p. 250.


Vimos que o sistema começou a operar com o uso de três escunas recentemente construídas na própria Bahia, como, parte de um esforço que lançou ao mar, entre 1811 e 1812, algumas embarcações mercantes e um conjunto de vasos para a Armada Real

A reconstrução das viagens dos paquetes da Bahia foi realizada a partir de uma base de dados que vem sendo elaborada desde 2021, a partir de diversas fontes primárias e secundárias. Embora incorpore dados de outros periódicos, como Gazeta de Lisboa e a Idade d’Ouro do Brazil, a base foi intitulada inicialmente como Notícias marítimas, mesmo nome de uma seção publicada pela Gazeta do Rio de Janeiro entre 1811 e 1822 .  Foi dessa forma que a anunciamos em palestras e minicursos. Teve, contudo, seu nome recentemente alterado para Notícias atlânticas, devido à incorporação de informações  relativas ao funcionamento de algumas linhas postais terrestres. A pretensão é que agregue posteriormente, inclusive, dados sobre as tropas de mulas, cruciais para a comunicação na época.  

Mesmo ainda em construção, a Notícias atlânticas deverá ser disponibilizada publicamente até o final de 2024. Em próximas postagens, apresentaremos mais pormenores sobre os objetivos, a estrutura, as fontes e o processo de elaboração desse repositório de dados, mas informações preliminares podem ser obtidas na palestra disponível no Youtube já mencionada em nossa postagem anterior (SALVINO, 2024). 
A construção da base foi importante para o tratamento quantitativo de dados relativos não apenas à linha postal da Bahia, mas também de outras. No caso específico aqui em estudo, todavia, a fonte primária principal foi a mencionada seção “Notícias Marítimas” da Gazeta do Rio de Janeiro, que estampava não só as datas de saída e chegada dos barcos na sede da monarquia, mas também os tempos de percurso dos que ali aportaram, de modo que foi possível calcular quando teriam saído da Bahia (Figura 2).



Figura 2 - "Notícias marítimas". Fonte: Gazeta do Rio de Janeiro,  12, 8 fev. 1812.
Imagem reaproveitada de: SALVINO, 2022.


Desde sua primeira edição, em maio de 1811, a Idade d’Ouro também informava as datas de chegada, bem como as previsões de partida dos navios mercantes portugueses na Bahia. Todavia, eram raros naquele periódico os registros desses movimentos nos casos das embarcações de guerra e estrangeiras, motivo pelo qual não foi possível confrontá-los com os do Rio de Janeiro no caso dos paquetes. Esse cruzamento, por outro lado, foi realizado no que se refere aos demais navios, com a alimentação da base com informações oriundas dos dois portos envolvidos, as quais foram aproveitadas nos estudos de tempos que serão objeto de próximas postagens. 

Entretanto, se o jornal baiano não se prestou ao fornecimento de dados quantitativos sobre os paquetes, foi importante, em conjunto com outras fontes, como documentos do Arquivo Público da Bahia, para reconstruir pormenores do histórico operacional daquelas embarcações, como se poderá constatar nesta e nas próximas postagens.

Todavia, o funcionamento da rede não aconteceu exatamente como o planejado, conforme se pode ver nos Quadros 1 e 2, que trazem um resumo das viagens dos paquetes, tendo como foco a partida deles em cada um dos portos envolvidos. 

Figura 1 - Fluxo dos paquetes da Bahia para o Rio de Janeiro (1812-1822). Fonte: Banco de dados Notícias atlânticas


Por convenção, para uma primeira aproximação do problema e tendo em vista que os quadros são uma representação simplificada do fluxo temporal das viagens, atribuímos todas as saídas acontecidas depois do dia 20 para o mês seguinte, considerando-as como antecipações. As datas reais, nesses casos, encontram-se consignadas nas notas que acompanham cada quadro. A análise mais acurada dos dados, tratados de forma contínua, não compartimentada nos meses, será apresentada nas próximas postagens.
Figura 2 - Fluxo dos paquetes do Rio de Janeiro para a Bahia (1812-1822). Fonte: Banco de dados Notícias atlânticas

Apesar de haver algumas evidentes falhas nos registros da Gazeta do Rio de Janeiro, elas aconteceram em poucos casos. De modo geral, os fluxos retratados pelo periódico mostram-se completos, com cada viagem de ida correspondendo a uma de volta, de modo a completar o giro. Na minoria dos casos, tornou-se evidente que faltavam informações sobre um dos trechos, já que, por exemplo, seria impossível um navio partir em sequência duas vezes do Rio de Janeiro, sem que houvesse uma viagem de volta intermediária da Bahia, ainda que com eventual escala em outros portos. Foi possível reconstituir essas falhas a partir do movimento geral, com razoável certeza sobre os meses das partidas, ainda que não seja possível saber as datas exatas delas. Os registros desses casos foram grafados em vermelho nos Quadros 1 e 2.

Algumas vezes, a linha postal teve de ser suprida por outros navios de guerra, devido à indisponibilidade daqueles originalmente destinados à atividade. Nesses casos, os nomes desses substitutos estão grafados de forma completa nos Quadros 1 e 2. Foi o que aconteceu, por exemplo, em agosto de 1815, quando a Bahia foi forçada a despachar para o Rio de Janeiro o brigue Principezinho (CARTA, 1815), depois de o Rio de Janeiro ter passado mais de dois meses sem devolver as escunas ali recebidas e de a Pandura ter saído em missão para Pernambuco por ordens da Coroa.

Fontes primárias 

CARTA do marquês de Aguiar, para o conde dos Arcos, comunicando que, com o oficio de n° 47, foi presente ao Príncipe Regente, o motivo que obrigou a expedir para esta Corte, como correio, a bergantim Principizinho [...] 18 set. 1815. Arquivo Público da Bahia, BR BAAPEB CCivil-BR BA APEB CCIVIL CR-117-309.

GAZETA do Rio de Janeiro, diversas edições, 1811-1822.

Bibliografia

GODOY, José Eduardo P. de. Naus do Brasil Colônia. Brasília: Senado Federal, 2007.

SALVINO, Romulo Valle. Reformas postais joaninas: redes de comunicação escrita e novas territorialidades em um império em movimento. Ciclo de Palestras Horizontes Atlânticos, Santa Maria, Universidade de Santa Maria, 2022b. Disponível em: <https://bit.ly/4fE9T1x >. Acesso em: 25 jun. 2024.

SALVINO, Romulo Valle. Notícias marítimas: navios e comunicação entre o Rio de Janeiro, Lisboa e a Bahia na década de 1810. Ciclo de Palestras Encontros Piratas, Santa Maria, Universidade de Santa Maria, 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=KqdmiXhH1yg . Acesso em: 10 jul. 2024.

Banco de dados

NOTÍCIAS Atlânticas. Brasília, 2024.



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Os ataques aos correios marítimos Caçador e Olinda (1801)

Os próximos ataques a paquetes portugueses somente viriam a acontecer em 1801. Naquele ano, foram perdidos o  Caçador  e o Santo Antônio de ...